19 janeiro 2017

Sobre fugir


Parte II


Era um dia de chuva, eu lembro bem. Uma espécie de garoa caiu boa parte do tempo.
Sabia, por exemplo, que mesmo depois de muitos anos ainda seríamos capazes de vibrar com as mesmas músicas, as que ouvíamos na sala, sentados no tapete, trocando umas ideias malucas.

Conheci-o no metrô. Perguntei o endereço do local de prova, pois não conhecia aquela cidade ainda. Eu vinha do interior áspero e selvagem no qual as pessoas rapidamente perdem a virgindade de todas as coisas que podem dar merda na vida. Lá estava eu: tentando sobreviver a uma megalópole.

Nossos olhares só precisaram de frações de segundo conectados. Kiss chegar perto de sua boca e que sua língua fosse lentamente me fazendo rir dos lugares incríveis que ele conhecia e dos que ele nem podia mencionar ainda, afinal, mal nos conhecíamos.
Fui lá fazer a prova. E perder a prova seria perder muito, muito tempo e dinheiro. Alheios. Eu era um investimento, uma aposta como essas de cavalo de corrida. Se falhasse, a família toda falaria do fracasso e da decepção que tiveram comigo em 2015. E era como um buraco negro em meu estômago: "perder a prova".

Ele me indicou o caminho. Agradeci com pressa.  A pressa hepática tão típica da humanidade. De repente, ele parou. Parei também. Continuamos nos olhando e, finalmente, meio irritado por sua própria decisão, voltou seu corpo para mim e perguntou: "você está perdida?" Acredito que meu medo exalava tipos de hormônio detectáveis pelo faro.

Ajudou-me a chegar ao local da prova quase sã e totalmente a salvo. E só. Nesse ínterim, acredito, apaixonamo-nos de verdade.


Ah, como demorei a sentir o tal do gosto da boca dele. Ouvia sua voz e as coisas que ele dizia, mas minha atenção estava voltada para o toque da sua pele e o macio dos pelos dos nossos braços a se roçarem: braço com braço, já era um abraço, em pedaços mínimos e carne. Um micro abraço lateral cheio de odores ancestrais. Nunca cheguei a me inteirar de todos os sabores que sua boca poderia conter, nunca cheguei a bebê-lo totalmente líquido. Havia sempre uns pedaços indissolúveis, mas tenho certeza de que me apaixonei por ele perdidamente, logo de cara, sem pudor e sem vergonha, como um jeans rasgado e do avesso.

Não mais o vi. Por alguns anos. Era apenas um amor imaginário, desses de transporte público...  
Até que certa vez, estava com um casal de amigos que estavam que visitavam um casal de amigos e aquilo seria mais um rolê semidivertido típico, caso, por algumas dessas coincidências demoníacas do acaso, André não estivesse lá;
Bebi, vi, ri e senti de verdade naquela noite. Até hoje bem iluminada e palatável na memória, como se tivesse sido ontem.
Lembro-me de que terminamos a noite com as caras coladas, ele de cafuné em mim, bêbado, roçando meus cabelos até dormirmos. Seus dedos no meu couro cabeludo. Nada me faria desistir daquela sensação eletromagnética e dormir, mas o tesão, após algum tempo, virou delírio e o delírio, um sono agitado de sonhos obscuros e sobressaltos no escuro. Teias astrais.
Alguns meses depois, fomos acampar. Estrelas. Lá no alto, muitas. André acendeu nossa fogueira, preparou o jantar, tocou tambor. Eu cantei. E Pedro tocou violão.
Dormimos em volta de uma fogueira morna, tocos enormes em brasa. Nosso pequeno rebanho de aventureiros. Pedro, André, um casal de amigos e eu.
Dormimos inalando o cheiro do mato úmido quando fica de noite. E um bom punhado da fumaça da fogueira que nos provinha luz e calor pálidos.

Pedro era amigo de André, claro, estava na Bíblia. E senti Pedro em mim, como uma queda. Cilada cínica.
Sempre me apaixono errado. Como se me recusasse a seguir o roteiro da comédia romântica que escreveram para mim. 

E no roteiro original eu teria filhos com o André e seríamos um respeitável casal pequeno-burguês com pitadas de pilates, sexo grupal e gojiberries.

Seria apenas uma pulsão no púbis ou um sentir verdadeiro?

Ficamos, na noite seguinte, nus embaixo de uma cachoeira. Pedro e eu. Ele cláusula pétrea, eu cápsula crua. E nadamos como bons peixinhos, sem ejaculações, elucubrações, sequer beijos. Nada além de uma dose de nadar em água negra e fria. O negrume gélido nas têmporas, para amenizar qualquer crise.
Meses desejando André e roçando-me a ele como um gato de apartamento, derretida em todas as partes entre minhas coxas. Inalando vorazmente o cheiro que vinha de dentro de sua boca, o calor do seu hálito, quando falava bem próximo, e nada.

Pedro, não, notou um pequeno movimento em falso, um bater de perdas desesperado. Na noite seguinte, fomos à cachoeira novamente. Evidentemente, André não quis ir. Tirei a roupa automaticamente. Esqueci que na noite passada o fizemos por causa do vinho. Estava sóbria sobre uma pedra enorme, gelada e escorregadia.Tirei meu vestido, pulei na imensidão escura. Com medo, confiança e taquicardia. Pedro pulou em seguida, agarrou meu braço.E desde então já estava a penetrar meus beijos e anseios, Pedro e seus seis mil braços abertos para as coisas mais malucas da minha vida.
Incluindo uma overdose de sexo, e depois nutella. Diversos porres de vódica, doses de porra e absinto. Sinto muito. Bebemos juntos tantos litros de cerveja que poderíamos encher uma piscina olímpica. Éramos o exagero em pessoas. Eu pisava leve, tocava flauta, flutuava. E fazia panquecas de frutas vermelhas.

E ele fazia omeletes e o café mais forte e firmeza com chocolate amargo derretendo dentro do universo.
E a gente trepava muito, de tanta formas e cores e melaços.
Trepando de todas as maneiras, com todos os caprichos mínimos atendidos. E durante o dia, Pedro era my fucking best bródah, meu amigo jogando truco, zoando o André
Ele ria das minhas bochechas vermelhas e do meu cabelo despenteado depois de maratonas no quarto.

Passávamos os dias isolados em uma caixa mais longe que minha própria imaginação. E aquilo passou a não ter sentido algum.

Derreti meu pudor com açúcar e fiz meus órgãos caramelizados para serem degustados com uma cerveja bem escura ncorpada no copo mais gelado do fucking planet.
Quando tudo aquilo ficou chato e, principalmente, quando acabou toda nossa dopamina cerebral, sentia como se as panquecas e as rusgas e as músicas no tapete fossem simplesmente chatas. E inexplicáveis. A ausência de sentido, muitas noites sem dormir.
De repente, quis apenas estar totalmente submersa no proibido. Deslizar para sempre para dentro do incerto. Então fugimos. E eu fugi de minha própria fuga. E vivi um amor proibido. Ou revivi? E vi muitos pássaros, mais do que seria capaz de dizer.
Então, estou totalmente isolada do resto do mundo de tantos voos de tarde, tanto céu entardecendo que nem posso suportar...

André me encurralou. Foi de repente e foi quando eu não queria mais nada. Nem troco, nem Pedro, nem Budha, nem ninguém.


Mas eu ia ao banheiro e ele saía. O corredor ficou estreito e o role ficou pequeno. Ele segurou minha cabeça com determinação, como se aquilo tivesse sido feito há anos. Enroscou meus cabelos entre seus dedos com calma e precisão psicopata e sua boca foi engolindo gentilmente a minha, viu que correspondi me derretendo. Então, fomos à lua. E, maluco! De repente ele era um copo com gelo, rodelas de limão e vódka gelada e soda explodindo dentro da boca. E massagens nos pés! Cheiro de mar, de mais, gosto de cavernas escuras e ele parecia me querer mais que eu a mim mesma. E me quis como se eu fosse ontem, transbordei;

Ali, no corredor, em dez minutos, tornamo-nos doces animais. Afastamo-nos em chamas, em chamas nos sentamos e engolimos seco sem saber se aquilo foi mesmo real.
E eu queria mais. E fiquei querendo. Mais. Para o resto da vida. 

Sobre fugir

parte I

Dois dias. Dois dias e tudo será tão diferente. Difuso, confuso e gostoso.

A primeira coisa de que me lembrei quando entrei no carro foi minha mãe, não sei porque, mas vi seu sorriso através das gotas d´água em meu cabelo suado. A vida suada que ela leva, sempre de tarefa em tarefa. E fui feliz por ela. Agora serei feliz por mim.

O carro acelerou e olhei para ele. O sol deixou dourado seus cabelos, embora eu soubesse quão negros seus cabelos podiam ser no chão da nossa grama. Aquele estranho. Eterna pulsão de vida com sabor de estranheza e steinhäger. Sorriu como se estivesse saindo de férias e indo ali, passear - o que deixou me deixou realmente feliz, sentia-me evaporar como a fumaça do nosso bem bolado.

Enquanto o carro ia a não sei quantos por hora, o som estridente dos Stones, Sympathy for the Devil, enchia meu cérebro e embriagava meu peito. Ele falava, eu ouvia, ria, fumava, falava também.
Entendi, mais tarde, que não haveria outro lugar no mundo em que eu pudesse estar.

Podia sentir a vibração empolgante de André através do jeito risonho, sagaz e espirituoso de quem está realmente feliz. Um pinto no lixo, como dizia minha mãe.
Um pinto no lixo também era eu, entre os estranhos, esquisitos, os que tem sede de justiça e liberdade, posto que herdarão os reinos no Céu.

Estava atrás dessa profecia. De experiência, de me arriscar, de botar meu corpo como última aposta nessa roleta-russa ignóbil chamada vida.

Chegamos já era noite. Ele me ajudou com a barraca.
Mais tarde, anos e anos depois, eu perceberia que desde o início ele já me ensinava, cada gesto, cada olhar seu era uma lição e eu também o ensinava com meu ímpeto de mergulhar de olhos tão fechados na correnteza incerta da chuva.

Ele nunca chegava em mim. Era sempre eu, com uma sede raivosa, doce no final, que o procurava. Algo que de fato eu não compreendia. Nem fazia questão. Eram apenas os dias, a janela do carro, a música radioativa no rádio. Eu era a Deusa Bastet e Súdita da Deusa, eu era uma pequena capela, o seu milagre. O sacro-profano socando o mundo.

Dava para ouvir a cachoeira da trilha. Dava para ouvir meus batimentos cardíacos escorrendo com a água.

Fizemos a fogueira. Na verdade eu e André caminhamos silenciosos procurando por lenha. Depois, André a acendeu. Eu apenas me aqueci ao redor daquele fogo morno e confortável.


Estava eufórica. Levantei descalço. Ri e disse que precisava dar uma volta. Ele me seguiu.

Apertou meus braços com uma força improvável e desnecessária. Também estava fugindo -não sei bem do quê, mas estava, - não me importavam os motivos dos outros. Pedro era amigo de André. E eu nem sabia ao certo quem era. Nem ele nem eu.

Sentia-me triste, curiosa e faminta e não entendia o porquê.

André era bom em acender fogueiras e construir um abrigo e preparar nossa janta. Mas Pedro era bom em seguir garotas bêbadas.

Tomamos o penúltimo gole da última garrafa de vinho, mas isso me pareceu irrelevante, não suportaria outro gole sequer, sorria, sorria para tudo que diziam como uma perfeita idiota, mas eles riam também, riamos todos e era tão bom, como se fôssemos um hábito de sábado, durante muitos anos.

Ele puxou minha mão. Nunca tinha entrado em uma cachoeira de noite, antes. Era realmente uma ideia louca e sedutora. Tirei minha roupa e deixei que o frio me invadisse, o escuro completo daqueles cabelos negros. E meus lábios gelados tremiam, o frio cobria meu corpo quente como um vestido de vento e cristais invisíveis de gelo.

Pulei na água e ainda de olhos fechados ele deslizou seu dedo para dentro de mim, girou suavemente, sentindo cada cavidade íntina. Ao mesmo tempo, beijava meu clitóris. Meu corpo arqueado na pedra. Resistindo e cedendo, tremendo, sobretudo.

Entre meu ofegante querer e sua resoluta vontade, cada pedaço de pele em meu rosto, meus olhos, tremeram até as lágrimas. Ele queria sentir até o sabor de minhas pupilas.
Eu o comprimi com minhas mãos, enlacei minha perna à sua cintura e sugava seu gosto e seu cheiro com todas minhas forças, como se quela saliva e aquele resfolegar fossem um banquete delicioso oferecido a um esfaimado de rua.

Gozar não diz nada sobre o que senti. Sobre como me senti. Então, vou dizer que a lua simplesmente aumentou de tamanho, eu podia jurar. Digo que fui à lua, como se fosse um exagero, mas é por não haver um dizer. A cachoeira curou completamente minha bebedeira.


Voltamos de mãos dadas. O mundo estava em silêncio. Exceto por aqueles sons longínquos de sapos, cigarra, cigarros, e o dedilhar delicado de Pedro, ao violão até o amanhecer.



07 outubro 2016

Eloísa era ruiva, às vezes,
um pouco tímida.
anos após o seu aborto,
Ela faria uma cirurgia bariátrica
E se sentiria linda.

A outra, vamos assim chamá-la, fraca chama,
era coisa que não compreendia
 Nossos destinos estavam mais estreitados que a teia
De uma cama intrépida e vazia

Sinto sua presença na brisa
No beija-flor
Em qualquer merda que eu diga.
Agora, falemos dessa cidade índiga:
meu solilóquio só não será maior
nem mais patético que toda a sua filosofia
Aliás, não consigo imaginar nenhuma humanid
ade sem a minha
preciso alertar a todos que os eventos são mais interessantes
no facebook e toda máscara é mais bonita
de longe do que ao vivo.
no sorriso das meninas
o falso brilho.
Quem ousa estar acordado tão tarde, sentindo-se algo entre importante
e majestade

O tempo

ontem eu era o tempo que já foi teu

hoje sou o raio de sol nos cabelos dela da outra que fui e permanece como a sombra de uma cerejeira

não há sentido que não se sinta
não há noite que chegue para sua cítara mágica transtocar
quem é Elisangela Neiva?

uma pessoante que soa
inverossimelmente
pessoa.

quem é Marco Aurélio?

o menino de orelhas de abano
sentado sozinho no fundo dos olhos
de uma sala de aula
cheia de macacos de carne

virá o tempo dos furacões
virá o tempo índigo
digno de notas douradas no imenso livro da vida
deste pequeno universo

Noite Insone


já que o sono some
na velocidade do seu nome
estou aqui lendo as entrelinhas dos seus supostos olhos
famintos,
infinitos...
olhos verdes, olhos negros
que nada poderia ser mais amor que este resto amargo
de licor
que sai da sua carne
não durmo
não duro muito tempo em pé
pensando em um hipotético você
recostado atrás do meu
cigarro
as dúvidas são as únicas que resistem
com as pálpebras arregaladas
observando o Nada
absurdo da madrugada
mais um cigarro na sacada
e volto enfim a cair
em minha própria emboscada...

Do luto


Tudo que a mão toca
e permanece ali
encontrado aos olhos
parece tão estranho
enquanto a gente morre
e a mão que tocou
aquilo tudo
naquela casa vazia:
a xícara, o copo, os livros não lidos,
os vasos, o sofá, a estante...
parece tão estranho e distante
que petrifica,
está pálida e fria
e morta.

Rolezin na Rua Angústia

o céu clareando aos poucos devolvia cores às fachadas pálidas da avenida
a rua tinha cheiro de desinfetante velho e subia
da boca de lobo um vapor fétido que aquecia

dividia com ela o último cigarro
the cramberries, Beatles e a chuva fraca,
não se lembrava mais das letras e o frio infiltrado na garganta arranhava quando a cerveja descia gelada e, mesmo assim, bebia, bebia  e a boca seguia seca...
ela era uma flor plástica que colhi no interior de uma lojinha de relíquias libanesas
no âmago de tudo que se abandonada ao pó e às teias
e os vultos voltam. sempre iguais. ela quer seguir em frente
eu não quero mais...
mentiras sinceras seriam bem mais bem-vindas que aquela secura na oca na boca! o telefone dela toca mas ela não toca no telefone.
quer ficar. tanto ao ponto de gritar um sorriso. ah, se fôssemos desses que choram...
mas prefiro a imagem da minha língua lambendo suas costas.

ela procurava o casaco -havia esquecido que não trouxera nenhum.
tateava em busca do dinheiro, que já havia gasto.
sem dinheiro, sem sono, sem cigarros - o peito ficava largo.
os olhos caídos a boca um pouco torta.

depois de transarmos, dormia cílios tão grandes
tinha sonhos tranquilos opostos às batidas densas do techno

entramos na boate e a felicidade aqui é obrigatória. quer um trago? quer um gole? quer mais um trago? quer um porre de porra boca a dentro? mais uma dose? é claro que estou a fim a noite nunca tem fim, por que que a gente é assim?

no banheiro, havia uma fila de narizes sendo inspecionados no espelho. jogar água na cara não era serviço simples.

uma garota fumava um baseado apagado com a calcinha nos joelhos enquanto sua amiga vomitava na privada. Filas e mais filas se sucediam na disputa pelo espelho, espelho meu.
meus colegas deram no pé.
e eu ainda estava lá. Parado na porta, esperando por ela com aquela língua enorme e uns olhos que seriam mais alegres se não estivesse tão tarde.
Quer uma água? Não, não quero nada. só colo. socorro. queria me casar ou praticar yoga.
queria principalmente mergulhar em seus olhos verdes em plena luz do dia e, é claro, quando finalmente saísse o sol no céu outra vez
mas o gosto de esgoto na boca não ia embora nem com chiclete.
barata seca, vapor de chiclete de menta, salivas de cereja e cervejas, o céu era um inferninho particular na cidade gelada, uma viela que brotou na angústia, a rua augusta, com o nariz escorrendo
e paisagens lindas, cinzas, dentro.
ela estava, talvez fosse precipitado dizer, talvez fosse perigoso, mas o fato é que estava feliz.
o tipo de felicidade que não se diz, só oscila a cor dos olhos.
estranha satisfação de preencher o corpo com álcool, sêmen e música.

olhos presos ao copo o gelo girando mais rápido que a minha cabeça tlintando a fumaça luminosa misturada à vontade de vomitar é uma arte ficar de boa.
bocas se rasgando em risos chupando brasa e soprando fogo pelas ventas. Ela pensou no sabor de tequila que a sua língua tinha -e se lembrou de que não bebera tequila.
as cinzas batidas no chão. um dia, sem batidas, nós seríamos cinzas
sem pernas femininas, nem perfumes adocicados misturado aos odores do banheiro... eu estaria em absoluto repouso
apodrecendo calmamente
sob a terra.

Eu a acordo, toco seu ombro e a retiro do fundo da cova, na verdade, uma poltrona de veludo vermelha.
Vamos. Mas já? sonolenta recolhe o pouco que podia levar de si mesma.
engatamos a primeira, a segunda, conta paga, a lufada de ar gelado indica que já demos o fora dali. o dia está prestes a.
Amanhã, o mesmo dia.
o sol se arrasta com as horas e as fachadas da avenida recobram suas cores agora vivas.
e aquela noite longa, invencível, com cheiro de desinfetante só se notaria pelo arroxeado pálido em volta dos seus olhos
pelo caimento melancólico nos lábios.
por seus dentes que rangiam dentro da boca, remoendo possibilidades mórbidas...

Beijo Gourmet


feche esses olhos tridimensionais
nenhum lábio que pretenda se abrir em carne 
deve estar acompanhado de olhos estranhos, castanhos, que só enxergam
planos cartesianos
abertos
dentes arreganhados de medo
jamais degustam um beijo
boca seca, que seja,
se a sua saliva salva
a nossa briga de línguas
calma

achismo

a gente acha que não vai morrer
porque tem um bebê
que precisa de mim e de você
a gente filtra sonhos com cipó
e galhos
e adia o dia de romper hábitos
a gente acha que vai durar até os filhos crescerem
mas não acha que vai envelhecer
eu acho que vou ficar
com medo
assustadiça
metade tédio
metade preguiça
e justamente por preguiça
irei trabalhar muito
para viver
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

Acreditadores


a verdade estava lá
escolhendo um vinil pela capa
porque 
tudo era muito antigo
no estilo de vida
dos acreditadores
alguns vieram de repúblicas
estudantis não democráticas
com gravíssimos casos de desvio de verbas
para a nova mesa de bilhar e
e todo aquele macarrão instantâneo
produziam gases e opiniões
particularmente
desagradáveis
digo, os acreditadores nasceram para
serem inteligentes e altruístas
visionários de um mundo sem volta
mas ninguém quer conhecer a verdade que está até agora solitária segurando um copo de cerveja a procurar um som na vitrola que possa agradar]
Era um domingo de paz
de pastel
Era um felino voraz
lá no seu
celular
E de noite
comer cachorro-quente e
aí a gente vê
vídeo e se sente
como se devesse morar ali
Tenho mais amigos em
Sons of Anarchy
do que aqui
a vida
tem cisco
é macia
às quatro horas da tarde
e fria
às quatro da madrugada
são minhas
essas sandálias aí no quarto
guardo recordações
como quem pede desculpas
são tímidas
as tentativas de sorrir por dentro
por enquanto, aguento
mas haverá momento
em que a lua, uivar só
ou murmurar preces
não farão diferença
neste sacro instante
quero virar estrela,

de
diamante
o que eu posso fazer é tão pequeno e delicado
quanto seu pé
meio branco,
morno ou gelado
quando ela acorda tem café
e não poder ir além de fritar alguns ovos com muito carinho
nem precisar ir
além dos ovos fritos com muito carinho
é tão calmo quanto quando se escuta um passarinho
não é para qualquer um escutar passarinho
respiro o fundo do cheiro da boca
daquela moça
que mesmo feliz
é melancólicas
mensalmente menstruais
mas tanto faz
somos doces animais
aproximar-se de alguém, gostar, é um exercício de acupuntura
o eu oferece-lhe sua agulha, perfura
um pedacinho da sua pele-ego
e rompre a pequena bolha de isolamento
em vão, espetando-se suavemente
numa dança de micropontos
pequenos
tocados
na delicadeza
das pontas
penetrados sempre
superficialmente
e agora adoramos com os olhos moucos
a beleza de quem se vê inesperada e reflexilogicamente tocado em diversos pedaços do corpo
por outro
por aquela
moléstia
etérea:
o amor

sobre sábados


sábados são vagos
como são os afagos
os sábados
estão afogados
em perspectivas e perseguições
são lírios em seus devidos lugares
são vagões sublunares
sou eu pedindo desculpas após pisar
nos pés de alguém
por tentar
fazer você tropeçar
seus olhos
no meu olhar
sábados são fantasias de
carnaval, carne vai, carne vem
têm mais gel do que deveria
têm pouca purpurina
sábados são ocos,
ou loucos
ou outros nos quais eu trabalho até tarde e vou dormir de porre de
porra nenhuma
os sábados são os únicos que arrepiam a nuca
são insanos e são
tão poucos
ao longo da semana

Tinder


Não sou a mulher da sua vida
sou o veneno da víbora pulsando 
no seu leito agonizante
de sorte
Sou um cardume de peixes voadores em volta da sua cabeça mordendo a sua clavícula penetrando por sua bochecha
Beliscando a sua orelha com boca apetitosa
Eu quero quando você é rosa
E quando chora
leite e eu sou mel
Escorro
Morna
Deslizo com o corpo

escorregadiço
no seu pescoço
meus pelos pubianos
eriçam
com a mesma calma com que suas mãos
arranham


Você é meu crush mais crocante
mais doce que refrigerante
a acidez lúgubre, porém, dos autores que
lê em seu secreto porão
é o que realmente
me dá tesão


08 agosto 2016

faço de conta que 
sou de aço 
inoxidável pareço
um modo 
de segurança 
falho, uma emergência catastrófica 
do tipo 
vermelha

do tipo sangue na sua calça 
branca
ninguém pode saber
(ninguém sabe)
que, na verdade, 
todas as mulheres sangram
em silêncio e em segredo
porque temos medo
de ser alienígenas

ninguém sabe que não sou
o suficiente
que nunca me sinto
nós
nos prendem
em tédio perpétuo como
um castigo, um sonho, duas toneladas de chocolate
e eu ainda não dormi
não vi
aquela série
não vi
um rosto 
como o que eu imaginei
a vida nunca 
se parece com o filme da tv
mas eu tento
cinquenta e cinco
por cento
de certeza de que
você sente 

o que eu sinto
não é aquela coisa cor de rosa chiclete
com pantufas e lingeries
e pares de brinco que você imagina
é mais como um chilique
um desmaio de sol demais
uma bebedeira de uísque com cocaína

um retração no estômago
involuntária

ao mesmo tempo que em preciso de mais uma cerveja almejo da sua boca
a precisa letra da música
do palco
no fundo
você não quer que nada aconteça porque as partes são comprometidas em contratos
vitalícios que vão
muito além do tesão


mas você não entende
eu sou, só se for completamente
não consigo ficar pela metade e se fico
me multiplico
entre faturas vencidas da Renner
e essa falta de vícios
que a gente sente 
quando compartilha uma ideia


você não entende que
nada disso tem a ver
consigo
explicar
um pouco, não adianta
você só vai entender minha língua
quando estiver explicitamente
a experimentando


17 julho 2016

Há cinco gerações seguidas,
Passava desapercebido
Como pequenos erros de cálculo ou moedas esquecidas no bolso,
O balanço de ferro no fundo de casa.
O cachorro lá se deitava,
Lá se balançava...
Todos já se haviam ido,
Mas enquanto o balanço rangia, lá pros fins dos dias nos cafundós do mundo,
O cão não se apercebia
Que não tinha mais nome, nem dono,
Nem comida,
Nem água
vem pagar caro para ouvir barulho
beber fermentado de milho transgênico
vem fumar veneno
soprar na calçada o vômito da madrugada
ainda amarga na garganta
e não adianta
só o tesão vale a pele...
O saco vermelho do Papai Noel
Não atravessei o
paraíso para aquilo
que pensei 
sou tolo
como qualquer outro
que torce apenas para que a sorte
venha antes da morte
e no meu leito de desespero
comi mingau de arroz e peido:
tudo morre,
tudo morre,
tudo um porre sem fim
tudo sobre você sem mim
Cheguei quase no meio da festa
era a fantasia final
no baile de prematuros,
natimortos
ou natiruts
a dor era fecal
agonizando peixe e azia
a tia da cozinha sabe mais da fina filosofia que meus velhos óculos
adivinham
estou cansado
e é natal
estou cansado
e é natal
estou um saco...
Este seu jogo
eu manjo de longe
não tente esconder
a espuma com o horizonte
não se faça de besta
que eu escuto
até o pensamento
mais escuro
você se acha esperto
um garoto moderno
atrás do rapaz
da capa do caderno
corre atrás dele
para tentar comer
os seus restos de ração
que o cão maior e de latido melhor
mais altivo que o seu
já comeu
até se infartar...
seu papel de palhaço
não tem psicodelia
o seu traço de sorriso
é melancolia...
violento
impulsivo
mimado
detesta perder
detesta esperar
preferencial
não humano
mentiroso
imortal
deus
sorridente
meigo
generoso
altruísta
amigo
humilde
melancólico
sincero
mortal
humano
eu quero comer
você de pijama
não quer
cozinhar
eu quero fazer
um bolo e um drama enrolar
minha paciência na folha de uva
eu to vendo
uma jovem vulva
vulgar
eu to passando batom
no espelho
do bar
e tô aqui
insistindo na tv
fazendo charme para mídia
jogando nintendo wi
eu não tô nem ai - que assim não dá
me passa o sal ou me pega na mesa
mais uma cerveja,
ou seja,
cansei
de passar
batom nessa cara de sonsa
que Deus me deu
prefiro ir pro breu
da minha cabeça
cansei de fazer
alianças só pra jogar no ralo da pia uma voz vazia
ja me dizia:
tudo parte do fim
tudo começa com sangue
e termina
unanimamente
em mim.
o maior desespero
daquele pássaro
era voar
o pesadelo do olhar
era ver
seus doces, seus salgados
indo lancheira abaixo
todos comiam:
menos ele
ele era solitáro
e tacanho
dizia coisa sem cabimento
e seu limítrofe e pequeno tamanho
não continha
sequer seus gestos
dizer que usava óculos
era dizer pouco
sua boca
pedia soco
seu jeito de andar
pedia briga
sua família 
- não falemos dela
a família faliu há muitos anos
que sua mãe bebe demais
e seu pai não ganha mais dinheiro
ao chão seu mundo intreiro
há de rastejar por muito tempo
e por algum emprego
não há erro
nem cálculo
por seu próprio proveito
por que não morre agora
simplesmente de câncer?
porque câncer não é tão simples assim,
nem rotineiro
e se tem o modo inteiro para morrer...
por que não continuar
vivo?
o buraco
só aumenta
quando o sacro
se ausenta
sinto o sal da sua presença
a sombra que aqui habita
não hesita nem reflete
há parasitas entre serpentes
enquanto
eu saio de fininho
no bolso
um isqueiro,
três trocados
amassados,
para comer de noite.
a vida leva o sopro da morte
eterna quando seus olhos encerram
uma passagem entediante da bíblia
se eu pudesse
deixaria ainda mais longe
sem água, nem carona
na tempestade de areia
do seu próprio deserto
mas espero
esperto e desperto
seu próximo ato de desespero
com esmero
selo
minha boca
às coisas poucas
que com suas mãos mocas
você me oferece.
de tez em tez o dia
amanhece  
azul pálido perto de um negrume líquido
ninguém é imune ao silêncio cósmico do grito de
antes do sol
nascer
E se você soubesse
Que cada passo apressado
É um passo mais rápido para morte...
Se você tivesse a sorte
De ficar parado, no pasto,
Pensando
O sol a lhe brindar na pele
Raios de puro amor
Apartidário
Mirar-se-ia na mata
Em que se abrem e morrem
Sempre e nunca as mesmas
Flores..
O céu lhe diria em silencioso azul
Sem pudores
O que ninguém com tanta potência impaciente compreenderia

Enquanto houver Londres

Enquanto houver Londres
haverá esperança de que um dia eu possa ir até lá
contemplar nuvens cinzentas acima do Big Ben.

Ora, enquanto houver jardineiras de grávida e martinis o suficiente para esta noite, haverá esperança de que eu fique realmente bem, como se estivesse de férias de um longo e árduo trabalho -
de parto.
Partirei ao meio meus receios
partirei de malas prontas
para Londres, para longe desse burburinho em excesso
tudo que dissermos: será em excesso

as mortes, os acidentes nucleares, as bombas, as crianças 
afogadas
em palavras de pseudofelicidade 

Enquanto houver esse murmúrio dantesco incessante e midiático, todas as palavras se perderão no tempo-espaço
e escrever será tão útil quanto fazer silêncio,
posto que o silêncio
será mais agradável.

paz de cinzeiro

A paz até padece pálida
Se parece com água
Gelada
Suponho que está morta
Paz apagada
Carrego uma bagagem 
triste e pesada,
caindo aos pedaços...
Um sorriso que chora,
uma emboscada. 
Sufoco aos poucos na
felicidade perfeita
a pronta entrega,
embalada a vacuo
para viagem
que levo até o carro e devoro sem notar
enquanto dirijo e nenhum
cigarro basta,
e nem sei quantas latas
seriam suficientes
para substituir um
coração incrédulo,
latente e exaurido
por expectativas
gastas...
Mas em Oz só posso ser a triste mulher de lata
a procura de um coração
que bata
um pouco mais depressa,
enquanto

você
passa
O dia em que te perdoei em segredo
a gota que cai do orvalho da flor
é a mesma gota de dor
desprendendo-se da chuva
a tempestade inteira
existe para sorrir irônica
em sete fragmentos de luz
em um arco-riso
no céu
seus ânimos acalmados
calam-se na brisa inexprimível da noite
tudo é silêncio e simples
a folha velha se vai
para o broto continuar
este amor doido
chamado gosto de fruta
tangerinas transgêneras
goiabas brancas ou vermelhas
acerolas maduras
ou abacates marcianos verdes
como um caroço no
seio
tudo me veio
num relâmpago,
num lampejo
de lampião
Hoje é o dia do perdão
Os amanhãs:
perder-se-ão.
De tanto tentar
tatear no escuro
descobri que o incerto é
seguro
E a vida não tem solução.
Talvez o amor seja um muro
em demolição.
Talvez a beleza não seja
mais esta flor no asfalto
eu preciso ir mais alto
onde o ar é rarefeito
e as nuvens,
meu chão.
Malandro quando ele olha com rabo de zói espiando atrás do cigarro paieiro
Eu fico bamba as cadera me dói de tanto balançar minha rede
O peixe que me atira o anzol me pesca me leva pro tanque
Me mói
Tira minha cabeça e o resto
Come com shoyo
Vem cá ver, eu lhe mostro
O monstro mora na minha
Barriga
Por isso agora sem tripa
Lhe digo
Pode comer o meu
Corpo nu
No seu aquário sou raro e
Fecundo
Suas paredes de vidro
Um mundo
O passo se peco me perco
Me rói
Ruído sofrido de ser vagabundo,
Invado seu mundo me mudo
E mudo calado me abate um baque profundo
E tá difícil e lindo e sublime
Subir o declive enfrentar o declínio
Não tenho nome, nem fama,
Nem fé eu sou só
Um passarinho subindo
Eu sou só
Um passarinho subindo.

Amores líquidos

Primeiro me arrepio pelo cheiro. Nuca, braços, bicos rijos
Há também a voz e o sorriso,
O ciúme homicida
Aos poucos o amor ensina 
A paralisia facial cínica
O gesto dramático de fazer as malas e deixar para fora o que não pode ser, os livros, perfume, os cds...tudo que possa lembrar você
Tudo que remeta nossas metidas hei de devolver aos poucos meus gritos doidos às ruas, devolverei as feridas margaridas...aos vasos linfáticos
Posto que volto e amo às ruas, as mulheres nuas, as biritas, os baurets e o tabaco.
Pilantra, sim
Sólida, jamais
a mulher amanheceu
de sua noite
intranquila
rompeu fibras
cardíacas
sentiu que
a manhã seria mais limpa
não haveria o sangue das suas crianças
não
haveria mais as nuvens
seriam de algodão
os senhores não ficarão mais ofendidos
quando o prazer espalhar-se
por todas as castas, em todos os gostos, em todas as bocas
Em todas as casas
Deus perdoará
os homens
A mulher os perdoará
e uma guirlanda de flores
irá coroar a
nova rainha do lar
a nova rainha natural das coisas da vida
animais serão libertados,
as crianças serão libertadas,
a mulher decapitará o gordo senhor de bigodes e óculos que por séculos
confinou seus óvulos,
entre bens, cavalos, terras e escravas
e sã e salva
a mulher dará à Luz
um novo Ser
nascerá forte
de suas raízes mais íntimas
e femininas
o fundamental
respeito à liberdade e
e à vida
A luva engole os dedos na textura delicada da seda
Ainda é cedo para ser
Temerária
Peguei minha arma
Calibre 35 anos encarcerada
E dei um tiro, dois, três...
Os miolos voavam
Exibidos do teto ao
Útero materno
Limpei discretamente
Um pedacinho de carne humana
Da cara. Tirei as luvas
Guardei a arma.
Estou exausta.
É melhor ser pedinte que pedante
Não vou explicar de novo
O que deveria ter entendido antes
Mais cansado que um acadêmico casado há anos
Continuo procurando
Aquele re-cheiro de chocolate
De dentro do ranho
O Ista ia pela rua e o filho do Eike Batista quase o atropelou.
Por Odim, shake now baby,
o que faremos com essas paredes
vermelhas?
Na sala se fala muita besteira
as vozes apodrecem aos poucos
O locutor fica rouco
A violeta depressiva
Esconde-se em um lamentável vaso plástico
faz a cínica
Mas é aquela velha preta que mexe o purê, serve as vasílias, os talheres prateados na toalha branca e limpa.
Os sinos da Igreja badalavam,
mas os fiéis, não,
estes faziam silêncio meditativo,
ao passo que as horas se arrastavam, a deixar um caminho melado de lesma,
para trás.
E todos bocejavam o mesmo hálito úmido
dos móveis mofados.
E dirigiam o mesmo tédio eterno às suas Escrituras.
Se o paraíso se parece com isso,
Mandaram-me ao inferno,
e durante a noite eu vibro feito fogo
e me sinto mais vivo que morto
as alegrias efêmeras inflamam minhas veias
eu suo e sujo seja
o resto dos meus singelos dias
amarelos e noites escuras que ilumino
como a acidez do vinho
como a avidez do veneno
os lábios é o pedaço de uma mulher
mais difícil de esquecer.


Eu vou ficando menos desaparecendo
Enquanto os seus dias são iguais
As meninas têm cheiro de balalaika no hábito
Mentoladas
Você se apaixonou pela minha sombra.
Eu estou, ainda, quedada em mim.
Mais sedada que o verde enrolado em papel de seda lilás
Continuo insatisfeita depois da décima trepada
Ainda quero mais
turbar
Eu ainda quero
Mas os seus dias
Costumam ter cheiro de lar
Mesmo me fazendo pedra dura dessas que não brilham
e nada valem
a verdade é que sinto
falta
é difícil dizer
sua
Não adianta atrasar os ponteiros
não voltam atrás
Queria ganhar uma surra de bocas vorazes e seus batons
borrados
Mas
Acho que a festa acabou no capô do carro os últimos covidados se despedem com um tapa nas costas e outro
no baseado
em lágrimas que nunca caíram
Todos os sentidos me traem
sorrio só meio sorriso
É porque nunca me despedi
da sensação horrível
de perder o tempo
que não tive.
E pensar que agora sou um morro,
sepulto um coração cheio de carne
putrefata
ateio fogo em meu ateísmo
e renasço das cinzas
do meu cigarro...
fazer silêncio faz barulho
quando o pensamento muro
passa pela sua cabeça
Este é o último poema que lhe escrevo
ao alvorecer
uma dedicatória simples
que contenha mais algodão que mágoa
mais doce como sempre foi amargo
é que você tem um jeito bobo, moço,
que deixa meu olho borrado
e minha garganta apertada na fumaça do cigarro.
Trago engasgado
este último poema
um gole no gargalo,
uma gargalhada
enquanto seu circo pega fogo,
eu sou o palhaço
Estou indo embora de vez
da sua memória
levo até meus sapatos
que demasiado estrago
já causei na bagunça da sua cabeça
e antes que me esqueça
devolvo seus livros emprestados
amortizo nossa última dívida
divido só comigo mesma
pesadelos naufragados,
torres fulminadas
Nossas esquinas,
nossas tardes na calçada
agora são bocas e caras atormentadas
desculpe mas
sou uma criança autista e mimada
um campo de concentração minado
escuta meu pigarro
ele diz muito
sobre meu estado
precário...
Arde uma artéria
em meu peito
E se eu entendi direito
voar tem o mesmo efeito
espirado da fumaça
tenho vontade de continuar
vivendo, a maior parte do tempo
é a menor parte de mim
antes também não houvesse mentido
não era bom mas tão longe de ruim
que não ruía nem emitia sentido:
era bebedeira que
não quebra com
preguiça, com mandinga
nem com fingimento
o prazer obscuro de sentir dor
logo abaixo da cintura,
fissura
raiva e tesão ao mesmo tempo
e tudo se resume a um breve momento
um piscar de olhos do
tempo-espaço.
um piscar de olhos
água morna
escorrendo
molha o fundo
da calcinha
boca
dedo
língua
escorrego
no ego me
tempero com mel
e farinha
Eu que não te amo
houve um engano quando o guarda-roupa misturou nossas camisetas
eu fui ficando bêbada
eu fui ficando
eu fui...

poema do interior que foi para cidade grande

Quando a lua bater
simplesmente abra
seu guarda-luz-de-lua
o espaço necessário
entre a minha saliva fiada e a
sua estrela cadente
murmurada
dentro de tal esnobe peito
o meu defeito
já iluminou muita sarjeta
em que eu dormi,
sonhos sem teto
viciados em crack
e travestis siliconados
na madrugada Augusta
de Sampa.

um coração purulento
pulsando sangue
e não há unguento
que aguente tanta
fome
se não engolir a vida inteira
ela pode engasgar na garganta
e depois não adianta
chorar o cadáver derramado
tive tantos amigos sábios
no momento
estão todos
se fodendo
chupando os ossos
da asinha de frango
fumando as bitucas
da sarjeta
lambendo botas
comendo um cu
ou uma boceta
a tênue dança entre
suas pernas
e a linha reta
o ondular nas costas
do seu cabelo preso
por uma fita vermelha
quem tem mais sede
a vida ou a gente?
quem tem medo
não tem nada,
só razão.
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

acre ditadores

a verdade estava lá
escolhendo um vinil pela capa
porque 
tudo era muito antigo
no estilo de vida
dos acreditadores
alguns vieram de repúblicas
estudantis não democráticas
com gravíssimos casos de desvio de verbas
para a nova mesa de bilhar e
e todo aquele macarrão instantâneo
produziam gases e opiniões
particularmente
desagradáveis
digo, os acreditadores nascerem para
serem inteligentes e altruístas
visionários de um mundo sem volta
mas ninguém quer conhecer a verdade que está até agora solitária segurando um copo de cerveja a procurar um som na vitrola que possa agradar]