11 outubro 2017

seu pai engana e trai
sua mãe remói
e rói rancor
e unhas nervosa

você, quem é?
alguém que evita olhar muito por cima dos ombros dos outros
alguém que não deseja em nenhuma hipótese
morrer olhando para baixo
apedrejado em sua própria injustiça

olha para dentro,
não há contento.
olha para fora, a vida piora

quem é o dono do seu olhar?
as árvores o ignoram
os pássaros se apavoram e voam
as mulheres você quase nunca olha
para cima, para elas
e se olha e demora
pequenos abalos sísmicos e
fagulhas energéticas se soltam
e jamais voltam
ela vai levando esses olhos seus até o fim da rua
você a despe e nua
ela poderia ser sua,
mas é preciso voltar os olhos
ao relógio
antes que você se atrase de novo

e tenha de enfrentar
os olhos maldosos
dos colegas do chefe
olhos que riem
hipócritas


você ainda não desconfia
mas ter um carro, uma casa, uma família
faz dessas pessoas
as piores
sanguinárias, as mais
malditas

cospem na sua cara café e dicas
para enriquecer em um ano,
emagrecer em alguns dias

você só quer que elas morram
mas que antes sofram
todas as dores daqueles que por elas foram julgados
morram sofrendo e machucados
morram sangrando solidão, exilados
no próprio ódio que destilam

mas, não, oh, não!
que seus olhos alcem a luz.

não a luz dos monitores
dos smartphones
a luz que dos olhos some
quando você é um zumbi
como qualquer outro, escroto.

só que você é um poucos mais desajeitado.
não encaixou no mundo de primeira
tem dó de bicho, de bicha, de vaca leiteira
não come ovo, não consome farinha branca
come muita fruta
bebe muita pinga com fanta

solta o ar
no fim do dia
e ao som dos secos e molhados, no carro,
você sabe
que perdeu a vida

Calma, jovem,
sua vida
vai piorar.












30 junho 2017

Sobre fugir

Parte III


São cinco horas da manhã, não consigo dormir.

Ouço uma batida na porta. Ele entra, agitado. Ofereço água.  Permanecemos imersos em um silêncio aflito. Algo se comprime em meu peito, não sei porquê, talvez seja o horário. O olhar dele desvairado, despejando tudo em mim. Enfim, dispara:

- Vou me mudar. Viajo depois de amanhã. 
- Como assim? 
- Londres. Já pensou que legal? Nunca nem saí do país. Estou com um puta frio na barriga.
- Ai, como se você tivesse um buraco negro no estômago, ri.
- Isso.
- Sei como é.
- Ah...

Não sabia ao certo por onde começar.

- E quanto tempo você pretende...
- Não sei. 
- Por que você me falou só agora, André? Tão pouco tempo para organizar uma festa de despedida e...

Ele deu de ombros:

- Sei lá. Você tem um cigarro? Olha, desculpa te acordar essa hora é que...
- Tudo bem. 

Fumamos e bebemos água em silêncio.

Então, André vai embora. O pássaro mais bonito da gaiola vai voar. Eu que sou tão a favor de pássaros e de janelas. Logo não saberei mais onde ele está, nem dentro nem fora de mim. Talvez esteja na Nova Zelândia, pensei com rancor. 

 Por quê? 

Gostaria de fazer algo, além de tomar água, muito concentrada no fundo do copo.

- Acho que agora entendo.
- Entende o quê?
- Aquele dia, na cachoeira, quando acampamos.
- Nossa. Posso colocar uma música?

Levantou-se num pulo do tapete. Falávamos muito sobre literatura, artes plásticas, música e política, e sobre nossos livros preferidos, nossos medos de infância, jogos, notícias. Mas nunca sobre nós mesmos. Começou a tocar "Living on the Edge".

Achei que ele deixaria o assunto passar, mas chegou bem perto de mim, olhou no fundo dos meus olhos e perguntou:
- O que você entende agora?
- Ah, aquela noite, você estava tocando violão hipnotizado com a fogueira. Eu chamei você para ir comigo. Você não ouviu, não olhou, não sei. Então, Pedro me seguiu, e nós, nós transamos, soltei com impaciência. 
- Ah, ele gostou realmente de você, desde a primeira vez que te viu. 
- Você sabia, então.
- Evidente que sim. E por que quer falar sobre isso agora, meu amor?

Estava exasperada.

- Gostaria muito que você tivesse ido comigo, de que tivesse sido você. 

Não disse nada, desviou os olhos. Ouvia a música e cantarolava. Não conseguia nem me sentar.

- O que você vai fazer lá, afinal?
-  Ah, eu...consegui uma bolsa de estudos. E vou morar com... uma garota. Nós meio que estamos apaixonados. 
Não pude dizer mais nada. A água parecia ter cristais de aço arranhando a garganta. Tudo era tão implacável e cristalino. Dei o último gole, levantei, então, acabou-se. Não havia mais nem uma gota de água sequer no copo.

- Tem falado com o Pedro?
- Ah, sim. Ele vai voltar a morar aqui, sabia?
- Olha só, ele vem, você vai.


André ria mostrando muito os dentes.

Não entendi porque ele invadiu minha casa, às cinco da manhã, para me bater e esmagar com seu adeus. Como foi que as coisas deram tão errado assim?

Queria berrar: você sabe que eu te amo, né, seu filho da puta? Mas isso poderia não ser verdade. 

André sempre me foi um apego gritante. Mas algo tinha de acontecer, afinal. E era eu que estava sempre ficando, enquanto as outras pessoas se moviam. Eu deveria me chamar Pedra e ter me casado com Pedro.

Gostaria muito de saber se Pedro sabia. Se sabia sobre mim e André, aquele dia, no apartamento. A única vez. 

- Então, você veio para cá, para uma festa de despedida?
- Isso. E também porque não conseguia dormir, nem fodendo.

A palavra fodendo ficou ecoando em minha cabeça, e tinha o mesmo sabor de sexo do André. Quantas e quantas vezes não degustei André em minha imaginação? 

- Talvez fodendo, você durma, disparei sarcástica.

Ele sorriu e vi seu olhar faiscar. Ele também se lembrava, afinal. E me levantei bruscamente. Meus cigarros haviam acabado. Podia ficar sem chá, sem comida, até sem café. Mas...

- Meu cigarros acabaram. Vamos ter de enfrentar esse frio matutino. Bom, você já enfrentou para vir até aqui.  

Semana que vem ele estará em Londres, pensei, morando com sua menina. Em alguns anos, estará casado com uma inglesa inteligente, bem humorada e linda. Ela se tornará uma grávida saudável, sempre sorrindo de forma honesta e gentil, genuinamente feliz e adorável.

- Você vem comigo? Perguntei.
- Claro.

As rajadas de vendo eram suaves e frias. Minhas bochechas queimavam porque ainda estava naquela de fodermos como uma bela despedida. Sabia que isso me deixaria muito deprimida. E sabia que André sabia. Eu, por minha vez, não conseguiria convencê-lo a fazer nada que pudesse me magoar. Ele cantarolou "Janie´s got a Gun". Por que aquela noite absurda tinha que soar como Aerosmith? 


 Indecifrável André. Não o entendia de forma alguma. Um estranho. O estranho que me ajudou quando eu estava perdida, há uma década. Caralho.

- Então, você vai se casar e eu provavelmente não serei nem convidada.
- Certamente você será convidada. Isso se eu não me casar com você, claro. 


Maldito. Eu ri. Alto demais.

Ele poderia ter invadido minha casa, às cinco da manhã, e me pedido em namoro e me convidado para ir a Londres morar com ele e nós teríamos um monte de cachorros, jardins e seríamos um fucking happy couple, e...

- São nove e setenta. 
- Ah, droga, vamos pegar umas cervejas? Não eram nem sete da manhã. A moça no caixa pousou seu olha no meu com ares de indiferença e reprovação. 

- Eu ria, mas só porque ele ainda estava comigo, eu ainda estava feliz e ainda tinha mais algumas horas até que ele se fosse para sempre. 

- Nossa, você está realmente pensando em dar uma festa. Não tem muita cerveja aí, não? perguntou André.
- Estou com sede, respondi secamente.

Voltei carregando as sacolas, meu fardo, pensei. Então, André as arrebatou de mim. Pareciam muito leves em suas mãos, o tilintar de cascos, retirei uma da sacola e sorvi realmente com muita sede, queria me diluir naqueles goles o máximo que pudesse. Acendi um cigarro e o enfiei na boca deliciosa de André.


- Valeu pela sacolas.
- Ah, se eu não puder fazer isso por você, de que serviria? sorriu com o cigarro penso na boca.

Aqueles lábios mestres em chupar tudo de forma graciosa, precisa e eficaz. Lembrei-me de Pedro enfiando seu cigarro em minha boca trêmula, na pedra gelada. Lembrar, lembrar era uma grande merda. 

No apartamento, Elvis espalhava sua voz e seu swing para as paredes. God bless as playlists da internet e seus ímpetos randômicos. Eu queria ouvir Simon e Garfunkel. Queria muito, mesmo, e pedi em voz alta porque o André sabia tocar.

Se não tivesse pedido, ele teria continuado a dançar comigo, lentamente, rodando no tapete que adorávamos, com o rosto bem colado ao meu, seu calor irradiando. 
Mas tudo era uma grande ilusão. André, você é meu melhor amigo. Eu te amo. Tinha certeza, agora. E o deixo ir porque o amo. 

Mas o que André realmente estava planejando, quando foi mudar a música era botar pra foder comigo e aumentou o volume de London  Calling, implorei com os olhos, quase gritei, mas... mas na verdade, eu não disse nada. Fiquei ouvindo e me lembrando das festinhas da faculdade. Tudo era um grande loopinhg. Estava entediada. Sugeri que cheirássemos a cocaína que ficou guardada na gaveta.

André aparecia em casa de vez em quando, sentava no tapete, ouvia música ou tocava violão. Ouvíamos músicas, víamos filmes e séries e sempre pedíamos comida por telefone.
  
Estávamos na metade do caminho. Quanto mais a hora dele partir se aproximava, mais depressa engolia a angústia em seco, tentando lubrificar minha loucura com excesso de cerveja.

- Preciso te dizer uma coisa, caso você não tenha percebido, ele disse. 
- O quê?
- Pretendo passar o dia todo com você. Então, pode beber mais devagar ou até vomitar no tapete. Espero não estregar seus planos para hoje e tal, mas você vai ficar por aqui comigo. 


Eu era um monte de cinzas, cinzas coloridas. Estava mais aliviada, bebia mais devagar. Cada gesto meu parecia insuficiente e bobo. Falamos de tantas coisas, realmente lindas, leves, engraçadas, mas o silêncio parecia muito maior. Mais denso que o ar e por mais que eu tentasse vocalizar algo o som sempre morria alguns metros a frente.


Não sei como aconteceu. Mas nos beijamos. O olhar ficou demorado, o álcool nos fazia rir demais, a harmonia e sincronia e em segundos eu estava sem calcinha, subindo e descendo lentamente em ondas de calor, ele dentro de mim, bem fundo, seu cheiro agridoce, morno, os dedos dele apertando com força minha coxa, o abdômen contraído. Sussurrei te amvo, enquanto gozava, enquanto minhas lágrimas e minhas pernas escorriam. Trepamos o dia todo, grudados na sala, suados na cama, molhados no chuveiro. Devoramos um balde de yakissoba o e vimos Star Wars até eu dormir no sofá. 


André teve a decência de ir embora quando achou que eu estava dormindo, no dia seguinte. Ele me beijou de leve. Levantei-me com uma facada no peito. E o vi saindo, diluindo-se na penumbra da rua. Ele venceu porque eu o amaria para sempre e estava com suas músicas na cabeça. Não importa quantas existências se passem.  Olhei para o relógio.



Eram cinco horas da manhã e eu não conseguia dormir.

19 janeiro 2017

Sobre fugir


Parte II


Era um dia de chuva, eu lembro bem. Uma garoa caiu boa parte do tempo. Sabia, por exemplo, que mesmo após muitos anos ainda seríamos capazes de vibrar com as mesmas músicas, as que ouvíamos, na sala, sentados no tapete, trocando ideias malucas. 

Conheci-o no metrô, ao perguntar um endereço. Não conhecia nada da cidade ainda. Vim de mochila de um interior áspero e selvagem em que as pessoas perdem rápido a virgindade de todas as coisas que podem dar merda na vida. E lá estava eu: tentando sobreviver à metrópole.

Ficamos um segundo conectados nos olhando. Kiss chegar perto de sua boca e desejei que sua língua fosse lentamente me fazendo rir dos lugares incríveis que conhecia e dos que ele nem podia mencionar ainda, afinal, não nos conhecíamos. Mas t
ive coragem de falar com ele, perguntar-lhe como chegar ao endereço.

Fui àquela cidade fazer a prova. E perder a prova seria perder muito. Tempo e dinheiro alheios. Era uma espécie de investimento, uma dessas apostas de corrida de cavalos. Se falhasse, a família falaria por meses a fio, em todas as festinhas e frestinhas possíveis. Uma imagem de horror era a decepção estampada nos rostos estupefatos dos meus progenitores. Então, a prova era como um buraco negro em meu estômago.

Ele me indicou o caminho. Agradeci com pressa.  A pressa típica da humanidade. Mas ele parou. Parei também. Por isso, continuamos nos olhando. Meio irritado por sua própria decisão, veio, já me acompanhando, ao concluir que estava completamente perdida e distante de onde deveria estar. Acredito que meu medo e ansiedade exalavam um odor detectável pelo faro.


Ouvia sua voz e as coisas que dizia, mas minha atenção estava voltada ao toque da sua pele. Nossos braços, lado a lado, a se roçarem: braço com braço, já era um abraço, em pedaços mínimos de carne. Nano abraço cheio de tremores internos. Nunca cheguei a me inteirar totalmente dos sabores que podia conter, nunca cheguei a bebê-lo líquido. Havia sempre uns pedaços indissolúveis em seu ser. Só sei que o quis logo de cara, sem pudor e sem vergonha, como um jeans rasgado e do avesso.

E não mais o vi. Após alguns anos, sua lembrança tornou-se uma espécie de fantasma. Amor imaginário de rodoviária. 


Até que, certa vez, saí com um casal de amigos. Fomos ao apartamento de um outro casal, amigos dos meus amigos e aquilo seria mais um rolê semidivertido, semialcólico e sutilmente desanimado, se, por alguma dessas coincidências demoníacas, André não estivesse lá.

Quando chegamos, já ocupava seu lugar preferido, o tapete. Reconheci o moço da estação Barra Funda. Que coincidência! Qual seu nome mesmo? Hmn,  realmente, incrível. Quem diria...André.

Aquela noite. Até hoje palatável em minha memória. Gosto de lembrar, saboreando aos poucos, que terminamos a noite com as caras coladas. Dormimos praticamente em cima um do outro. E ele fez cafuné em mim, bêbado. Seus dedos arrepiando por onde passavam, num rastro eletromagnético, meu couro cabeludo. Nada me faria desistir daquela sensação e dormir, mas o tesão virou delírio e o delírio, um sono agitado de sonhos obscuros. Caí em teias astrais.

Acordei com o sol já alto da sacada direto no olho, em um apartamento estranho. Todos haviam saído. Havia um bilhete, pão e café sobre a mesa. No bolso, meus últimos trocados, que usei para voltar para casa, de metrô. 

Pensei que ficaria anos novamente sem vê-lo.

Mas alguns meses após a noite, fui convidada para acampar. Estrelas. Lá no alto, muitas. André estava lá. Acendeu nossa fogueira, preparou o jantar, tocou tambor. E cantei. E Pedro tocou violão.

Dormimos em volta de uma fogueira morna, tocos enormes em brasa aquecendo deliciosamente nossas barracas. Inalamos o cheiro do mato úmido de quando fica de noite. E um bom punhado da fumaça da fogueira. Nosso pequeno rebanho de aventureiros. Pedro, André, nossos casais de amigos em comum, e eu. 

Ah, 
Pedro era amigo de André, evidentemente. Estava na Bíblia. 

E quando o vi, senti-o em mim, como uma queda. Cilada. Labirinto, vertigem e asas. Senti que plumas saíam de meus lábios. E desejei Pedro em dobro, dobrando a língua. Porque sempre me apaixono errado.

No roteiro original de minha vida, eu teria filhos com André e seríamos um respeitável casal pequeno-burguês com pitadas de pilates, sexo grupal e gojiberries. Mas acho que borrei a história. Fiquei confusa. Bilapidada.

Seria apenas uma pulsão no púbis ou um sentir verdadeiro?

Na noite seguinte, ficamos nus. Pedro e eu. Nus embaixo de uma cachoeira. Ele, cláusula pétrea. Eu, cápsula crua. E nadamos como bons amigos, sem ejaculações, elucubrações ou beijo. Nada além de uma boa dose de nadar nua em água escura e fria. O negrume gélido nas têmporas, para amenizar qualquer crise. 


Enquanto mergulhava com pólvora e pavores, naquela imensidão negra e geladíssima, pensava em como passei meses, talvez anos, desejando André. E nada. Até ontem seria com ele que me imaginaria nua e trêmula em uma cachoeira, durante a noite. E fui roçando-me a essa ideia como um gato roça as pernas de seu dono, derretida em todas as partes entre minhas coxas. 

Mas Pedro pulou logo atrás de mim, bagunçando tudo, agitando a água e segurou meu braço, puxou-me para dizer alguma coisa. E me vi inalando vorazmente o cheiro que vinha de dentro de sua boca, o calor do seu hálito, enquanto falava bem próximo e baixinho. 

Foi, então,  que ele notou. Percebeu que quando se inclinava para falar comigo, algo acontecia. Talvez tenha sido um pequeno deslize, um movimento em falso dos meus lábios, um bater de pernas desesperado. O fato é que seus olhos vibravam diferente. 


Saímos da água e não havia nada para aquecer além da canga que eu usara como vestido e, ao lado, a bermuda dele. Molhados e nus nos grudamos, lado a lado, e nos enrolamos em minha canga. Ele não colocou a bermuda. 

Esticou-se passando o braço por cima de mim. Ao meu lado, na pedra, pegou seu cigarro. Acendeu, fumou bem devagar. Ofereceu, quase enfiando-o em minha boca. Fumei, tossi e tremi. Falava e ria engasgado. Queria muito disfarçar meus tremores, mas ao tentar fazê-lo, tremia ainda mais. Pedro, por sua vez, abraçou-me e estava muito quente, tranquilo e infalível, como Bruce Lee. Só os olhos, vibravam estranho, denunciando-o. 

O cigarro acabou. Ele vestiu a bermuda de costas para mim. Não desviei os olhos porque quis o entrever, na penumbra. Enrolou-me protetor em minha canga e voltamos assim. Em silêncio, pela trilha. 


Era quase de manhã. Estava sóbria sobre uma pedra enorme, gelada e escorregadia. Tirei minha canga-vestido, pulei na imensidão azul da água. Com medo, confiança e taquicardia. Pedro pulou em seguida. Nadar nus tornou-se nossa rotina. 

Foi assim, aos poucos, que Pedro me invadiu. Durante a noite, durante o dia. Penetrou profundamente meus pensamentos. Pedro e seus seis mil braços hindus abertos para as maiores loucuras de minha vida. Ele era simples e selvagem. André, por sua vez, civilizado em demasia. 

Éramos um oceano de possibilidades, incluindo overdoses de sexo, porres de porra e absinto. Sinto muito e sinta-se à vontade. Bebemos juntos tantos litros que poderíamos encher nossa própria piscina olímpica. Éramos o exagero em pessoas. Eu pisava leve, tocava flauta, flutuava. E fazia panquecas de frutas vermelhas, durante o dia. O que me enlouquecia, definitivamente, era seu cheiro. E também o fato de que Pedro fazia o café mais forte e firmeza, com chocolate amargo derretendo dentro, do universo.

E a gente trepava muito, de tanta formas e cores e melaços. Com todos os caprichos mínimos atendidos. 

Pedro era my fucking best friend, ria das minhas bochechas vermelhas e do meu cabelo desgrenhado depois de maratonas de séries e sexo, no quarto. Devorávamos pizza direto da caixa. Tomávamos banho juntos. Passávamos os dias isolados em uma caixa particular mais longe que minha própria imaginação. Nós não fazíamos sentido.



André nos visitava, às vezes. Ficávamos horas conversando e ouvindo música sentados no tapete, enquanto Pedro cozinhava. Fazia a própria massa do espaguete, receita da avó, e saía para comprar vinho. 
Geralmente, depois do jantar, Pedro bocejava esticando efusivamente os braços, então, André ia embora rindo meio bobo e meio ébrio. E tínhamos vontade de conversar mais, a noite toda, a vida inteira. Mas era tarde, sempre tarde.

A vida fluía. Derreti meu pudor com açúcar e fiz meus órgãos caramelizados para serem degustados com cerveja escura e encorpada, em copo plástico. Eu inflava lentamente, a felicidade enchendo meu corpo de luz.


Então, ela. Apareceu. A amiga.


Quando tudo ficou realmente um pouco chato e repetitivo. Principalmente, quando esgotamos todas nossas doses de dopamina, senti como se minhas panquecas de frutas vermelhas, a barba de Pedro, e até as músicas de André no tapete, não fizessem o menor sentido. E tudo ficou  simplesmente estranho, como as muitas noites sem dormir que passamos. 

Não havia mais jantares. André não ria mais bobo, ele estava sempre atento e vigilante, passava a noite toda acordado conversando com Pedro, bolando planos para dominarem o mundo e fumando-os todos. Os cinzeiros transbordavam.

E havia, sobretudo, a amiga de André que chegou da Nova Zelândia. Tão linda e espirituosa. Bem sucedida até os ossos. Estava sempre no apartamento de Pedro, vinha de brinde, com André. Vestidos esvoaçantes e um ar sempre malicioso, coroados num sorriso lindo com covinhas. Eu a odiei em instantes.

Ia embora sempre bem depois de mim. Quando eu adormecia na cama do Pedro, às vezes, acordava e ela estava lá, partilhando comigo os travesseiros, ronronando levemente com a boca entreaberta. Ficava ainda mais bonita dormindo. Acordados, Pedro, André e ela, faziam projetos artísticos para ganharem muito dinheiro juntos, de madrugada.

Estava totalmente deprimida e não podia provar o porquê. Ninguém leva intuição a sério. Exceto eu. Levo intuição tão a sério que devo criar cenários e dar brechas para que as merdas em minha vida aconteçam.


Fiz o que qualquer cão covarde faria. Fugi de minha própria fuga e continuei ali, dependente daquele vício. Pedro tornou-se uma muralha intransponível e as tretas eram tantas que preferia passar minhas horas sozinha, na pracinha do bairro.

E vi muitos pássaros ali sozinha, mais do que seria capaz de suportar.

Sentia-me isolada do resto do mundo de tantos voos suaves vistos, de tanto céu. Vi mais belezas que pude dizer.

E como um looping de desgraças, foi de repente, quando eu não queria mais nada nem ninguém, que ele  me veio tempestade, no diazinho frio e nublado de minha vida. 

Perdia o trem e minha voz ficou fraca, minha cabeça pendida. Tive ódio e raiva de Pedro, principalmente depois que os ouvi em nosso quarto. Nossos farelos de pizza ainda em baixo da cama, testemunhas oculares do inevitável. 

Não ousei abrir a porta. Quando Pedro saiu, descabelado e feliz, viu um corpo sacudido em soluços pateticamente mudos na sala. Eu era um vazio embalado a vácuo. Ele me abraçou, pediu desculpas, ajoelhou. Ela saiu de fininho, imagino que sorria irônica para a situação ridícula. Fiz que não a vi. Minha treta era com Pedro, afinal. 

Em alguns dias, lá estava eu, namorando um Pedro arrependido. No apartamento do casal de amigos. Já era tarde e só não mencionei ir embora porque havia ainda muita bebida. E, sinceramente, já estava muito chapada para dizer ou fazer qualquer coisa. Eu era um foda-se ambulante e arfava. Falava alto, ria, praticamente relinchando, quando André apareceu com sorrisos, mais cervejas e um estardalhaço atípico. Dessa vez, ele não veio com a amiga. Estava sozinho e radiante.
A sala começou a dar leves voltas em si mesma, senti que poderia vomitar se continuasse ali. Então, levantei-me levemente cambaleante e ainda muito alegre e fui ao banheiro. Ocupado. Esperei décadas, bati. Então, ele saiu. O corredor ficou estreito e o role ficou pequeno. André me olhou. Não disse nada. Segurou minha cabeça com determinação, como devesse ter feito isso há anos. Enroscou meus cabelos entre seus dedos com calma e precisão psicopatas e sua boca foi engolindo gentilmente a minha. Correspondi com mais força e desejo do que deveria. Fomos à lua. 

E foi assim. Depois de tanto tempo, tantas vidas, que beijei pela primeira vez André. Ele ergueu meu vestido e abaixou minha calcinha. Escorríamos do corredor ao quarto mais próximo. O sabor de André era como um copo de gelo, rodelas de limão e água fresca explodindo dentro da boca. Seu jeito de me empurrar com a pélvis contra a parede era delicioso. Seu suor tinha cheiro de mar misturado com a brisa cítrica do seu perfume. O fundo da boca, cavernas escuras, sensuais e terríveis. E ele me quis mais que eu a mim mesma. Ele me quis como se fosse ontem, e transbordamos.

Ali, no quarto do fim do corredor, em segundos, tornamo-nos doces animais. Afastamo-nos ainda em chamas, meio gozados nos olhamos e engolimos seco sem saber se aquilo foi mesmo real.


E eu queria mais.
Mais. Para o resto da vida. 

Voltamos para a sala e senti uma pontada fininha de gelo em meu coração. André ainda era amigo de Pedro. Eu ainda era uma espécie de namorada louca e paranoica. E o olhar desatento de Pedro me dizia que desejava, ainda mais do que nunca, o corpo da amiga de André, que voltou da Nova Zelândia. 

Sobre fugir

parte I

Dois dias. Dois dias e tudo será tão diferente. Difuso, confuso e gostoso.

A primeira coisa de que me lembrei quando entrei no carro foi minha mãe, não sei porquê, mas vi seu sorriso através das gotas d´água em meu cabelo suado. A vida suada que ela leva, sempre de tarefa em tarefa. E fui feliz por ela. Agora seria feliz por mim.

O carro acelerou e olhei para ele. O sol fez dourado seus cabelos, embora eu soubesse quão negros eles podiam ser, no chão da nossa grama. Aquele estranho. Sentia-me como se estivesse saindo de férias e indo ali, passear - o que me deixou realmente feliz, evaporava como a fumaça do nosso papo, dentro do carro, íamos buscar alguns víveres para o acampamento, na cidadezinha mais próxima.

Enquanto o carro ia a não sei quantos por hora, o som estridente dos Stones, Sympathy for the Devil, enchia meu cérebro e André falava atrás daquela cortina de fumaça e eu ouvia, ria, fumafalava também.

Entendi, mais tarde, que não haveria outro lugar no mundo em que eu quisesse estar.

Podia sentir a vibração empolgante de André através no jeito sagaz e espirituoso de quem está realmente feliz. Um pinto no lixo, como dizia minha mãe. Um pinto no lixo também estava eu, entre os estranhos, esquisitos, os que tem sede de birita e liberdade, posto que herdarão os reinos do Céu no crepúsculo.

Estava atrás dessa profecia. De sentir com as mãos suadas, de doer o pâncreas, de me riscar e arriscar, de botar meu corpo como última aposta na roleta-russa ignóbil chamada vida.

Chegamos já era noite. Ele me ajudou com a barraca.
Mais tarde, anos e anos depois, eu perceberia que desde o início ele já me ensinava, cada gesto, cada olhar seu era uma lição e eu também o ensinava com meu ímpeto de mergulhar de olhos tão fechados na correnteza incerta da chuva.

Ele nunca se chegou a mim. Era sempre eu, com uma sede raivosa, doce no final, que o procurava. Algo que de fato eu não compreendia. Nem fazia questão. Eram apenas os dias, a janela do carro, a música radioativa e estridente. Eu era a Deusa e Súdita da Deusa, eu era uma pequena capela onde se podia ficar em silêncio e sem dobrar os joelhos e ele era o meu milagre. O sacro-profano socando o mundo na cara, cuspíamos as sementes de tangerina na terra. Algo sempre brotava.

Dava para ouvir a cachoeira da trilha. Dava para ouvir meus batimentos cardíacos escorrendo com a água.

Fizemos a fogueira. Na verdade eu e André caminhamos silenciosos procurando por lenha. Depois, André a acendeu. Eu apenas me aqueci ao redor daquele fogo morno e confortável. Cantamos, tamboreamos e louvamos aos céus àquela noite sem pernilongos, com o sabor do licor de jabuticaba que bebíamos.

A lua já ia alta e redonda no céu e eu estava eufórica. Levantei descalço. Ri e disse que precisava dar uma volta. No acampamento, o nosso casal de amigos já havia entrado em sua barraca, André não ergueu os olhos do violão, quando me despedi, ele tocava absorto para sua platéia invisível.

Então, Pedro me seguiu.

Apertou meus braços com uma força improvável e desnecessária. Também estava fugindo -não sei bem do quê, mas estava, - não me importavam os motivos dos outros. Pedro era amigo de André. E eu nem sabia ao certo quem era aquele guri. Nem ele nem eu.

Senti-me triste, de repente, e curiosa e faminta e não entendia bem o porquê.

André era bom em acender fogueiras e construir um abrigo e preparar nossa janta. Mas Pedro era bom em seguir garotas bêbadas.

Tomamos o penúltimo gole da última garrafa de licor, mas isso me pareceu irrelevante, não suportaria outro gole sequer, sorria, sorria para tudo que diziam como uma perfeita idiota, mas eles riam também, ríamos todos tolos e era tão bom, como se fôssemos um hábito saudável ao sábado, praticado durante muitos anos.

Puxou minha mão. Nadamos nus na cachoeira noite passada. E, após o choque térmico, fumamos e conversamos baixinho. Tremia muito, dentro da minha canga. Depois, voltamos molhados, com frio e em silêncio para nossas barracas. A bebedeira havia desaparecido completamente. Eu mal fechei os olhos e o céu deu à luz um novo dia.

Deixei minha canga cair mecanicamente. Era realmente uma ideia tresloucada e sedutora, pensei antes de me atirar da pedra para o lago escuro.  Deixei que o frio me invadisse, o escuro completo daqueles cabelos negros e frios, enroscando-se em mim. E meus lábios tremiam, o frio cobriu meu corpo quente como um vestido de cristais de gelo a cobrir uma viga de ferro em brasa.

De qualquer forma, já havíamos feito isso antes. Na água, ainda estava de olhos fechados, ele deslizou seus dedos para dentro de mim, girou suavemente, sentindo cada cavidade íntina. Ao mesmo tempo, massageava-me com muito cuidado. Meu corpo arqueado na pedra. Resistindo e cedendo, tremendo, sobretudo.

Entre meu ofegante querer e sua resoluta vontade, cada pedaço de pele, meus olhos, tremeram até as lágrimas. Ele queria sentir até o sabor de minhas pupilas.
Eu o comprimi com minhas mãos, querendo-o ainda mais intensamente, sua língua deslizava lenta e rapidamente, dançava roque, balada, sonata em fuga. Enlacei minha perna a sua cintura e sugava seu gosto e seu cheiro com todas minhas forças, como se a sua saliva e aquele resfolegar fossem um banquete delicioso oferecido a um animal faminto.

Gozar não diz nada sobre o que senti. Sobre como me senti. A lua cheia simplesmente aumentou de tamanho, eu podia jurar. Mas é por não haver um dizer, que fiquei em silêncio, abraçada ao meu próprio corpo, depois, flutuei nas águas gélidas da madrugada e foi assim que conheci o amor.


Voltamos de mãos dadas. O mundo estava em silêncio. Exceto por aqueles sons longínquos de sapos, cigarra, cigarros, e o dedilhar delicado de André ao violão, nos abraçamos até o amanhecer.


07 outubro 2016

Eloísa

Eloísa era ruiva, às vezes,
um pouco tímida.
Anos após o fim,
faria uma cirurgia  rinoplástica e se sentiria linda.

Vamos assim chamá-la: púrpura chama,
Nem ela própria se compreendia

Mas minha vida e a de Eloísa
estavam entrelaçadas
num gozo eterno 
de uma cama intrépida
e sinistra

Sinto sua presença na brisa
No beija-flor
Em qualquer merda que eu diga.

Agora, falemos dessa cidade índiga:
meu solilóquio só não será maior
nem mais patético que toda a sua filosofia.
Aliás, não consigo imaginar nenhuma humanidade sem a minha


E é preciso alertar a todos que os eventos são mais interessantes
no facebook e toda máscara é mais bonita
ao longe ,
que no sorriso ao vivo das meninas,
o falso brilho.

Pergunta-me seminua agora Eloísa: 
Quem ousa estar acordado tão tarde, sentindo-se algo entre importante
e invisível 
majestade?

Sua boca de capim limão
cheiro de terra vermelha batida
o cabelo comprido 
açoitava-me com um silvo de passarinho
ela passa
por mim
vai até a cozinhavolta sorrindo
segurando com os dedos,
lambendo sua comida

Eloísa é silêncio entre seus livros
música muito alta
gritos enraivecidos
chora comigo 
e fazemos poças onde nos admiramos
narcisos





O tempo

ontem eu era o tempo que já foi teu

hoje sou o raio de sol nos cabelos dela da outra que fui e permanece como a sombra de uma cerejeira

não há sentido que não se sinta
não há noite que chegue para sua cítara mágica transtocar
quem é Elisangela Neiva?

uma pessoante que soa
inverossimelmente
pessoa.

quem é Marco Aurélio?

o menino de orelhas de abano
sentado sozinho no fundo dos olhos
de uma sala de aula
cheia de macacos de carne

virá o tempo dos furacões
virá o tempo índigo
digno de notas douradas no imenso livro da vida
deste pequeno universo

Noite Insone


já que o sono some
na velocidade do seu nome
estou aqui lendo as entrelinhas dos seus supostos olhos
famintos,
infinitos...
olhos verdes, olhos negros
que nada poderia ser mais amor que este resto amargo
de licor
que sai da sua carne
não durmo
não duro muito tempo em pé
pensando em um hipotético você
recostado atrás do meu
cigarro
as dúvidas são as únicas que resistem
com as pálpebras arregaladas
observando o Nada
absurdo da madrugada
mais um cigarro na sacada
e volto enfim a cair
em minha própria emboscada...

Do luto


Tudo que a mão toca
e permanece ali
encontrado aos olhos
parece tão estranho
enquanto a gente morre
e a mão que tocou
aquilo tudo
naquela casa vazia:
a xícara, o copo, os livros não lidos,
os vasos, o sofá, a estante...
parece tão estranho e distante
que petrifica,
está pálida e fria
e morta.

Rolezin na Rua Angústia

o céu clareando aos poucos devolvia cores às fachadas pálidas da avenida
a rua tinha cheiro de desinfetante velho e subia
da boca de lobo um vapor fétido que aquecia

dividia com ela o último cigarro
the cramberries, Beatles e a chuva fraca,
não se lembrava mais das letras e o frio infiltrado na garganta arranhava quando a cerveja descia gelada e, mesmo assim, bebia, bebia  e a boca seguia seca...
ela era uma flor plástica que colhi no interior de uma lojinha de relíquias libanesas
no âmago de tudo que se abandonada ao pó e às teias
e os vultos voltam. sempre iguais. ela quer seguir em frente
eu não quero mais...
mentiras sinceras seriam bem mais bem-vindas que aquela secura na oca na boca! o telefone dela toca mas ela não toca no telefone.
quer ficar. tanto ao ponto de gritar um sorriso. ah, se fôssemos desses que choram...
mas prefiro a imagem da minha língua lambendo suas costas.

ela procurava o casaco -havia esquecido que não trouxera nenhum.
tateava em busca do dinheiro, que já havia gasto.
sem dinheiro, sem sono, sem cigarros - o peito ficava largo.
os olhos caídos a boca um pouco torta.

depois de transarmos, dormia cílios tão grandes
tinha sonhos tranquilos opostos às batidas densas do techno

entramos na boate e a felicidade aqui é obrigatória. quer um trago? quer um gole? quer mais um trago? quer um porre de porra boca a dentro? mais uma dose? é claro que estou a fim a noite nunca tem fim, por que que a gente é assim?

no banheiro, havia uma fila de narizes sendo inspecionados no espelho. jogar água na cara não era serviço simples.

uma garota fumava um baseado apagado com a calcinha nos joelhos enquanto sua amiga vomitava na privada. Filas e mais filas se sucediam na disputa pelo espelho, espelho meu.
meus colegas deram no pé.
e eu ainda estava lá. Parado na porta, esperando por ela com aquela língua enorme e uns olhos que seriam mais alegres se não estivesse tão tarde.
Quer uma água? Não, não quero nada. só colo. socorro. queria me casar ou praticar yoga.
queria principalmente mergulhar em seus olhos verdes em plena luz do dia e, é claro, quando finalmente saísse o sol no céu outra vez
mas o gosto de esgoto na boca não ia embora nem com chiclete.
barata seca, vapor de chiclete de menta, salivas de cereja e cervejas, o céu era um inferninho particular na cidade gelada, uma viela que brotou na angústia, a rua augusta, com o nariz escorrendo
e paisagens lindas, cinzas, dentro.
ela estava, talvez fosse precipitado dizer, talvez fosse perigoso, mas o fato é que estava feliz.
o tipo de felicidade que não se diz, só oscila a cor dos olhos.
estranha satisfação de preencher o corpo com álcool, sêmen e música.

olhos presos ao copo o gelo girando mais rápido que a minha cabeça tlintando a fumaça luminosa misturada à vontade de vomitar é uma arte ficar de boa.
bocas se rasgando em risos chupando brasa e soprando fogo pelas ventas. Ela pensou no sabor de tequila que a sua língua tinha -e se lembrou de que não bebera tequila.
as cinzas batidas no chão. um dia, sem batidas, nós seríamos cinzas
sem pernas femininas, nem perfumes adocicados misturado aos odores do banheiro... eu estaria em absoluto repouso
apodrecendo calmamente
sob a terra.

Eu a acordo, toco seu ombro e a retiro do fundo da cova, na verdade, uma poltrona de veludo vermelha.
Vamos. Mas já? sonolenta recolhe o pouco que podia levar de si mesma.
engatamos a primeira, a segunda, conta paga, a lufada de ar gelado indica que já demos o fora dali. o dia está prestes a.
Amanhã, o mesmo dia.
o sol se arrasta com as horas e as fachadas da avenida recobram suas cores agora vivas.
e aquela noite longa, invencível, com cheiro de desinfetante só se notaria pelo arroxeado pálido em volta dos seus olhos
pelo caimento melancólico nos lábios.
por seus dentes que rangiam dentro da boca, remoendo possibilidades mórbidas...

Beijo Gourmet


feche esses olhos tridimensionais
nenhum lábio que pretenda se abrir em carne 
deve estar acompanhado de olhos estranhos, castanhos, que só enxergam
planos cartesianos
abertos
dentes arreganhados de medo
jamais degustam um beijo
boca seca, que seja,
se a sua saliva salva
a nossa briga de línguas
calma

achismo

a gente acha que não vai morrer
porque tem um bebê
que precisa de mim e de você
a gente filtra sonhos com cipó
e galhos
e adia o dia de romper hábitos
a gente acha que vai durar até os filhos crescerem
mas não acha que vai envelhecer
eu acho que vou ficar
com medo
assustadiça
metade tédio
metade preguiça
e justamente por preguiça
irei trabalhar muito
para viver
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

Acreditadores


a verdade estava lá
escolhendo um vinil pela capa
porque 
tudo era muito antigo
no estilo de vida
dos acreditadores
alguns vieram de repúblicas
estudantis não democráticas
com gravíssimos casos de desvio de verbas
para a nova mesa de bilhar e
e todo aquele macarrão instantâneo
produziam gases e opiniões
particularmente
desagradáveis
digo, os acreditadores nasceram para
serem inteligentes e altruístas
visionários de um mundo sem volta
mas ninguém quer conhecer a verdade que está até agora solitária segurando um copo de cerveja a procurar um som na vitrola que possa agradar]
Era um domingo de paz
de pastel
Era um felino voraz
lá no seu
celular
E de noite
comer cachorro-quente e
aí a gente vê
vídeo e se sente
como se devesse morar ali
Tenho mais amigos em
Sons of Anarchy
do que aqui
a vida
tem cisco
é macia
às quatro horas da tarde
e fria
às quatro da madrugada
são minhas
essas sandálias aí no quarto
guardo recordações
como quem pede desculpas
são tímidas
as tentativas de sorrir por dentro
por enquanto, aguento
mas haverá momento
em que a lua, uivar só
ou murmurar preces
não farão diferença
neste sacro instante
quero virar estrela,

de
diamante
o que eu posso fazer é tão pequeno e delicado
quanto seu pé
meio branco,
morno ou gelado
quando ela acorda tem café
e não poder ir além de fritar alguns ovos com muito carinho
nem precisar ir
além dos ovos fritos com muito carinho
é tão calmo quanto quando se escuta um passarinho
não é para qualquer um escutar passarinho
respiro o fundo do cheiro da boca
daquela moça
que mesmo feliz
é melancólicas
mensalmente menstruais
mas tanto faz
somos doces animais
aproximar-se de alguém, gostar, é um exercício de acupuntura
o eu oferece-lhe sua agulha, perfura
um pedacinho da sua pele-ego
e rompre a pequena bolha de isolamento
em vão, espetando-se suavemente
numa dança de micropontos
pequenos
tocados
na delicadeza
das pontas
penetrados sempre
superficialmente
e agora adoramos com os olhos moucos
a beleza de quem se vê inesperada e reflexilogicamente tocado em diversos pedaços do corpo
por outro
por aquela
moléstia
etérea:
o amor

sobre sábados


sábados são vagos
como são os afagos
os sábados
estão afogados
em perspectivas e perseguições
são lírios em seus devidos lugares
são vagões sublunares
sou eu pedindo desculpas após pisar
nos pés de alguém
por tentar
fazer você tropeçar
seus olhos
no meu olhar
sábados são fantasias de
carnaval, carne vai, carne vem
têm mais gel do que deveria
têm pouca purpurina
sábados são ocos,
ou loucos
ou outros nos quais eu trabalho até tarde e vou dormir de porre de
porra nenhuma
os sábados são os únicos que arrepiam a nuca
são insanos e são
tão poucos
ao longo da semana

Tinder


Não sou a mulher da sua vida
sou o veneno da víbora pulsando 
no seu leito agonizante
de sorte
Sou um cardume de peixes voadores em volta da sua cabeça mordendo a sua clavícula penetrando por sua bochecha
Beliscando a sua orelha com boca apetitosa
Eu quero quando você é rosa
E quando chora
leite e eu sou mel
Escorro
Morna
Deslizo com o corpo

escorregadiço
no seu pescoço
meus pelos pubianos
eriçam
com a mesma calma com que suas mãos
arranham


Você é meu crush mais crocante
mais doce que refrigerante
a acidez lúgubre, porém, dos autores que
lê em seu secreto porão
é o que realmente
me dá tesão


08 agosto 2016

faço de conta que 
sou de aço 
inoxidável pareço
um modo 
de segurança 
falho, uma emergência catastrófica 
do tipo 
vermelha

do tipo sangue na sua calça 
branca
ninguém pode saber
(ninguém sabe)
que, na verdade, 
todas as mulheres sangram
em silêncio e em segredo
porque temos medo
de ser alienígenas

ninguém sabe que não sou
o suficiente
que nunca me sinto
nós
nos prendem
em tédio perpétuo como
um castigo, um sonho, duas toneladas de chocolate
e eu ainda não dormi
não vi
aquela série
não vi
um rosto 
como o que eu imaginei
a vida nunca 
se parece com o filme da tv
mas eu tento
cinquenta e cinco
por cento
de certeza de que
você sente 

o que eu sinto
não é aquela coisa cor de rosa chiclete
com pantufas e lingeries
e pares de brinco que você imagina
é mais como um chilique
um desmaio de sol demais
uma bebedeira de uísque com cocaína

um retração no estômago
involuntária

ao mesmo tempo que em preciso de mais uma cerveja almejo da sua boca
a precisa letra da música
do palco
no fundo
você não quer que nada aconteça porque as partes são comprometidas em contratos
vitalícios que vão
muito além do tesão


mas você não entende
eu sou, só se for completamente
não consigo ficar pela metade e se fico
me multiplico
entre faturas vencidas da Renner
e essa falta de vícios
que a gente sente 
quando compartilha uma ideia


você não entende que
nada disso tem a ver
consigo
explicar
um pouco, não adianta
você só vai entender minha língua
quando estiver explicitamente
a experimentando


17 julho 2016

Há cinco gerações seguidas,
Passava desapercebido
Como pequenos erros de cálculo ou moedas esquecidas no bolso,
O balanço de ferro no fundo de casa.
O cachorro lá se deitava,
Lá se balançava...
Todos já se haviam ido,
Mas enquanto o balanço rangia, lá pros fins dos dias nos cafundós do mundo,
O cão não se apercebia
Que não tinha mais nome, nem dono,
Nem comida,
Nem água
vem pagar caro para ouvir barulho
beber fermentado de milho transgênico
vem fumar veneno
soprar na calçada o vômito da madrugada
ainda amarga na garganta
e não adianta
só o tesão vale a pele...
O saco vermelho do Papai Noel
Não atravessei o
paraíso para aquilo
que pensei 
sou tolo
como qualquer outro
que torce apenas para que a sorte
venha antes da morte
e no meu leito de desespero
comi mingau de arroz e peido:
tudo morre,
tudo morre,
tudo um porre sem fim
tudo sobre você sem mim
Cheguei quase no meio da festa
era a fantasia final
no baile de prematuros,
natimortos
ou natiruts
a dor era fecal
agonizando peixe e azia
a tia da cozinha sabe mais da fina filosofia que meus velhos óculos
adivinham
estou cansado
e é natal
estou cansado
e é natal
estou um saco...
Este seu jogo
eu manjo de longe
não tente esconder
a espuma com o horizonte
não se faça de besta
que eu escuto
até o pensamento
mais escuro
você se acha esperto
um garoto moderno
atrás do rapaz
da capa do caderno
corre atrás dele
para tentar comer
os seus restos de ração
que o cão maior e de latido melhor
mais altivo que o seu
já comeu
até se infartar...
seu papel de palhaço
não tem psicodelia
o seu traço de sorriso
é melancolia...
violento
impulsivo
mimado
detesta perder
detesta esperar
preferencial
não humano
mentiroso
imortal
deus
sorridente
meigo
generoso
altruísta
amigo
humilde
melancólico
sincero
mortal
humano
eu quero comer
você de pijama
não quer
cozinhar
eu quero fazer
um bolo e um drama enrolar
minha paciência na folha de uva
eu to vendo
uma jovem vulva
vulgar
eu to passando batom
no espelho
do bar
e tô aqui
insistindo na tv
fazendo charme para mídia
jogando nintendo wi
eu não tô nem ai - que assim não dá
me passa o sal ou me pega na mesa
mais uma cerveja,
ou seja,
cansei
de passar
batom nessa cara de sonsa
que Deus me deu
prefiro ir pro breu
da minha cabeça
cansei de fazer
alianças só pra jogar no ralo da pia uma voz vazia
ja me dizia:
tudo parte do fim
tudo começa com sangue
e termina
unanimamente
em mim.
o maior desespero
daquele pássaro
era voar
o pesadelo do olhar
era ver
seus doces, seus salgados
indo lancheira abaixo
todos comiam:
menos ele
ele era solitáro
e tacanho
dizia coisa sem cabimento
e seu limítrofe e pequeno tamanho
não continha
sequer seus gestos
dizer que usava óculos
era dizer pouco
sua boca
pedia soco
seu jeito de andar
pedia briga
sua família 
- não falemos dela
a família faliu há muitos anos
que sua mãe bebe demais
e seu pai não ganha mais dinheiro
ao chão seu mundo intreiro
há de rastejar por muito tempo
e por algum emprego
não há erro
nem cálculo
por seu próprio proveito
por que não morre agora
simplesmente de câncer?
porque câncer não é tão simples assim,
nem rotineiro
e se tem o modo inteiro para morrer...
por que não continuar
vivo?
o buraco
só aumenta
quando o sacro
se ausenta
sinto o sal da sua presença
a sombra que aqui habita
não hesita nem reflete
há parasitas entre serpentes
enquanto
eu saio de fininho
no bolso
um isqueiro,
três trocados
amassados,
para comer de noite.
a vida leva o sopro da morte
eterna quando seus olhos encerram
uma passagem entediante da bíblia
se eu pudesse
deixaria ainda mais longe
sem água, nem carona
na tempestade de areia
do seu próprio deserto
mas espero
esperto e desperto
seu próximo ato de desespero
com esmero
selo
minha boca
às coisas poucas
que com suas mãos mocas
você me oferece.
de tez em tez o dia
amanhece  
azul pálido perto de um negrume líquido
ninguém é imune ao silêncio cósmico do grito de
antes do sol
nascer
E se você soubesse
Que cada passo apressado
É um passo mais rápido para morte...
Se você tivesse a sorte
De ficar parado, no pasto,
Pensando
O sol a lhe brindar na pele
Raios de puro amor
Apartidário
Mirar-se-ia na mata
Em que se abrem e morrem
Sempre e nunca as mesmas
Flores..
O céu lhe diria em silencioso azul
Sem pudores
O que ninguém com tanta potência impaciente compreenderia