29 março 2011

através do espelho

sou superfície reflexiva
refratária
límpida e plácida
espelhada

refletindo a tua imagem
e semelhança com os móveis
de mógno e cerejeira
bem distribuídos na
tua sala

liso e avesso
atravesso teus olhos e muito aquém
alguém bate à tua porta
que ditoso
abres

tu, sólido e bem estruturado
de ferro haste e aço
machado
me estraçalha
em mil
gotículas
de vidro

espalhadas
refletem feixos
de luz à janela
e de repente me sinto
leve...

triturada
flutuo
em mil pedaços
suspensa
no ar
como uma chuva
de prismas cristálicos

e cada pequeno fragmento de mim
cerca-te envolve-te

emito cega
e dilacero a carne do teu
olho com
meus mortíferos
e luminosos
raios

25 março 2011

não aparece na foto

meu sorriso interno

é o desespero dessas melenas
querem se misturar
às folhas do vento

quando o sol atravessa
desobnubiladas idéias
pairam maripousam

sinto que somente
duas forças movem o mundo
e não sou
promessa
de nenhuma delas

quanto mais te busco
um susto
nos braços brutos de outros
espamos
te encontro
cangaço seco e submisso
aos meus vícios
mais
desagradáveis

e me entrego
a outros desesperos
esses
amores perros
pêssegos
que envenenam
meu sangue
chupá-los frescos
pela língua
e pela boca

não se afaste
nem se aproxime demais
minha sina é te ter sem ver
sem poder me tocar
que há muito tempo
já não sou mais
-que pena!
a sua

pequena

espera

sozinha
passar a neblina

não entendo
nem o que sinto
nem o que sempre soube
que sabia

me guia apenas
um filete
de luz fina
se
me atravesso nessas
águas extensas
frias
enxergo apenas
o quanto
não enxergo
nada
disso

21 março 2011

Shakes Pearl

percebi o quanto era estranho cego obtuso tudo isso. meu horror não superou a vontade de continuar ali espiando, sentindo frio e medo. era muito solitário inventar a vida. lançar hábitos para preencher o dia, café, jornal, cigarro. e não havia verdades.

feliz. algumas vezes inventei felicidade no céu no sol na água do mar mas acabou. feito brincadeira que perde a graça. sentado sozinho, na sarjeta, sentia tédio subir no calor da rua como mormaço. aquela mordaça na barriga que comida nenhuma maneirava e doía de saudade de quê? desde pequeno tenho saudade. de quê? e vazio, mas de quê? se eu por acaso sou oco, pouco falta para ser louco. Foi quando conheci Lu.

ah, sim, as mãos de papel crepom da minha vó. mexendo a panela o cheiro de arroz, escolhendo feijão. um preto outro bão. ela dizia. lhe doía o nervo ciático. arrastava as juntas duras de artrite, o pulmão fraco me soprava beijos. uma foto dela, de moça, em sépia, segurando cigarro.
sorria uma boca sem dentes os olhinhos vivos brilhando tanto -só pra mim. menino bonito. ela dizia. eu sei, minha vó também sabia dizer isso, passando a mão em meu cabelo cascudo duro de terra.

passeava de bicicleta, formava quadrilhas de extermínio na infância para combater invasores -as crianças do território vizinho. e hávia os pérfidos bandidos (imaginários) que povoavam o planeta da minha mãe. me chamava pra dentro, pro banho, pra escola, pra fingir que era a vida normal, o que devia ser feito.

logo percebi que era tudo mentira. logo não voltava mais para casa. logo foi assim que a vida me surgia natural, a vida como eu quisesse. com direito a banho de mar e psicina... assim vi que crescia, conforme as fronteiras iam alargando.

sabia lidar com os extremos de minha mãe:

uma acordava tarde, cigarro já na boca, cabelos arrepiados que ela passaria o dia sem pentear.

a outra secreta e linda. pernas com óleos perfumados e um sorriso na cara como se as buzinas da avenida fossem rouxinóis. como

uma mulher de nome fictício a outra ainda mais louca varrida varria a sala esfregando gordura onde não havia. fritava um bife esperava meu pai chegar e ele chegava. bêbado, fedendo puteiro, batendo nela por qualquer coisa de si. batia em mim também e depois ia embora levando nosso dinheiro e nosso cigarro.

uma vez ameaçou minha pobre vó. foi quando eu peguei a faca pra ele. peguei a faca e minha mão tremia. e era de ódio. e tremia de vontade de cortar macio. pele, carne, nervo, ossos, sangue e grito.

juntos então -eu e minha mãe- afundávamos na poltrona velha. ela voltava a ser suja e descabelada, chupando distraída os cigarros que escondera. eu era o primeiro a dar o fora dali me levantava, o saco cheio, a bigorna que carregava no peito, a sensação de suar frio diante da vida.

até que meu pai não voltou. saiu pro olho da rua, que é o olho do mundo, um moleque do mundo não, um duplo fascínio. minha vó sabia de mim, ela dizia "bonito" com os olhinhos de catarata.

mas criança, não reparava, tudo tinha outra dimensão. aprendi catar piolho na cabeça da minha irmã, a brincar de mentir. aprendi, principalmente, a ter amigos. quando criança tudo é questão de vida ou morte, então a gente cresce e tudo se torna questão de tempo. e vai-se esquecendo, como era mesmo, como? eu vim parar aqui, como? aliás, onde estou?

a verdade é que meu corpo cresceu, esticou mas continuo o mesmo desabrigado. a vida me colocou aqui e não quero sair agora, atrelado a ela como um enorme carrapato sugo a energia solar, qualquer sorriso pra chamar de meu, qualquer menina. coloco o boné, a calça jeans, a colônia barata. o maço de cigarros no bolso, um pacote de chiclete. e saio sábado noite a dentro. o que mudou?

aprendi a ser invisível, nulo. os carros passam por mim, as pessoas me atropela. as meninas descoladas me acham "engraçadinho". bebo uísque e cuspo nos merdas que consomem todo meu estoque de drogas, eles são chapas, são brothers, mas batizo seu pó devidamente com pó de mármore, talco, estriquinina. e bebemos na mesma mesa, falamos sobre futebol...

jamais fui feliz. jamais, por exemplo, deixei uma flor na janela de uma menina. aliás, aqui não existe inocência. as moças são soltas e indolentes, saem de casa e voltam grávidas, abortadas, sifilíticas e se tornam putas ou recalcadas.

agora:

não sei se comentei... tenho um céu azul em minha vida. seguro a mão da enfermeira enquanto digo isso. ela não quer que eu fale, ela está séria como se eu fosse seu serviço.

eu tenho um mar secreto de bosta. um par de tênis novo. o telefone dela, num pedaço de guardanapo anotado à caneta. eu tenho o brilho dos olhos dela guardado num retrato o céu vanila -o azul, amplo como morrer, como o abismo escuro e infinito no qual meu corpo pende, cai e volta. me concentro no azul do céu limpo em dia claro, como se nem tudo fosse verdade - jamais olhei assim, Lu, pra vida...você que não percebeu ainda como é flutuar no espaço e entender de estrelas, de vinhos, de montanhas e -mesmo assim, ficar triste. ser pequeno como um pequeno grilo engolindo uma libélula.

agora parado bem diante dos caminhos que se bifurcam, não sei pra onde ir, seu céu, ou UTIr. permanecer seria intolerável. ir seria futuro. desejo uma guerra, uma batalha nobre contra alienígenas maldosos, uma saga, uma morte lírica. mas até disso a humanidade se cansou.
suas armas dispensam contingente humano.

vomito sangue. a enfermeira passa uma gaze úmida em minha boca, tira uma mecha de cabelo, não está mais séria, está com medo acariciando de leve meu rosto como se sentisse pena da hora da morte, como se me fizesse dormir,

e me limpa como uma mãe limparia a babinha do seu bebezinho, com a manga da blusa. gosto dessa enfermeira de olhos esbugalhados de horror toda delicadezas com sua gaze úmida. se pudesse falar lhe pediria um beijo. o último beijo de morte ensanguentada. se pudesse falar, eu a pediria em casamento. que se fosse comigo...

as lágrimas embotam minha vista a camisa empapada de sangue, a ambulância vai macia, de leve direto pra emergência, de lá, direto pra delegacia. fico indeciso, jamais mergulhei tanto na alma de alguém como agora mergulho na minha.

comrpreendo, quando eu era criança, e ainda ia à escola, quando o que diziam não fazia sentido nem tinha a mínima importância, uma maldita pergunta me vem de repente à memória, com um suave desejo íntimo:

ser ou não ser? that´s the fucking question.

14 março 2011

rascunho

o céu clareando aos poucos devolvia cores às fachadas da avenida suja e apesar do cheiro fraco de desinfetante e água um vapor morno de esgoto pairava.

dividia o último cigarro com ela cambalendo alguma música... the cramberries, the rain, the spot motion. não me lembrava mais das letras. o frio infiltrado na garganta arranhava o pus irritado, quando a cerveja descia gelada e, mesmo assim, a boca continuava seca.

ela era a flor plácida que colhi no interior de uma lojinha de ninharias do âmago da seca e sem vitaminas, ao fundo de uma prateleira abandonada ao pó e às teias de aranhas. as aranhas que arranham leves carícias na pele suas patas tão fina.

os vultos voltam. você quer ir para frente.
talvez eu...

mentiras sinceramente ditas seriam bem mais bem-vindas que aquela secura na boca! como há dois minutos atrás. o telefone toca mas ela não toca no telefone. quer ficar. tanto a ponto de formigamentos surgirem em vias dantes percorridas apenas por arrepios.

a minha língua lambendo toda as suas costas. tudo convergindo para a ponta dos seios duros de tanto frio. procurava o casaco havia esquecido que não trouxera nenhum. tateava em busca do dinheiro que já havia gasto. sem dinheiro, sem sono, o peito ficava largo e os olhos caídos de uma emoção sutil qualquer.

quando a encontrou na curva final da noite estava adormecida no sofá de veludo vinho ao fundo do bar. dormia cílios tão grandes, tinha sonhos tranquilos opostos às batidas densas do house.

a felicidade aqui é obrigatória. quer um trago? quer um gole? quer um beijo? quer um porre de porra boca a dentro?

não queria nada. só colo. socorro. queria sentar-se de cócoras e praticar yoga. queria principalmente mergulhar nos olhos azuis. o céu claro outra vez e o mesmo gosto na boca. barata seca, vapor de esgoto, chiclete de menta, salivas e cervejas, o céu era dele e ele era um inferninho particular da capital fria.

estava, talvez fosse precipitado dizer, talvez fosse perigoso, mas o fato é que estava: feliz.
estranha satisfação de preencher seu corpo com alcool e deixá-lo dormente, ébrio e cansado. olhos presos ao copo o gelo girando mais rápida a sua cabeça vagava despersa como a fumaça luminosa de cigarros misturada a sons agudos, roupas aguadas.

bocas se rasgando em risos chupando brasa e soprando fogo pelas ventas. pensou no sabor de tequila que tinha sua língua -e se lembrou que não bebera tequila.

as cinzas batidas no chão a faz pensar um dia estaria embaixo da terra, sem batidas, sem músculos, sem música estridente, nem rapazes suados sem camisa, sem pernas femininas nem perfumes adocicados misturado aos odores do banheiro... estaria em abosulo repouso apodrecendo suavemente, nutrindo e mesclando seu corpo à terra.

ele a acorda, toca seu ombro e a retira do fundo da cova.

vamos!
mas já? sonolenta recolhe o pouco que pode levar de si mesma.

engatamos a primeira, a segunda, conta paga, a lufada de ar gelado indica que já demos o fora dali. o dia está prestes a. amanhã é o mesmo dia. o sol se arrasta com as horas e as fachadas sujas da avenida recobram suas cores apagadas. e aquela noite longa, invencível, só se notaria pelo arroxeado pálido em volta dos nossos olhos.

18 fevereiro 2011

você só sabe chover

puxou as patas até arranhar
o ar

suas orelhas enormes chacoalhando água

a chuva branca escorrida da janela é fria

e minha boca quente
embaça o frio da geladeira

um fio de baba pinga na minha perna
escorre
na rua enxurrada marrom
eu brinco
como se fosse

o sereno da ponte
em cristal e neblina
tão fria
passando
pelo cabelo
pela blusa
pelo vento


e às vezes
tão secos
&molhados

brincamos
de chover

11 fevereiro 2011

Cida escolhia meticulosamente suas vítimas. As mais coradas, às vezes as mais tristes, isso dependia de algo íntimo em seu humor, mas havia meticulosidade e cálculo. Seu ataque era implacável. Durante um momento nosso de terror -e não eram raros- puxava maciamente assunto, quase distraída, segurava em nossas mãos e retribuíamos com um sorriso cansado, mas sincero, retirado do âmago de nossas entranhas falidas, sua voz de mel satânica fluia em nossas coraçoes e como uma serpente ia se enroscando calmamente em cada fibra, em cada nervo, envolvendo-se tão lenta e deliciosamente até nos tornarmos íntimas e então descobriamos que não sabíamos nada sobre ela.

Uma noite, desesperadas juntamos cada pista. Cida era viúva, Cida havia assassinado alguém, impacientava-me merda o que isso tem a ver? que importa o que ela tenha sido? importa o que ela é, o que ela sabe sobre todas nós e o que pretende fazer com isso. Um burburinho se formou fraco e foi engrossando havia muita agitação entre nós porque estávamos irritadiças, a hostilidade destilava-se em nosso sangue e subia e descia. Cida era uma única certeza em minha vida: mais sofrimento, era bem provável que ficasse por anos nos torturando, a todas, ou que simplesmente nos deixasse totalmente à mingua. E aí teríamos que lutar. Isso formigava em minha cabeça, como algo possível e muito provável, aos poucos ia tecendo um fino futuro, quase transparente, mas fixo e real como as paredes caiadas no nosso cativeiro.


Naysha soltou um gemido baixo, queria chorar. Eu a coloquei em meus braços, mas me sentia tão fraca quanto ela, tão impotente e sozinha. Não era um efeito ilustrativo, de fato, assim como o resplandecente céu lá fora, estávamos secas, há dias ninguém aparecia com a água, nem com comida. E não podíamos dormir a noite graças àquele mostro. Teria durante muito tempo pavor de dormir sozinha. Das pequenas janelas adivinhávamos as sombras dos avisões sempre acompanhadas de um som surdo rasgando o ar, era como se estuprassem o vento.


Os turnos eram divididos entre nós durante a noite porque o esgotamento geral nos dava fortes dores de cabeça, os lábios rachados, a língua pesada como que estivesse mastigando areia. A decadência de minhas amigas seus olhos esturricados eram a minha imagem de consolo. Alguém havia deixado meio galão com água fria e se retirado. Era racionada e obviamente daria para suprir as necessidades de apenas metade de nós. O tempo todo nos perseguia aquela sombra macabra, sentia um gelo nos pés, uma queda de pressão e ao mesmo tempo uma possessão demoníaca: devemos dividir? Elas agiriam ao meu comando, aquelas mulheres-cacos, frágeis como ossinhos porosos. Devemos dividir?


Não entendi porque a primeira coisa que faziam as reféns era nos pedir para retirar toda a roupa. Talvez um gesto de humilhação, pensei, mas não dei a devida importância a este detalhe pois foi agradável estar nua e receber um jato de água fresquinho nas costelas. Sentir aquela sujeira indo embora, quanta sujeira...cheguei a pensar em cortesias, porque sempre fui muito romântica. quase ululamos felizes não fosse pelo exorbitante peso exercido pelos olhos daqueles soldados-fêmeas. Era assim que as chamávamos e um dia disse isso à Cida, em tom de brincadeira, meu deus, estava alta. Traí minha prole de meninas.


A agitação era grande, o calor talvez, a morte iminente, uma delas me trouxe um copo que bebi completamente sem pensar, não restou um único gole, voracidade de bicho as deixou com os olhos arregalados. sentia tensão em cada pelo do corpo, nos mamilos eriçados também estávamos assim. quando Cida entrou e pensei: temos de matá-la.

um olhar foi suficiente. Daakhar assentiu levemente com a cabeça. Agimos tão rápido, Cida disparou sua arma, mas quatro de nós cravamos garras de tigre nas patas fedorentas dela e eu a sufocava tranqüilamente em uma gravata, estava totalmente imobilizada, e mesmo que desta vez não estivesse sozinha, a guarda vigia jamais a incomodava em suas visitinhas.


Daakhar era sem dúvida a mais mulher menina que já vira. um anjo de cabelos macios bem compridos que brilhavam quase azuis no profundo luar. tinha um corpo comprido cor de amêndoa e seus olhos eram duas esmeraldas da cor do nosso mar, seu olhar era eterno e triste lembrava uma pequena queda d´água em um riacho doce. Água tão límpida, era assim seu olhar, verde de tanto brilho

e com esse mesmo brilho se aproximou como uma pantera furtiva cravou o pequeno punhal no bucho da vaca, revirou a mãos para rasgar as tripas, outra e outra vez. Os dentes da mulher travaram sua boca se encheu de saliva espumosa, ficou inchada e vermelha, depois rocha e finalmente esmorecida.


Daakhar era esperta, tomou cuidado para não danificar o uniforme, por isso retiramos suas roupas bem rapidamente e nos vestimos, para não manchar ainda mais de sangue, quase tudo ficou intacto mas teríamos que lavar sua camisa, de qualquer jeito, e teria de ser na pouca água que recebemos.

Fui a primeira a declarar que todas poderiam beber um pouco da água, mas seria um líquido conspurcado pelo o sangue imundo da assassinada. O primeiro pelotão se formou sedento, e feliz. Era o resultado de nossa vitória, era nosso vinho inebriante e se houvesse tempo teríamos devorado também suas tripas.


Para nossa sorte o uniforme era composto de várias peças de roupa e precisávamos delas para escapar do sol tenebroso. Depois de alguns dias sem que nos trouxessem de volta nossas roupas compreendi porque éramos prisoneiras e não havia nenhum vigia.


Estávamos nuas e isoladas há muitos quilômetros no âmago do deserto. Conhecia bem aquela região. Passeava por elas com meus irmãos nas longas travessias que meu pai fazia para vender couro de cascavel e carne salgada de gazela e comprar roupas, lenha e grãos para nossa família. O deserto tinha temperaturas muito baixas durante a noite e escaldantes durante o dia. Era impossíve fugir sem proteção para o corpo. Não nos restava escolha escolha exceto ficar abrigadas em nossa prisão e esperar por comida, esperar e esperar, torturas, humilhações e agora aquele joguinho nojento dela.


Demorei para perceber mas ela queria ver como se comportam os bichos humanos sem água e sem alimento. Quando já tinha se esbanjado até enjoar conosco, inventou essa deliciosa brincadeira, queria que matássemos umas as outras, por comida, por água. Então, restaria apenas algumas, as mais fortinhas, as que ela poderia maltratar ainda mais, ainda melhor. Nos vestimos depressa porque não havia muito tempo, para nossa sorte ela estava carregando uma mochila, com algumas peças de roupa, equipamentos, água e até um pouco de comida.


Isso não era estranho porque quando vinha para cá sozinha, costumava ficar durante alguns dias, de modo que teríamos alguns dias de distância, caso fizessem questão de nos caçar.

Mas não poderíamos voltar para a cidade, de forma alguma, pois todos sabiam sobre as prisoneiras mutiladas, levantaríamos suspeitas, nossa única opção era ir em direção à floresta, descer encosta do rio e tentar a sorte no porto, seria preciso nos misturarmos à massa de gente lá, conseguir vestidos de pano. Eu poderia tentar escapar em algum navio, seria arriscado, mas eu poderia. E também lá havia muitas mulheres viúvas, mutiladas, que só podiam sobreviver de alguma esmola. Reunimos o grupo, sete moças mal vestidas, duas meninas nuas, mas pelo menos seus corpos estavam intactos, poderiam até se casar, Ashyellën e Vayarllën eram bonitas e muito espertas, e as queria por perto, assumi o compromisso de cuidar delas, mas não havia roupas para essas meninas de modo que tivemos que as levar em nossos colos protegidas apenas por um sufocante casaco de Sargento e uma capa de lona.




08 fevereiro 2011

Jardim

aquele olhar adivinhava
e via
a tempestade nas borras do vinho
todos celebravam ela
remoía sua vida tentando espremer um sumo
adocicado e oleoso com o qual pudesse
adornar o corpo
para os derradeiros dias

aqueles olhos adivinhavam que um dia
não haveria abelhas, não haveria absolutamente
nada

e o ponto do tempo em que estavam agora parados feito fotogramas no jardim estático
era tão belo e insignificante
com uma abelha a pousar nas margaridinhas pálidas
salvas da exposição solar
que a todos aquecia

infinito por todos os lados, travessas e possibilidades
o ponto parado no tempo : este minúsculo instante
presente que
lhe deu um arrepio
profundo
veio lá dos forros do vestido subindo até pousar delicado na flor
da pele

24 janeiro 2011

tenha dó

nem me digas onde

supostamente vais

se não pretendes voltar

até amanhã


tenha dó

de mim

você não tira lasca


somente eu

te entendo

e te saco até de

olhos fechados

quando acordas suado

sonhando

com ela


tenha dó

a mim você não engana

há outra em nossa cama

e até sei quando sonhas

bem acordado

e vai ao céu

perdido na mansidão anil

daquele olhar infantil

e a tristeza te invade

rapaz

e não me podes

explicar

nada mais

desligar o

mal me quer

e ficar

tão leve

se me escreve

se me nota

se me sorri de volta

sou tão ditosa e


te saco até de

de olhos fechados

quando acordas suado

sonhando com ela

sonhando com ela


19 janeiro 2011

assim ela já vai

os dois se mediram sorrindo ela apressava o foco lá atrás como se a paisagem importasse. ou estivesse realmente perdida. olha estático, procura o que nela poderia estar perdido. e além do mais, não possuem certeza sobre quem são, embora sejam exatamente os mesmos rostos de antigamente.

será ela mesmo? por um segundo mais se olham, sorriem e então se entregam à fatalidade;

oi! mas como é que você tá?
linda!
ah...brigada, sorri amarelo. você também tá diferente.


diferente é o braço não dado a torcer.
inegavelmente estavam mais belos, a pele melhorada como se houvessem se livrado de um espinho fino e penetrante cravado nos pulmões. o rosto iluminado de ambos os lábios não mais se comprimiam para conter uma fúria aqui outra acolá, a língua soltousse em delícias e precisões e se tornou incapaz de insinceridades. os músculos, finalmente, relaxam e as fendas profundas dos olhos adquiriram tranquilidade. até os cabelos ganharam viço.

porque lhes acometeu a febre do prazer de não mais partilhar pequenos sórtilégios cotidianos. delitos tão mesquinhos que ia escurecendo a auréa de ambos. e assistiam de mãos dadas e muita parcialidade o declíno as suas íntimas espectativas. viam ruir as mais tenras perspectivas. poderiam ter-se estabilizado, poderiam ter engordado e se tornado mais sonsos, mas incessantemente procuravam alçar voo juntos como um par de gaivotas desaparecendo no horizonte do mar. só que cada uma acreditava saber melhor onde encontrar a maior dardinha prateada.


e isso cansa.


de que adianta ser tão profundo se ninguém vai até lá trazer à tona o brilho que você esconde, se não fazem mais questão de resgatar a pérola torta no oco da sua concha brilhante? melhor se arreganhar ao mundo. botar fora os dentes e as tripas. e seu grito de guerra será um colorido riso de menino, como um delicado e úmido arco-íris.

o cabelo dela cresceu castanho. ele deixou a barba afofar pacífica no rosto moreno. a gente se fala, se cruza, se separa, repara, pra quê? muito ao contrário do que era agorinha no banheiro esmurrando o porta-sabonete vazio, ela sorria tranquila.

e aí, o que você tem feito?

eu? estou fazendo sucesso. vou me babar de gabar e dizer que eu alcancei a fama, mas ela atropelou meus passos está me arrastando pelo pescoço na estrada de pedra e poeria e eu tossindo terra para a platéia aplaudir.

assim, algo aqui algo ali. e você? foco nela, foco.
estou bem. na-morando no canadá.

que merda você pode fazer no canadá? catalogar as tonalidades do gelo? fuja comigo para a argentina, garota. sempre te disse isso. bamos conhecer latinos de sangue fluído e quente, doce feito vinho. bamos beber litros da vida, sugar-lhe até a única gota que restar.

ah, que ótimo. e seu projeto?
que projeto? ela sempre tinha um. algum. qualquer um, porra

aquele seu...
ah, tenho novos projetos agora! meu deus, como o tempo passa...

então a deixei melancólica. ficamos calados por uns instantes tentando encontrar um novo elo. detesto quando fica assim, sem auto-confiança, opaca. acabo indo pro buraquinho junto dela então ficamos tímidos nos esgueirando pelos canto como dois grãos de poeria. mas depois logo seu olhar se iluminou como o mais belo raio sol na puríssima neve da montanha.

estou escalando! vamos montar um grupo no canadá tem muitas montanhas. faço parte de um grupo de adoção e proteção aos animais de rua também.

ah. quanta iniciativa. mas é incapaz de lavar a louça, incapaz de recolher suas roupas íntimas sujas pela casa, isso ela não é capaz de fazer. snowboard, sim, louça, não. além disso, eu sempre cozinhei e a cozinha sempre foi impecável e isso não faz a mínima diferença porque ela deve ter três cozinheiras e sete empregadas agora. sempre dizia isso.

como se adivinhasse o que penso ela olha a aliança. sei que olha, sei que percebe que eu estou sozinho. deixa o dedo dela enorme, o anel. uma nuvem gorda passa pelo sol o clima arrefesse. é dela a idéia de continuar falando.

continua cantando?
e seguindo a canção, senhorita. digo, senhora. ela fica perturbada, acha que não irei desejá-la nunca mais porque usa um anel feio no dedo.
é sério. parou de tocar?
vale punheta? ela cora.


onde está a merda da felicidade?

escuto um barulho irritante e surdo, como uma vibração vindo de sua bolsa.

uuu, onde será que deixei meu celular? fucinha na bolsa. parece aflita. igualzinho antes. fuça por horas e não encontra jamais o que procura, revira tudo. quando para de vibrar ela encontra o aparelho e vê a chamada perdida, suspira.

então, preciso ir.
jura? não pode...
posso.


seus olhos verdes acendem me encaram daquele jeito. maldita. um olho cego vagueia procurando por um. quantas. e seu olhar me leva de novo praquele ponto em que eu a amo e a odeio ao mesmo tempo em que ela a vejo indo embora com uma tonelada de roupas, cds -os meus preferidos, os nossos livros. e eu não corro atrás dela. eu quero, eu sou um puro suor frio na testa, respirar dói, mas nem limite máximo de uma humilhação seria capaz de retrocedê-la sequer em um passo.

será que ainda escuta nossas musicas? deve ter queimado tudo num ritual de despacho, aposto. no dia do casamento. saiu tão só, tão pequena comparada a enormidade de malas, carregava o mundo nos ombros magros. tão só, sem mágoas... sem mágoas o caralho. levei séculos pra cicatrizar. um dia na praia, até então não tinha entendido, ela ronronava o sol ia se pondo alaranjado, vermelho, dourado eu esfregava seu rosto de leopardo em minha barba, ela parou e disse por debaixo dos óculos: a solidão é só minha. nasceu e morrerá em mim. amém.

tá morando aqui, então?
é, siempre. pés no chão é a única coisa que me ajuda andar.
eu prefiro o voo, pedro.

claro, desde que alguém pague as milhas pra você curtir seu sonho adolescente irrealizável. pode fazer arte medíocre e se sentir menos torta, menos morta, menos mortal, mas os hormônios mexem com ela. as mulheres são biologicamente programadas para a infelicidade, talvez porque sejam as responsáveis pela perpetuação da espécie.

anda fazendo o quê?
eu... faço velas artesanais. vendo no calcação.
tá brincando, pedro.
sério.
então abandonou a música?

por que será que se preocupa tanto com isso?

estou namorando a madona. isso conta?
todo mundo com menos de 23 anos tem chances com ela.
não importa o sexo.
o sexo é a única coisa que importa.


e sua mãe aquela doida?
ah, faz séculos que não falo com ela.
desde então?
ela me prejudicou muito...
ah, que é isso! mãe é mãe. esses dias, aliás, eu a encontrei na rua ela fez que não me viu, não me reconheceu.
aquela vaca. bora mudar de assunto. então...
ei, garçom, dois sucos de laranja.
com vódica.

voltou a beber?
nunca parei, andré.
meu nome é pedro.
ah, é. me dá um cigarro. eu não tinha reparado, ela emagreu muito. parecia menor, mais contida em si mesma, fisicamente. mas algo nela a fazia expandir e acho que era a trêmula ondulação do seu olhar e os gestos mais amplos e relaxados. ela mexeu por alguns segundos na bolsa e localizou seu maço.

ao riscar o fósforo seus dedos tremiam. chupou seu cigarro lentamente, degustando e distinguindo cada sabor.

voltou a fumar, então. suas mãos pequenas jamais deixaram de tremer. trêmulas e frias como um filhote de pardal no inverno. fumava com muita elegância e calma, seu cigarro poderia durar dias a fio.

eu segurava suas mãozinhas achando graça. tremo por nós, dizia. por mim, pelo futuro escuro em cima do muro. tremo pela realidade a se desintegrar diante dos meus olhos pretos. ela entreabriu os lábios, enormes, vermelhos. a fumaça saia lentamente enquanto seu olhar verde-psicina lançava fagulhas em minha palha seca. e como se oferecesse a alma, um beijo:

aceita um trago?
parei de fumar, marilia.
porra, andré, meu nome é angela.
desculpa, vocês são tão iguais...

18 janeiro 2011

Dormingo

a toalha branquinha cheiro de

ferro morno em sabão de coco

as fibras

macias


os pratos todos limpos

os copos com água ou

refrigerante


a família mastiga

mórbida tarde de domingo

sem intervalos

sua imprecavida faca voa em direção

aos olhos

sonolentos

do cachorro

acorda


cruza as pernas tensa tensa tensa

descruza segura o fôlego

e goza.


ninguém a vê

bochechas rosas exceto

aqueles silentes olhos

do cachorro cheira seu garfo

cheira suas pernas

escorre um fiapo

de suor entre

a família devora

mórbida carne de

pescoço.

17 janeiro 2011

Shiva

a noite nos olhos
brilhando de estrela até apagar
a vida o calor
azul menino
hare

o vulto dos vudus
zunindo nas senzalas
macia a massaroca
da índia

as ervas de cheiro
afeitam veludo das
rendas portuguesas


os povos são todos
de terra
de mãos e pés
de carne

seca
enquanto retiravam cacos de vidro
de dentro dos meus olhos
estou morto
o chicote estala nas costas do meu
cavalo há muitas vidas
quantas
pedindo esmola
o menino azul
de fome

faz crescer
vermes
na barriga

04 janeiro 2011

como se

fecha os olhos
como se
avoa
sse.

o estomago vago há muitos dias. de fome, de pele. a pele que me reveste é meu primerio indício

os fones sempre ouvidos e baterias que duram pra sempre a música tece toda a constituição física da bolha nos meus dedos raspando na calçada.

toda pressa, as pedras do calçamento. toda pressão que o ar exerce sobre os gritos de assalto tem algo a ver comigo. nada tem mais brilho que meus dentes sorrindo são maiores que o sol porque dentro da minha boca é escuro pra minha língua pois meus dentes cobrem o mundo.

depois sou tomado de alegrias que não condizem. quero ir embora mas perdi o trem.

meus olhos não se fecham o ombro não perde a tensão. poderia a qualquer momento achar que o mundo havia enlouquecido mas eu sou o mundo. sou a humanidade fétida e afetiva que caça e consola. a força suprema que meu corpo faz para des-montar engrenagens. sobrevivo feito uma dávida, não há tempo para felicidades, contra-tempos. não hei de temer a morte, temerás somente teu medo.

a delicada flor da pele aberta às possibilidades do frio e se me riscaressem essa fina película, essa capa de pele? o líquido morno que então carrego dentro se escorreria pelas ruas feito chuva. enxurrada de mole mim seria eu coisa sem definição sem contorno em forma de

sorriso assim seco de saliva pode-se até secar o riso.

subir como um balão tamanho calor em meus pés escalpelados pelo calçamento. as alegrias vão também louvando licenças sem sentido algum, sem que os fatos confiram. os policiais vigiam o normal. abanam moscas e mendigos.

a música induz sentimentos, sim. mas não seré o contrário? a primavera entre os dentes e a bolha que a qualquer momento pode estourar seus miolos, seria doce libertação. sentado em pose de lótus recordando as vidas anteriores, sentindo a paz dos sentidos plenos- mas não ajuda a me achar, perdo na escuridão do olho cerrado, recuso-me abrir o coração acelerado sem causas definidoas, sou feliz sem medir consequencias e estrepo, até os pés nos espinhos da flor de cactus.

questão de acreditar então o peito oprimido pequeno dentro do mundo abrigava essa cidade pobre e cheia de co-incidências. abriga um universo escuro, misterioso, cheio de estrelas que insistem. sim, insistem.

como se
alguém chama
sse constantemente seu nome íntimo.
como se
as cores também
fossem da matéria láctea das
vias
como se
nossa pele fosse como só
o sol poderia
linda
morena como só
a natureza
desenhar

01 janeiro 2011

contato uspiano com a chuva:

Nunca mais os dias de chuva serão os mesmos, pois eram os teus cabelos que pingavam molhados e nas ruas vazias da tarde - em meu mundo tão ordenadamente caótico- só havia nós dois diluídos em aquarela.

na lente do teu óculo, minúsculas gotas de água refletiam a luz -que só poderia vir de nós pois o céu era um denso veludo púmbleo. E me sorrisiu tímido com covinhas nas bochechas.

Estávamos perdidos, procurando os outros seres humanos, mas meus passos eram como passos de um baile sem máscaras, de alvíssimas melodias sutis. E eu sei, escondia um rosto bonito por baixo de todo aquele cabelo e, eu sei, da indiferença nesse olhar tão negro.

Ah, os dias de chuva! O nosso dia de chuva entre tantos outros dias de lágrimas prismáticas dos olhos azuis do céu. Delírio onírico, momento vão. O poeta em transe... Foi quando tive a coragem suprema de dizer, dizer tudo. O que toda timidez pode confirmar é sua legítima consiciência do ridículo.

Dito tudo, ele então, desapareceu; como o orvalho frio se evapora nas manhãs de sol. Só restou-me esperar que a lilás flor do estio brotasse na Pedra inerte e, desta forma, pudesse reencontrá-lo, Pedro, encarnado no beija-flor.


Ida

recolhendo as roupas do chão, acende um cigarro. sai passos de passarinha
pisando leve quase asas. amanhece o rosto de quem não dormiu.

escuto o bico do seu sapato. tic-tac no asfalto.

não me movo. deixo-me estar ainda com sono como pode levantar-se tão energeticamente cedo?

acolhido no canto da chuva rala rompida apenas pela aceleração do carro que se mistura a um nó

na garganta

lá fora à espera

espermática

dela o próximo cara, o outro.

os tantos outros que

hão de vir.

Só me resta ruminar o vago prazer deixado por seu beijo amargo desejo de ter seus seios novamente em minhas mãos.


Minha

suporto.

da sua boca

pequena

um filete de sangue
fluiu
em mim
no breve beijo...

que me deste

E as carícias que

nunca te fiz

ainda ardem nas pontas dos meus dedos,

guardo-as bem secretas

de ti. toquei teu rosto

como se tocasse

um talo de flor.

Quero-te tanto

usada, suada

sorrindo sem desejo

desajeitada

mas nunca estás comigo

estás sempre mais longe

e mesmo atada às minhas mãos

és distante

não és minha

não és nada.

poesias antigas I



A cor do teu sorriso

é escandalosamente

escarlate


porque não te por na cama para dormir

seria absurdo

tuas garrinhas
e cheiro de chá

na pele

por que não brincar

de te rodar

no ar me apegar
escorrido em você toda

boca de licor

de framboesas?


a saudade doce

impregnada
nas parede do meu quarto,
em minha pele...

tu és a parte
a arte
de ser

estrela

desenhada no céu

viva pra ti vai

vibrar amarelada

sorrir

dentro do

teu olhar

como faíscas

que teus olhos pretos

soltam





30 dezembro 2010

negrim

eram meus.
meus sonhos em passos
de romaria passando brandos
em dança moças flores de perfume e incenso

crianças e suas asas invisíveis
seus pequenos pés que não tocam chão
flutuam e fluem
pela leveza do ódio
pelo peso do perdão
que deus também inventou
a dor que carregam
tão
longe lá no mar trouxe da nau
o homem
e até a mata mais densa
e a do mais alto cume se curvaran
ao gume da sua faca

descalço as mulheres
pisam o
chão ennxarcado
de sangue
lavam a roupa
na pedreira
do rio

se é noite
fogo
se é fome
tempero
de cheiro
do mato
um bicho
de sangue
morno
e que oxalá
sua carne
se rasgue
em nossa
dentição

oxalá nos proteja de toda escuridão
toda escuridão
da noite
e desses
monstros
que cruzam o mar
de vastidão

28 dezembro 2010

O canto da sereia

Quanto mais esticava a corversa mais puxava pra trás os cabelos discretamente arrancando os fios grudavam no sorriso melado de batom. O chiclete grudava demais o casal de colegas que chegaram justamente quando quase ia se levantando.
O coração buscava os ares lá de fora em urgência de bater descontrolado ou parar. A boca seca numa leve explosão sanguínea, um derrame cardíaco. Enquanto lá fora o cheiro de cerveja gelada na boca sorrisos e camisas floridas entreabertas deixando o peito bem exposto a quem quisesse entrar, cabia todo mundo, cabia estrela, batuque, menina, flor.

Tinha ansias de dançar mas o noivo não se movia. quedado tranquilo dentro de um sossego espiritual, satisfeitíssimo com o retiro social. Como quem não quer ver sequer queria estar. Mas seus quadris inquietos e a cantoria longe a embalavam das pontas dos pés até a boca do estômago. cantarolava agressivamente doce pra dentro entre os dentes. A cadeira de espinhos a atingia em pleno olho, olho buscando doido os rodopios dos vestidos de cores das flores do samba e o seu vestido sentado murcho na cadeira.

Disse fingindo calma ir beber água. Foi ao banheiro se olhou fundo. Limpou o batou da boca, soltou os cabelos e jogou muita água na cara, sorriu bonita, sorriu a dentes plenos e seus passos eram lépidos até o palco rodopiou e sambou com deleite dançou até se esvaziar cansada de si diluída no suor calou todo atabaque enlouquecido tocando dentro do peito sem parar nem pra beber água. Prestar atenção no mundo a cabeça ainda girando girando o noivo veio lhe recolher totalmente pálida os braços moles e bem presa pela cintura foi sendo arrastada firme e amorosamente para fora, para longe do público aquele rosto selvagem vermelho que todo mundo via.

De pouco iria adiantar. De pouco em pouco a aflição crescia porque o futuro, que era mesmo? ele exercia uma pressão vertiginosa de queda seus braços a sufocavam até parecia um alçar voo bonito mas ela intuía tudo. A mil anos luz lá longe sabia mais que ele -mais que todo mundo -que o amor era precipitado precipício e que todos a empurravam sorrindo plácidos para a fila das mulheres grávidas, empazinadas e felizes.

Não era mulher de tipo feliz. Era de sangue quente de sangue cativo. Suas veias vieram sinuosas de longe lá do nilo e de pés descalços brincando no chão, com as pequenas ervas rasteiras beio de onde não restou ninguém. nem história, nem passado, nem folclore pra contar sobre seus antepassados e lendas fadadas ao esquecimento simplório do cachimbo.

Para ela todo mundo era reino e dançavam nus sem as asperezas da areia do mar e ela ria rios e cachoeiras. e ao cair da noite brincava com outro na rede a balançar. Balançando embalava canções para estrelas, para a noite Infinita. A rede de bananeira. Depois batuque, batuque a noite inteira.

No carro ela pediu para lhe acudir abrirem os vidros pro vento entrar. Seu vômito era amarelo e amargo na garganta. Ao longe sua noite tão livre ia ficando pra trás. Ela se lembrou num lampejo de luz que a fez cegar quase tocou seu vestido de infância, e se lembrou chorando do quando gostava - o quanto sonhava- de dançar.

quem pode evitar

o silêncio bastava
um minuto dele já
ofegava brandamente
o ar rarefeito
-e quente

do silêncio
ávido
enchia os pulmões
mas era leve
leve
como
ninguém te vendo
absolutamente quieto
podia até
tocar as mãos
de um anjo

21 dezembro 2010

O nome da Rosa

um nome aveludado
lasca
lápide
lapidado
túmulo do que brilha dentro
do nome
fulgura
faíscas de
fascínio

rompido
adereço
contorno
de nome
inteiro
e cheiro

de tudo que
procuro nas
livrarias para me livrar
na hora do ah
na hora do orgástico
domingo ansiar
enrolar os dedos nos
teus cachinhos
da paz
nos teus
cachinhos

a mesma
cena
te enlaça
morena
a sombra
desse nome
de guerra
o mesmo sol
que abrasa
tua pele
bronzeia
quando
se banha
no mar

13 dezembro 2010

orgânico

seus
dedos de terra
rainha
sete copas

a primeira rama
do que virá a ser seu
reino
de abóboras

redondamente
picadas
com coentro e
salsa

brota
tudo fresco e
orgânico
como no
workshop
de hortas caseiras

que seus dedos de terra
aprenderam
a plantar centeio
colher
saudade

11 dezembro 2010

Noi

In mezzo alla tempestá
your and my heart are together
Nel fine di altra humanitá
your and my heart are together
nella guerra e nel fuoco
your and my heart are together
tra le luce della città
your and my heart are together

30 novembro 2010

zimbauê

tudo que queria te dizer
era
vamos embora,
zimbauê!
pra muito além
desse monte
de bobagens

talvez até pra além de você
a gente encontre
uma moça
morena
vestido
simples
de algodão
e laço
e
a gente brinque
de amor
de rede
e de abraço

quero te beber, Zimbauê
num copo sujo de saudade
toda
gelada e
cremosa
sem hora
de ir
embora

Zimbauê:
eu o sol e você
toda
senhora
de si
a sorrir

aos outros
não saberia explicar
porque parti
seu
coração...
talvez porque você tenha
recolhido todos os
cacos
do chão

aqueles passos lassos
que
jamais
passarão

meu coração batendo atrasado


perdeu o ano
o número
e o endereço da sua
casa

talvez você more nas montanhas
talvez viaje para a
praia pra
beijar o sol na boca
beber
a água
salgada
do amor

29 novembro 2010

Do desejo

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

Hilda Hilst

vento

ele é um lindo
sorriso vindo
me chamar

pra brincar
na janela
me chamar
outra vez
me roda levanta voando o vestido
me leva no ar

me leve
me ergue
moleque
levado
sorriso de céu
sorriso de céu
será que se deus quiser
tu não há
de vagarosamente
me penetrar
os
sentidos

jovem
coração
alarido
trovão
e tem sabor
de raio
nas mãos


olhos de céu
azul
a me olhar
pra lá e pra cá
dança
e roda ciranda
com a ca poeira
que o sol
levantou
no ar

10 novembro 2010

Mr. Walker

o corpo de uísque à luz neon é blues
seco sem gelo sem açúcares
vidro sentindo frio
aos avessos
vai, João, em
teus trôpegos tropeços
em tua capa
contra o vento
na ferida despida
de cachecóis
luvas
e sobretudo
dos olhos
doloridos

um odor
amarelo
sabor mescalina
espalharia
feito cancro
feito néctar
o aroma
da melancolia
que a dama sopra fria
em expirais
azuladas das narinas

toda sua dor
escondida
nessa sua pressa
nessa pressa
de diamante

João,
teu sábio charuto
teus másculos
músculos maiúsculos
desejando a mulher da próxima
esquina

que beija a cigarrilha
borrasse de batom
lábios perfumados
que bem poderiam
encontrar
uma ponta
de interesse,
querido,
nos teus argutos sorrisos
como antes já havia
se esquecido de como era
antes
do seu corpo se tornar
vidro...

09 novembro 2010

silvia

silvia espera o ônibus. olhos flácidos de quem não dormiu direito a noite. envoltos por olheiras profundas como noite gelada sente o vento secar suavemente seu rosto. observa ao lado pessoas que fingem pensar alto enquanto apenas sussurram sonhos sozinhas.

tem perfume de manhã. sorri inexpugnável e de rosto opaco- colorido de manchinhas de cigarro. quando está apaixonada pensa em suas manchas como sardas. e tem os dentes bonitos de leopardo.

escuta o rapaz de tenis, barba e mochila escutar o fone de ouvido. é bom dançar de olhos fechados. amar de olhos fechados. amar até fechar os olhos e enxergar o outro de olhos fechados.

não importa os juros o que importa é carregar o vermelho indiano, com franjas douradas e contas de rudráksha e sandálias de couro delicadamente torcidas nos pés como quem exibe uma ave exótica. uma ave leve. a rainha do circular urbano.

sentou ao seu lado uma moça tingida de ruivo nos olhos rápidos os dedos rápidos no celular enviando mensagens instantâneas@

imaginou esses dedos ágeis as unhas bem polidas ao piano, em sua vulva; o rosto sério e compenetrado. a mão trêmeluzindo no celular ia apagando fotos, e-mails, perfis sociais de um casal sorridente rodeado de amigos -todos com caras bêbedas uma praia ensolarada ao fundo de um mar esverdeado. dava pra sentir a brisa daqui.

uma a uma, força nas teclas, delete, delete, derrete ele. mas os dedos ágeis deliciosamente pálidos e compridos.

um velho olhava as fotografias do jornal. era óbvio que via apenas as fotografias e não estava lendo o jornal porque seus óculos não funcionavam mais. uma vez lhe perguntou as horas. e ele olhou pro relógio com cara de espanto, como se fosse criança e não se lembrasse o próprio endereço. admirou o punho um tempo, aquela bola de cristal que não se comunicava mais com ele. como deveria ser seu mundo embaçado agora? cheio de traços e cores disformes? depois de olhar, murmurou algo pra dentro de si mesmo e finalmente fingiu que não a escutava mais . velho cegueta. escondido atrás do jornal.

o velho cegueta:

de manhã vai à banca comprar jornal. todos dias. desce no ponto em frente à lojinha de roupas usadas-nos fundos mora uma mulata que costura, tem lá seus bons sessenta anos e é muito bonita. boa de fogo e fogão, caprichosa nos sorrisos cheio de dentes e um rosto alumiado de gratidão. ela o espera com um bule cheiroso de café e um aroma cremoso de pão. toda manhã. o velho não casa com ela porque tem uma esposa doente. é sempre assim, de dia feliz com a mulada, de noite humilhado ao lado da mulher. não escolheu nem a alegria nem a tristeza, fica vadiando entre as duas e sua aposentadoria escassa.

o velho a percebe percebendo-o raspa o pigarro da garganta e cospe um catarro verde escuro espumoso formando uma pequena poça de ranho muito próxima ao seu próprio pé.


um suspiro aliviado irrompe o cansaso de silvia. lá vem o casalzinho. ela os chama assim: casalzinho. no diminutivo porque têm rostos de criança. sempre cansados, atrasados, perdidos. será que os dois têm insônia? o que fazem tanto durante a noite que os deixa de olhos tão baixos, vermelhos, lábios ressecados e os ombros murchos?

chegam sonâmbulos. procuram um local silêncioso e morno e esperam. o ônibus chega, ela embarcar e e ele volta pra casa -os mesmos olhos baixos. acende um cigarro então assobia pra um cachorro que surge do nada e o segue abanando o rabo, feliz. e se vão sempre não se sabe pra onde. silvia se perguntando sempre.


o rapaz sonâmbulo pisa no cuspe asqueroso do velho. seu tenis desliza um pocuo deixa um rastro de lesma atrás. quase escorrega, mas seu braço apoiado do dela não deixa. eles são assim, um escorado ao outro como se não pudessem com o próprio eixo.

todos os bancos de espera estão ocupados, raramente eles conseguem se sentar. então ficam de pé, exaustos. aposto que as pernas moles. estão sempre cansados. o braço cansaço de um no ombro exausto do outro. e fitam o abstrato. com os olhos caídos. isso é que é apoio mútuo. camaradagem...

embora ela se esforce todos os dias para envesgar até não enxergar completamente nada, apesar da grave miopía que só corrigia para ler livros, seus olhos desafornudamente cruzam com os dele. e o rosto cadavérico vindo das profundezas das trevas tão lindo, tão lindo, tão pálido ali de mármore o moço-pose-de-árvore. sempre deglutindo um livro. depois que seus olhos se acham os dela não procuram mais.

ele tem a expressão facial de raízes expostas aos intempéries mas que resistiram honestamente às tempestades. uma tolice a dela. esperramada esperando o coletivo que não vem, não virá.

ela imagina que ele a vê bonita, mas sempre fatigada , sempre destruída por buscas noturnas que não combinam mais com a idade que tentava romper o último fôlego da juventudo. sua pele opaca, mas jovem, suas manchinhas invisíveis de cigarro, sardas. seus seios firmes, suas coxas grosas e cremosas.

ele a desanimava um pouco, não que pudesse realmente desviar o olhar, mas gostaria

de saber com certa urgência se estaria sempre esperando, se sua vida seria toda perdendo e achando os óculos e se os sinos badalando dentro da cabeça um dia iriam diminuir o tom desagradável de voz

e se quando cansada de não fazer nada ainda teria de sair pra pensar fumando pra chorar em silêncio a céu aberto. estranhamente exposta à galáxias e outras vidas e obscuras possibilidades de matéria que poderiam vir a ser todas dela neste planeta se soubesse sair da casquinha de ovo que inventou pra poder ser mole e viscosa por dentro.

um dia ela ouviu dizer que se ficasse tempo suficiente olhando as estrelase iria virar luz e voar luz voar anos-luz até aparecer no céu também.. acreditou porque tudo que ele dizia tinha a boca bonita dele -na qual ela confiava com calma. para além do que até agora tinha sido. seu primeiro amor estava...onde? ah, sim, casado.

estava farta das obviedades platônicas deste então. bom mesmo é puxar o homem pela barba. esse tesão desavisado que vem, vai e volta para suas pernas cruzadas em pose de não, um livro projetando a dor do peito para as páginas e os óculos grossos ocultando um olhar fino para sempre cega a todos as guloseimas do amor, cega à placa de contra-mão que: tuuuuuuum!

e buzinas frenéticas de carro rasgando seus ovidos.


tirou-a do transe de si e lá de longe ela viu todo mundo vendo um pouco mais despertos pelo susto o ônibus se aproximando e o acidente la atrás duas motos que sairam se ofendendo, sem machucados, sem pressa, sem a alegria do ônibus que vinha e abafou tudo isso.

começou a ventar forte. nesta mesma hora. uma hora em que a reladide acorda. ele foi obrigado a tirar sua fuça do livro e ver o mini-tufão de poeira trazendo folhas secas e guardanados sujos de mostarda pelo céu. a terra revolvida formou uma pequena nuvem de pó nos olhos. o outono. o vento levou alto as folhas mal arrumadas da pasta frouxa de silva e ela tentou agarrar o que pode soltando gritinhos de desespero e o rapaz de fone de ouvidos ágil como um gato saltou sobre algumas mas desistiu da maioria assim que o vento soprou ainda mais forte.


o vestido de silvia e suas folhas flutuavam alto e longe...

acompanhou com olhos mocos todo seu drama. o ônibus freou soltando uma presão de ar para abrir a porta como um suspiro mecânico, como um paquiderme de aço. os passageiros começaram a subir. não poderia mais alcançá-las.

enquanto subiam como um bem comportado rebanho ela se sentou procurou na bolsa uma pequena garrafa de conhaque que tomou com fé e coragem enquanto alguns olhares estarrecidos se voltaram para trás. todo seu trabalho de um ano inteiro.

pensou que a olhavam estranho. ou pensa que olham sempre achando que vê o que de fato não existe realmente achou que quando voltava de onde? da faculdade, a pé, sozinha. era de noite e alguém a seguia. um homem mal intencionado e não havia ninguém. olhava pra trás. ninguém. só podia ser um fantasma. riu dos seus papéis perdidos no vento. riu porque estava um pouco bêbada e muito desesperada. era o trabalho que iria apresentar assim que chegasse atrasada, a sua defesa de tese. sempre atrasada.

o velhinho e seu jornal se adiantaram para a cadeira dos inválidos, jornal embaixo do braço, o rapaz de barba e fones de ouvido passou por ela ignorando-a, como se fosse invisível. jamais poderia sorrir bonito pra ele, mostrar seus dentes de leopardo e agradecer sua tentativa patética de ajudar com as folhas. jamais.

ele se sentou ao fundo na última poltrona disponível uma mulher obesa lhe obliterou com as nádegas, não, foi com a bunda mesmo, e enorme. todos de pé, o homem de rosto magro e cadavérico de olhos vidrado na janela ou em alguma pira muito interessante dentro dele. o livro na mochila.

somos uns zumbis sonhando novidades passo penso distraída pela Vidigal. garoto idota, não me olha nunca mais. foda-se. silvia desceu e lá se foi ele nunca soube nunca saberia pra onde nem porque ele ia se um dia desaparecesse pra sempre, no entanto, ela ainda o amaria...até perdê-lo de vista, ela...

chegou esbaforida. levemente descabelada as pupilas dilatadas pelo conhaque o hálito um pouco cítrico os corpos confortáveis da platéria esperando que a louca se dirigisse ao anfiteatro. era curioso como seu coração acelerava num remorso paranóico como se houvesse acabado de matar alguém e todos ainda pudessem notar a camisa suja de sangue, os intestinos se contorcendo dentro da barriga e os gestos crassos de uma assassina.

vomitou seu discurso previamente preparado sob a pressão do dia anterior sem as folhas, sem a segurança que tinha diante do espelho pra platéia imaginária. fez o que pode, enrolando o menos possível., meu tempo bateu cravado, quinze minutos. duas garotas se aproximaram com cadernos tinham anotado tudo o que disse.

eram colegas de convivio forçado, sorridentes, deram os parabéns. isso é chato porque depois você tem de arrumar uma situação para dar os parabéns também e nunca acontece uma coisa dessas porque jamais ela fica até o fim das apresentações acadêmicas dos colegas, então permanece numa inútil busca.


pensa em convidar uma das garotas para tomar uma cerveja no bar daqui a pouco, depois dos autógrafos quem sabe lhes dá os parabéns também, caso aceite, mas... elas recusam com um aceno já quase do lado de fora, impacientes

e provavelmente sentem inveja da abstinência sexual de dois meses pra mais, muito mais, e da quantidade exorbitante de alcóol que tenho ingerido antes durante e após as refeições ...

e falam mal de mim no refeitório quando não possuem o privilégio de almoçarem em minha silente companhia.

o coração de silvia ainda batia acelerado quando um homem com a cara vermelha e dentes que pareciam implante de porcelana lhe ofereceu café pelando num copinho plástico. junto a um sorriso embaideirado e americano. tinha sotaque. simplesmente adoráveis os quarentões americanos e seus óculos enormes que vinham ao brasil duas vezes por ano em encontros obscuros sobre literatura moderna e aprendiam coisas tão inúteis e exóticas quanto o português e liam coisas como Grande Sertão: Veredas.

tinha como marca-livro um papel dobrado escrito com tinta vermelha: "fruto do mundo somos os homens... pequenos girassóis os que mostram a cara".


05 novembro 2010

Frida

estuporou em sua boca
feito ferida de sol
espalhando-se ácida dos lábios pra língua
faringite bola de pus
mas era só
um beijo

do coração ao sexo.
de coração contra o coração

seu véu noturno
teu lunar na testa
tuas vestes
de estrela no infinito espaço
da noite
que é tua

teus seios ondulantes dunas
do deserto e de olhos despertos
seus seus seus
seis mistérios
da besta
cravada em minha carne
a miragem de um
oásis
em contração
de parto

seus risos riscos seus esmos
são como cartas
embaralhadas
que de tão tortas
não valem
nada
e até
a cartomante
lança os dados
no futuro
um buraco escuro
de carpete espesso
no qual limpas
a sola
dos teus medos


nem sei mais se
desejo dormir
ou acordar
na tua pele
tudo se repete

até teu beijo
não arrepia mais
os seios ventam no cabelo não vêm
mais teu gemido rouco na madrugada
rasgar o fino
silêncio
da manhã
imaculada

04 novembro 2010

bar beer boom

aqui até parece que tá muito bom
bebendo vinho ouvindo um som
todo mundo aqui parece especialmente só
quero me divertir
beber passar um pouco além
da conta em mim
um segredo de Gioconda
o seu sorriso
é um escudo-esconderijo
seu sorriso é superficial
quente me derrete até
as pontas dos cabelos pelo chão
da cidade
brilhando as suas novidades
as luzes da cidade vão
me enganar
porque:

aqui até parece que tá bem legal
fumando um etecetera et tal todo mundo aqui
é uma estrela
em eclosão

a cidade brilha
suas novidades
as luzes da cidade vão
me enganar de novo
e eu não vou
dormir porque

o seu sorriso
escudo-esconderijo
me derrete e pinga
pela ponta dos cabelos
da água da
chuva
que
cai...

31 outubro 2010

baile a fantasia

teus medos tocam vagarosamente
minha
pele roçam meus
cabelos sentem
arrepiados
o hálito
da tua boca quente

se ousasse
sugar teus
fluxos
de saliva
minha
língua
bailando
com a tua língua
uma lambada
num beijo

me lamberia
em labaredas
de corpo
inteiro
me entregaria
à fogueira santa
dos teus

pecados

divinos

os sinos os sins
os sinais
que teu corpo
oferece

e recusava
fria


mas hoje

com a mais pura e sincera
alegria

meu ventre vai

te receber

com

ânsias

de filia.


29 outubro 2010

manteiga derretida

derretendo em lágrimas. quanto mais elásticas eram as pernas mais suave iam magricelas como na infância.

inventava felicidades clandestinas. mas desde mocinha a estranhez dos estranhos lhe causava uma espécie de abatimento na boca. o rosto se fechado tomado por timidez ,não sorria. mas não era tímida, ao contrário, sentia-se capaz de tudo.

todas as palmas e todos voos e seus vexames seriam dela e de sua natureza extravagante, não fosse o ressabiamento, uma intuição a respeito do medíocre humano, que lhe permitia parecer normal, quieta, brusca. para ela era como se o mudo a lançasse em cena sem ensaios. e isso era tão enorme que não sabia como dizer nem quando por isso aos poucos foi recolhendo os ombros disfarçando a beleza diminuindo o próprio brilho e inteligência até se fundir aos demais, a massa cinzenta e apaática.


ela seria como uma delicada flor em meio aos espinhosos cactos ressequidos daquela terra seca e avermelhado fosco feito talho de sangue.

seu corpo saudável tomava mostruosa formosura e logo seus cabelos compridos brilhando lustra não passariam incólumes seu corpo morno e ao mesmo tempo receptivo andava selvagem em suas matas virgens e espinhosas, as que só ela conhecia as trilhas.

escolheu prontamente a postura cômoda do esconderijo. embrenhada no mato, não devia satisfação a ninguém. banhando-se nas cascatinhas, nos poções d´ágia roubando manga, goiaba e cachos de bananinha ouro.

mas queria ser feliz, em outros universos, como queria. só não sabia isso que queria o que era. as mãos se fechando em ardores de corpo a se abrir pétala por pétala na ansiedade claustrofóbica de chegar a um gozo muito além dos cinco minutos de sorvete., de fruta lambida, de língua de menino dentro da sua boca.

queria o gozo calmo de estar queita e compreender. mas não podia ser ela mesma, porque ela não compreendia. tinha ânsias por chupar todos os dedos, todos os cigarrostos todas as garrafas as mulheres todos os bombons todos os licores de macho matar a sede de viver como quem procura algo, uma ramo, uma galho de salvação, que há muito já deveria ter crescido dentro.

mesmo que de mentirinha, era divertido se divertir. como quem esquece o assunto porque já se tornou parte dele, suas misérias eram íntimas companheiras, então vivia e era feliz. ás vezes pegava bicho-de-pé, as vezes, cocheira braba...

certezas não tinha. apenas as que vieram desde pequena e foram ficando esfiapadas como os vasos de louça da sua avó, tão lascados. tentando sempre agradar ao pai recebendo com parcimonia o ciúme que disfarçava de proteção. e da mãe, aceitava a loucura. o cheiro de sarro e fumo.

cinco minutos de sorvete. gela a língua arrepia o pescoço escorre no pescoço e então acaba. espumava pela boca pois pretendia se safar pela força de seu espírito, através da perspicácia que lhe ensinaram as agrúrias, a sobreviver às nuvens fofas que não se importam com suas dores. ela no final quaquaraquaquá...e dormiria embaixo do pé de cedro sem se importar com as formigas e vinham beliscar suas bochechas.

sairia ilesa das recorrências da sua vida. mas apesar de ensaiar respostas sagazes a altura de qualquer um, não se saia bem falar com os outros. não adiantava espernear. talvez um dia pudesse abrir a boca sem parecer ridícula, talvez um dia sua beleza fosse tão maior que qualquer maldade e brilharia como a rainha que era, como a rainha da paz.

quem era ela afinal? por que era capaz de tanto e de tanto pudor em seus sonhos e tudo se deteriorava horrivelmente quando a realidade vinha lhe passar a perna, quando a vida vinha lhe cuspir na cara?

na superfície da língua as palavras escorriam quase em pensamento alto a testa franzida demais para uma garotinha de onze anos. andava para lá e para cá por dentro se oprimia como se faltasse fôlego à pálida alegria. fatiga branca, amarelada, fatiga de ser bem mulher, os peitinhos despontavam em caroço dolorido e o corpo enroliçando.

recolhida em seus ombros, entorpecia a mente com livros, um inventices. tremia com batidas fortes de coração quando o touro cobria a vaca e a cadela lhe deixava passarem a língua por vários machos.

por aqueles dias já pretendia cometer um crime. qualquer um. e conhecer homem. abnegou cedo a polpa da fruta mais doce. chupava escondida e só mangas verdes embaixo da mangueira. e espetava os dedos nas rosas só pra ver cravados fundo e esfolados os dedos como os estilhaços da sua vida. e chupava o sangue com gosto e passava horas sozinha, como se não existisse, tão linda, uma margaridinha selvagem que ninguém colhia, porque se escondia nas ramagens ruins.


caiu e quebrou. lembrava muito bem a manhã fria da tragédia. o retrato de vidro caiu da mão da criada. a mãe veio feito ave de rapina pra cima das duas. ela apontou com os olhos pra criada que já esmiuçava um choro desculposo, a voz da mãe estalou feito chicote tamanha era sua fúria.

a foto adornada à vidro, da família toda quando haviam passado férias em praia chiques comendo queijo e batata frita. os pais lhe deram a ela e aos irmãos todo o sorvete que quiriam.

o irmão mais novo era tão lindo seu pai sua mãe bonita seu pai às vezes desaparecia seu irmão tão lindo tão apaixonada por ele sua mãe ainda bonita mas com olhos assustadoramente pretos diferente dos olhos do seu pai que eram verdes e calmos.

o que mais podia se lembrar eram os sapatos de sua mãe, vermelhos em volta como se fosse um animal exalando fumaça pelo hospital os enfermeiros a afastavam mas suas unhas compridas feriam braços, rostos, pescoços. acendia um cigarro berrrava com as enfermeiras parecia louca repetia sempre “seus canalhas desgraçados” um empurra-empurra até que o pai surgiu rindo. todo desabotoado. de barba crescida e um sorriso amanhecido na cara. então tudo parou. tão mole. as pernas moles os rostos derretendo. não sabia bem porque mas continuou sentada as pernas elásticas pulsando até tudo amolecer quentinho quase delicioso o líquido amarelo escorrendo morno dentro o coração acelerado vibrando de prazer mas o rosto tranqüilo quente pelas pernas amarelo morno pingando no chão e depois o tapa.


derretendo em lágrimas.


sua mãe lhe esbofeteou num estrondo desistiu de arranhar os enfermeiros e fez com que todos voltassem seus olhos para a cena principal e sua pequena protagonista: o tapa na cara. depois outro . três, vários no corpo nos braços quando pegou furiosa os sapatos para lhe cravar os saltos na carne o pai então a esmurrou bem no queixo na frente de uma platéia atônita. ta pegou no colo seu cheiro era de perfume doce cigarro todo o corredor do hospital lhe pareceu sombrio a enfermeira veio impropriamente anunciar que o irmão havia falecido. sua mãe desmaiada só uma semana depois soube o que havia acontecido.


sua beleza era estranha. e quanto mais estranha mais legítima e vigorosa. seu pai tão lindo charmoso e violento. sua mãe era a bruxa malvada rica que matou o irmãozinho porque não o levava para o hospital, sua avó dizia. ela se deitava na cama e sofria. sua avó paterna não tinha marido dirigia carro e odiava todo mundo exceto ela. exceto ela que era o amor da sua vida. não queria mais que ela morasse com sua mãe, aquela mulher. aquela cadela. dizia também que ela era uma cadelinha quando brincava de bola na rua escondido com os meninos correndo descalço sujando a testa de terra. por que não o levou para o hospital? por quê? por que não o levou antes para o hospital? vinha a avó puxar seus cabelos louros compridos até dentro do castelo. os meninos da rua não riam, como os da escola.

não. eles ficavam parados acompanhando com os olhos arregalados um deles, um dia, até veio lhe socorrer. trouxe um chiclete de melancia, seu único tesouro, e uma margarida apanhada do próprio jardim da sua avó e ela lhe observou isso, ele corou e teria lhe dado um beijo se. mas ela não pulou a janela aquele dia. jamais pulou. jamais pularia. mesmo depois, muito tempo depois.

também tinha seu tio bonzinho e lindo que lhe acariciava a cabeça dizendo que foi a vontade de deus que levou seu irmãozinho. ele a punha no colo e ela queria sempre sentar em seu colo. sonhava beijos. queria. no colo dele sentia suas pernas quentinhas. não era uma santa.

então depois da mãe vinha deus na listinha negra. e depois os homens. e depois os hospitais e depois o irmão que brigavam tanto que ela

se derretia em lágrimas. em segredo. porque não trocaria mais sua vida pelo quarto de brinquedos como disse uma vez. não deusinho, era mentira. mentira. eu não troco, não troco meu irmão pelo quarto de brinquedos, juro que era mentira! devolve meu irmão, me devolve ele, deusinho, que eu vou ser sempre boa pra sempre boa boazinha. rezava em segredo, rezava quando a casa inteira estava dormindo somente ela sempre acordada a vida inteira acordada como a mãe mais tarde teria olheiras roxinhas delicadas e aquele abatimento da boca que só a deixava mais triste e bonita.



27 outubro 2010

chantilly com morango

aposto que perdeu seus óculos
e vai ficar por todo o domingo
arrastando as pesadas patas
mastodontes
entre a geladeira e o freezer

checando as listas.

aposto que não gosta dos convidados
porque não pode coçar as próprias
costas nem vai conseguir ler um
livro ficará sonsa
quando apagarem a
velinha o fio de cabelo
grudado nas costas coçando ela não vai
comentar com ninguém mas vai escondida
tirar a blusa
e se esfregar
na parede
uivando
um riso.

25 outubro 2010

Loteria da Babilina

a Chave que te abre
fragmento por pedaço cada
melodia cada traço
da tua voz

é um beijo desperto

além do gesto
até nas fantasias em que vinhas
próxima da minha falta de efeito
do meu turbilhão lacrimejante
e estreito

áspero enquanto a política
corre atrás do
ladrão
e o dia não muda nem a paisagem
eu sigo
sem rumo
sem voto me volto para
distrações alternadas
e alterada me faço
vi-ver à multidão
e os turbilhões
das avenidas
peixe-urbano
mergulho
no dióxido
da vida