30 abril 2013

Lacrimosa

o anjo goza
arrumando a franja

arfando as asas
sua porra é
rosa

e embriagante

oh que blasfêmia!
oh, temerosa,
a trombeta dourada
do anjo toca

anunciando seu plêno
prazer que não sendo
efêmero
é um eterno nas alturas,
hosana!


&&&



perguntei à plantaque alquimia santafazia transformar em flor a folha
precipitei-me ao precipício
caí de amores no orifício
central da terra
quente e molhadinho
magnus magma, mamma mia!

e sobre a alquimia
obtive resposta
de uma semente
que seca entrou no ventre
úmido da terra

e a pétala que vira fruta
e a pele que fica bruta
ambas
pelos raios do sol...

quente e molhadinho
magnus magma, mamma mia!
e sobre a alquimia
obtive resposta
de uma semente
que seca entrou no ventre
úmido da terra

e a pétala que vira fruta
e a pele que fica bruta
ambas
pelos raios do sol...

e sobre a alquimia
obtive resposta
de uma semente
que seca entrou no ventre
úmido da terra
e a pétala que vira fruta
e a pele que fica bruta
ambas
pelos raios do sol...

e a pétala que vira fruta
e a pele que fica bruta
ambas
pelos raios do sol...
perguntei à menina
mas há um eterno:



de cabelos longos
quantos santos 
encontros
ele havia tido com deus


respondeu-me que seu deus era ela

um quadro amarelado de aquarela
que o tempo corroeu

quem sou eu? quem é a bela
recostada à janela
esgotando 
sorrisos gastos?



05 março 2013


"só sei que a sua cor está onde o olho esconde
uma espécie de luz de sabre, corta e me abre
em porções iguais de sangue, terra e sais"


"
© Ryan Loewy

Um outro significado para palavra chá


Antes, eu passava os dias varando as noites
antes, eu sabia por onde meus pés iriam caso estivessem bêbados demais para voltarem cambaleantes pra casa...
antes, a cachaça era barata e o trago era bom. 

mas os dias passaram e eu parei por
pura preguiça, ela enguiça a preguiça enche a praça de lisergia
e os meus dias de coloridos letárgicos, esmoreço na mesma velocidade da gota de suor que escorre por suas costas sensuacínicas... 

e quando menos espero deparo-me com minha própria sombra dizendo que esqueci os óculos em cima do banco da moto outra vez e não sei bem
se foi um sonho ou se sempre estive acordado 

e o que chamo vida é sonho 
e o que chamo de sonho é sono atordoado 

viverei em desvario, darei mais um tiro e um trago no chá...

pele


poemas soltos II

amanhece o dia vazio
amanhece na pele feito arrepio]
dentro da barriga uma nuvem negra 
se agita: raios, trovões e calafrios
a pólvora dentro do barriu chia faísca no peito
um chiado fino
o dia vazio é vil e está cheio de solidão
repleto feito um feio Pântano envolto ao lodo, um consolo:
na lama escrevo o nome da dama 
casada, dama desalmada, que me dá seu corpo
e diz que não deve nada...

ela vem sanguinolenta a boca sangra coisas invisíveis
ela vem de dreads vem de carona vem com um brinco de urso e um brilho no dente
ela esteve na mata silente, no seio da selva. bebeu peixes e comeu plantas
comeu da terra santa que a planta do seu pé pisou...

e quando vai meio onda meio cabisbaixa 
quem segura a sua mão, no meio da música, no meio da multidão, em silêncio, em êxtase e meditação, seu quarto diz: metade é fuga, 
outra metade ilusão.

poemas soltos




Qual é o nome do abismo em que resvalam os orgulhosos? 
Qual é o nome do buraco horrível em que se encerram os sonhos?
Qual é a música que embala o mórbido silêncio da tumba?

Quero fogo e chuva! E o leitoso deleite da lua
Quero lançar-me nua para receber meu próprio corpo 
que se descomponha
que se decomponha e, envolto à impermanência da rosa que murcha e renasce em outra rosa, que eu possa 
beijar os doces lábios de Shiva, dançar minha própria 
destruição...


&&&

Não resisto a uns bons olhos molhados 
ao coração que se aquece nessa facilidade toda. 
Não resisto ao seu corpo que treme e assume, 
a essa necessidade de revanche da pele. 
Não resisto a suas mãos que trêmulas conhecem 
os meus caminhos mais íntimos não resisto 
a sua língua, sequer ao cheiro de dentro da sua boca. 
Mas se fico louca, oca, insossa. Não resisto e quebro. 
Te perco, te perdoo e te esqueço, brasa fria, como um monte de sujeira em cima da pia do banheiro.

&&&

Empresta-me o que resta dessas tuas frestas que esqueces abertas
só para que pernilongos passem e venham te chupar, durante toda a noite, ao luar...

Na madrugada, alguém pergunta e não houve nada. Durante o dia, penduro os ponteiros de uma agonia 
asmática e  revejo fotos, roendo as unhas, roendo as horas
uns bons tragos já não me trazem nada...

apenas um pesadelo ou sonho ansiolítico me fazem dormir
ao longo de toda minha vida 
as mulheres bonitas, que jamais terei entre

riscos rabiscos e nada disso! que um elevador mecânico me leve ao cume de um engano cínico e esses seus cabelos cor de ferrugem fustigam-me

escrevo e freio quase esmagando a cabeça do gato
quase esmagando a cabeça no vácuo eu não vi e nem vejo 
o rastro do felino ferido na estrada, e sigo distraído pensando nos vestidos floridos que voam e no perfume de cada flor desabrochada que jamais sentirei...

segundo freud segundo por segundo...
desvio dos abismos mas sempre caio
no desabsurdo de mim...




27 julho 2012

esse mal me envenenou 
sua seringa 
injetada projetou
amor e quando findou meu vestido 
se amofinou
que esse mal ainda
não passou
os amigos perdem a graça
o trem
esfumando a praça
e a festa já estava no fim
quando ele chegou...
me abraça, mas são braços de outros
me esforço, mas o cansaço vem
e tudo convence a parar
pra descansar
nas raízes de uma árvore antiga
que me diga que está tudo
bem

e que mesmo se ele voltasse
gentil me viesse sorrir
não valeria a pena
aquietar-me serena
em seus lábios
em seus cheiros...
já não seria nada além
de um mal de amor...


tarde amena de sol
dorme um anjo
tranquilo
em sua nuvem
passageira

brincam as
ninfas com o vento
em brisas
de caramelo
e menta

borboletas experimentam
o sabor nos néctares
com a ponta dos
dedos finos
dos pés

o vestido gira
florido
o samba sua
devagarinho
na curva sorridente
das suas costas
descem e sobem
insinuadas

uma janela se abre
pro aroma das
flores
seus cílios
captam em silêncio
o burburinho
de asas
de moscas
na cozinha

seu iogurte talha
desde manhã
esquecido
o seu café esfria
o suco perde a vitamina
o pão murcho com a
manteiga derretida

o anjo sacode-se
em tempestade
as borboletas voam aflitas
as ninfas
desapontadas
com a ponta dos pés
saem
de fininho

e o seu vestido molhado
no samba
devagarinho
é o único que
me continua
sorrindo...
a sua carne
arde
entreaberta
a boca 
escarlate
um latido fino
de cão
vadio
seus vícios vis
seus orifícios
seu suor
aflito
nos pelos
apelos ao
pé d'ouvido
e nosso amor
descendo,
teimoso,
escorrido
nas teias
da sua cama
sem lençol...
dentro do seu olho escuro
caminhei sozinho
cuspi em paralelepípedos
atravessei os degraus
de ascensão

zombei de suas luminárias elétricas
da sua mania de perseguição
dos medo ancestrais das trevas,
dos vagabundos, raptores
e prostitutas ébrias
abrigadas em seus bares e porão...

dentro do olho escuro da noite
descobri malícia
um pouco de doçura amanhecida
e nenhum conforto

atroz a noite atropelou
meus sentimentos
com suas ladies que brilham
no escuro com seus
cavalheiros
gentis em demasia
dão-me ansiedade, ódio
e asia
nesta cidade prefiro a grama
ao firmamento...

prefiro correr perigo dentro do olho do cu
das suas ruas e das suas vielas
sem saída...
noite mal agradecida que desejo
com a pressa
de quem espera
um beijo
suave e apodrecido
derretendo-se nas gengivas
como um veneno
que brindamos aos nossos vícios
terrenos,
à lama que brinda nossa pele
e nos purifica, então,
de madrugada,
brotamos uma orquídea
pálida a padecer no luar...
melancolia é teu manto
e despido teu corpo faz
infinitas curvas, noite, noite...
toma meu líquido
e dá-me da tua fonte sóbria de prazeres
deixa-me currar-te,
sorrateira,
noite, o olho da noite
escuro,
sujo,
delicioso...
bebe-me em goles suaves
de adrenalina...
engole o lobo voraz que habita
dentro de mim
dentro da minha
pupila.

Cidade dorme

enquanto a cidade dorme,
desperto à substâncias mais vazias
a paleta de cores
frias diz apenas
aos silêncios mansos
que não
fustigam...
o que os olhos não vêem
devoro com os dedos 
sujos
de maionese

o leito
o leite
a mão
a margarida

o que meu coração não sente
devoro com boca
de gula
e sobeja...

o rio
o riso
a unha
o paraíso

o que os olhos não vêem
é o que mais desejo
sujo
em segredo

a pele
o pelo
o grito
a margarida

o que meu coração não sente
cuspo com a boca
seca
de desprezo...

o fim
o sim
enfim
te esqueço...
pequenas unhas de aço finas
em torno da sua
garganta
dentro e fora
das curvas da sua língua
bolas de ranho foram
engolidas
num riso
estranho

o rosto
afogado
não faz barulhos
os sons são muito altos dentro do crânio ecoam gigantescos
e assustadores sussurros e assoares de narizes...
minha cabeça dói, ela diz
que atrás do olho direito se a luz penetra
diretamente em sua pupila
sente sono
sente sede
sente que fede
cada dia mais
um pouco
pútrida...

tão belo seu rosto, seu olhar...
agora sem fôlego e sem cigarros,
prestes a sucumbir às trevas daquelas ruas sem iluminação pública adequada,
uma rajada de vento sopra a oeste trazendo pressentimentos tão obscuros quanto a vastidão de crateras desta via.

entre silenciosos cães esquálidos da madrugada
sua imagem de
olhos esbugalhados
com o nariz coberto de sangue vivo como hibisco a sorrir para o sol
a tossir e torcer o lencinho
delicado com
suas mãos frias
me fez tremer os lábios
eu, que sequer sei seu nome,
vejo passar tão magnífica vida
dentro desses
olhos enormes
poderia gritar
poderia
mas a profunda beleza
desses girassóis amarelos dentro de você
me cala
a formiga pensa que o universo é infinito
em sua ínfima finura de formiga 
pensa que a fórmica
é a superfície da lua,
que é preciso trabalhar duro
para se ter direito
ao alvo grânulo
de açúcar
lá no alto
de sua pequenez
de formiga...
‎a qualidade da tua pele
ao toque
dos meus arrepios
é a única coisa
que nos distingue
fatalmente

sê tua própria saliva
e a sede da tua emancipação
cubro com a língua
o morno da tua mão
sigo a linha de raciocínio
que usas pra empinar uma pipa
com o meu rosto no céu
a sorrir
de antemão
queria ter tocado teu
ventre como
os anjos dedilham 
arpas

devia saber dos riscos
dos corpos
dos poros que se abrem
aos mais inusitados
desejos

podia ter te beijado a boca
e calado com a minha língua
o que dizias
e eu nem
prestava atenção...

acima de tudo
sabia
que um dia
enroscarias
tua mão a minha
sem
ardor
sem
dor
sem
devoção
fora do beijo o eixo pretendido
múltiplos desejos um soco no queixo
e o sexto duplo sentido
cai, quebra sua cara de pau,
pau pedra tesoura é banal
ouvi dizer que agora sua cultura é
hipster
mandei fazer bandeira para quem não pode ser
manuel
tossir na escarradeira a escada traiçoeira
tropeço e meço o sexo do
manuel

acordo de fogo em plena festa de sexta-feira
foco o cabra no banheiro derramando seu xixi derradeiro
o pó, o pé, forró, for all.
forró for all night long baby...
cinco minutos desse silêncio valem mais que a imensidão
esses caras são do veneno
não conhecem a ingratidão
borraram o chão do mundo com seus passos descalços
escorregam na escadaria
tropeçam no mundo
quebram em um segundo
ossos de vidro
nossos ouvidos
se rompem em múltiplos desejos
nessa silenciosa imensidão...

Vaníla



o beijo escondido em cada boca
o sorriso de cor invisível 
das palavras que

o medo profundo de mergulhar
em um timbre imperceptível aos olhos
de ir tão longe e tão distante das tristes tentativas de reter os raios de sol no telhado
ou qualquer conversa
esconde

as primeiras verdades, primaveras.

chover cada vez que a chuva passa por mim
rezar quando a mais simples e pura gentileza me parecer divina e
correr com os lobos selvagens das montanhas
quando a lua enfim convocar sua filha

11 julho 2012

Mas e ae, cara, como que cê tá?
Ah, porra, sei lá...
Sei. Gerundiando. 
Isso mesmo. Estudando, trampando. Fazendo os corres da vida. E você?
Eu to enlouquecendo. Ontem mesmo, vi um extra-terrestre. 
Cê tá de sacanagem?
Claro que tô. Mas a pira de enlouquecer é verdadeira. Tipo, medo de sair de casa. Já teve? Então, esse lance de olhar as pessoas me olhando, eu saio a tarde e tomo um suco de laranja. Pra não enlouquecer. Mas eu faço isso porque já estou louco. Tomo o suco e sumo, vou pra casa, ler. Mas ao mesmo tempo sinto falta de alguém.
Sei. 
Sinto falta de mim mesmo. 
E a aquela guria que tu catava?
O lance do extraterrestre, é sério. Nós dois vimos. Tamo junto ainda, por incrível que pareça. 
Ela é gata.
Ela é gata.

Bom, eu vou almoçar. Vai ficar por aí?
Opa, claro que não. Vamos. 

E esse lance dos ETs muararáaa...
Tu ri mas é serião. A Maíra tava saindo do banho...
Do banho? Puta, ela é gata.
Ela é gata.

Mas conta, porra!
Ah, então. Eu tinha saído pra comprar nossa larica vespertina e deixei as chaves na mesa da cozinha, veja bem, na mesa da cozinha, não tranquei porque a gente não tem essas nóias. Só fechei o cadeado. Quando voltei, o portão estava trancado, normal. Mas a chave estava na fechadura e achei estranho porque a Maíra ainda estava no banho, acontece que ela me viu ficar o tempo todo no quarto, até conversou comigo, de dentro do box, o problema, meu amigo, é que fui comprar cigarros, pão, café e queijo. E eu tenho certeza de que estava na padaria e ela tem certeza de que eu estava no quarto, falando com ela enquanto tomava banho. E quando entrei pela porta totalmente estranhando o fato da chave estar na fechadura ela achou que eu tinha saído apenas pra beber um copo d'água. 
Sinistro. 
O mais sinistro é que nenhum dos dois se deu conta disso. Até a hora do jantar.

Boa tarde. 
Boa tarde. Eu quero um executivo, peixe ao invés de bife e água mineral. 
E você senhor?
Um uísque. 
Uísque, velinho?
Sei lá, essa estória me deixou nervoso. 
Me conta, o que rolou na hora da janta?
Bom, comemos nossa larica, jogamos no pc até umas oito da noite, aí ela teve que escrever as piras dela do mestrado no computador, eu continuei jogando. A gente resolveu a noitinha ver um filme, então, eu fui preparar um rango. E ela uma sobremesa e um suco. Aí a porra do lixinho estava cheia e tive que descer pra levar o lixo, coisa que devia ter feito a tarde, mas e a preguiça? Sem contar que eu esqueço e a Maíra fica puta, você sabe como são as mulheres, elas sempre...
Cara, e aí?
Meu, aí eu vi a coisa mais assustadora da minha vida.

Seu uísque, senhor.
Muito obrigado. Um executivo pra mim também, por favor. E uma coca.
Cara, eu desci com as sacolas de lixo pela escada porque, pra variar, nosso elevador estava ocupado. Estava escuro, mas senti alguma coisa passar muito rápido por mim, um vulto. A luz do maldito sensor finalmente acendeu. Não tinha nada. Caralho, eu me caguei de medo. Senti aquele maldito vulto gelado num arrepio ruim percorrendo minha espinha, corri como um pato que levou um tiro no rabo com aquelas sacolas de lixo nas mãos e quando finalmente saí do prédio e olhei pra nossa sacada quase desmaiei de cagaço.
Porra, cara, que porra é essa?
Eu vi, meu amigo, eu vi...Uma sombra gigantesca flutuando no escuro, olhando dentro do meu apartamento e a Maíra sozinha lá. Voltei correndo, subi aquelas escadas nem me lembro como e ela estava apavorada quando cheguei. Disse que sentiu um vento frio sinistro vindo da sacada e quando foi fechar a porta, aí notou que uma enorme cabeça olhava pra ela, uns olhos malignos, ela dizia, um olhar satânico. Ela achou que fossem os medicamentos. Ficou mal, coitada. Está em choque.
E você?
Como pode saber que era um ET?
Era um extraterrestre porque desapareceu numa espécie de explosão surda. Eu vi uma luz se movendo muito rápido. Eu diria que ele se teletransportou.
O que um maldito ET iria querer contigo?
Não sei. Mas você checou os registros da nossa empresa?
Não, o que tem eles?
Você não sabe em que tipo de merda a gente se meteu, não é?
Do que você tá falando a gente vende ar condicionado...
Isso é fachada, bobagem, mentira. Não é possível que não tenha percebido. Olha, cara, esses caras estão construindo ogivas clandestinas. Provavelmente estão envolvidos com terrorismo, andei investigando. Entrei na sala secreta deles...
Você enlouqueceu.
Puxa, esquece. Deixa isso pra lá, essa conversa nunca aconteceu. Ok?
Você está preso.

03 junho 2012

Da Avareza

Se não te posso comprar
oh, donzela,
teus tão sonhados vestidos
ou mesmo
este formoso par de brincos
que com olhos de gula cobiças
peço que sejas honesta
e te contentes
com meus
braços fortes
com os meus

sinceros
sorrisos...

tome este anel
aceite o meu pedido
é de ouro folhado
que tomei emprestado
de um grande amigo
para vir
de joelhos
dizer que me sinto
tocado e ungido ao
mirar teus olhos
compridos

peço que tua alma
se aqueça com meus esmeros
posto que peles, jóias e terrenos

são desejos de mulheres frívolas...
ao meu lado nada te faltará, terás,
minha dama,
tudo que te for necessário:
um terço e um escapulário
para que tuas preces
traga-te comida e vestes
quando eu não as puder
comprar...
bem sabes que toda a minha riqueza
logo se findaria se tolo
me pusesse condoído
pelas lamúrias de compra
de um rostinho
bonito...

Da Ira

A quem o fogo da fúria queima?
o corpo que magoado treme
a boca que ressentida espreme
um beijo
áspero
entre lábios
comprimidos

da garganta escorre
ácido,
ardido e letal veneno
mata aos poucos
repousa no estômago
fervilhando revanches
ressecando as mucosas dos olhos

e num tremor de arrependimento
sopram frias cinzas espalhando-se
desvanecidas
pelo montículo de sentimento
pelas chagas
pelos móveis quebrados
pelos cacos de vida
pelo homem que se vai
cabisbaixo
levando seus pecados consigo...

08 abril 2012

o grito

não faça ruídos talvez a sua respiração incomode também.
não faça movimentos brutos não soe tão
arrogante...


todos se pareciam
até fetos de matéria orgânica
sorriam falso afeto
afetadamente até
o que era realmente inacreditável
soava como a alegria contagiante que se podia sentir no suor do salão no calor humano espalhando-se
claustrofobicamente...

o que seria mesmo incrível era o dia seguinte, sem expectativas de melhora.
sem um futuro nítido que nos dissesse "é por aqui que serás feliz, filho". mas mesmo assim, insistia como se o seu papel fosse aquele.
"toma teu cajado e tua túnica e segue pelo deserto do real até que encontres, Diógenes, um homem de verdade
em verdade
calado no fundo do seu coração, a respiração apertada talvez incomode,
mas eu existo.
e faço-me merecedor
do direito
ao grito.

04 março 2012

Cemitério dos poetas

durante uma visita à lápide solene
da poesia, estarrecido, fitei-a esmorecida
como um pinto que murchou durante a transa...

e diante dos olhos moucos dos senhores filósofos
e da alta cúpula da psicologia
todas as meninas escarravam nos barrancos da epistemologia.

Dentro do caixão
encontrei um pedaço de papel de pão
rabiscado com uns versinhos sobre o último homem que amou
uma prostituta.
Sobre a primeira-dama bebendo seu café gelado em uma tarde quente
de paris, enquanto seus lábios de verniz
degustavam finíssimo cigarro.

No outro verso do papel, uma história de amor entre um bardo
e uma rapariga das montanhas.

A moça, mui bela e prometida em casamento,
foi certa feita banhar-se nua no rio e ao vento.
Ao que a viu, divina beleza, um bardo andarilho lhe saudou a boa saúde com singelos versos musicais.
A rapariga cuja cona formigava bolhinhas de desejo,
largou-se logo a um beijo e se enamoraram.
Assim que despejou em seus doces lábios o seu jato viril, partiu o bardo para a...

Deixando a moça com saudades, despediu-se
seco, sem amenidades ou versinhos de adeus.

Aos seus, disse a donzela que se esquecera da hora, porém,
a toda aurora buscava seu corpo nu o rio do vilarejo
para que, quem sabe, alguém passasse em sua vida
e lhe deixasse um inesquecível beijo.
Mas se quisesse de fato partir de sua pequena armadilha,
teria que com suas próprias asas feridas,
de cotidiano e medo,
voar para longe dali.

Por fim, vestida com a mortalha púrpura da poesia em sua jazida de aristocrata falido.
Um poema que não é lido, é um poema que jamais nasceu.

E sua vida toda esperou o poema, qual donzela ingênua,
que lhe penetrassem olhos curiosos,
mal sabia a poesia que, hoje em dia,
as mídias frias sugam todas as energias
e aos homens só interessam as coisas fáceis
-e as leituras digestivas.

Sua poesia antiga, em reversos e enigmas, nada diz aos rapazes que já nasceram numa astronave.

Depositei, pois, uma flor solete na lápide da poesia.
Sua jornada é finda, mas tudo que morre se dissemina no vento
e contamina a luz solar que respiramos;

lembro-me do epitáfio que dizia: "saúdo-te, oh espírito divino da poesia, que mesmo ido terá pelos loucos sua nobre memória exaltada".

Na grama onde cresceram pequenas flores crespas
a poesia me lembra que o amor está em toda parte
e à parte de honrarias da sociedade.
pode ser baixa, vulgar e sublime -mas
jamais motivo de vexa.

O amor não se curvará diante do seu argumento mesquinho.
O amor, apesar de afirmares o contrário, não abaixará seus olhos tampouco se curvará diante do seu desejo pequeno.

Se fui eu quem sofri primeiro, você sofrerá mais e -por inteiro -
amargará sua paga em solidão reflexiva.

E nós passaremos como formigas por toda essa existência vasta
de matéria escura. Mas o amor,
que não se curva, nasceu em mim e
jaz, em ti, letra morta.

25 novembro 2011

duas suecas compraram esta casa. antes, ela ia ser demolida, então trouxeram cervejas artesanais de viena, reformaram o imóvel e vendem aí. pães recheados com salsichão e cervejas -estão casadas há dose anos. dizem que adotam cães pulguentos de rua. a esta hora o leiteiro sempre passa, garrafas frescas. bebem muito leite, muito. e as crianças, de olhos azuis. o cabelo parece até transparente de tão louro. gente aguada, isso sim. dizem que a casa continua infestada de rato e umidade, mas elas moram aí, assim mesmo. e servem salsichas!
vocabulário, de guardar voz. escapulário, de guardar fugas. colecionava no caderno figurinhas de grandes obras da engenharia humana. você acredita que do outro lado do mundo...? existe o outro lado do mundo? prédios tão altos, eles relam no céu, chegam até na estrela. assim? é, alto assim, ó...e os meninos de braços abertos, imitando aviaõzinho, correm pela rua de terra. mais ali a frente, a menina de pintas na cara. Onça pintada, onça pintada! e ela ameaça, corre atrás deles com seu vestido amarelo e os cabelos atrás, voando vermelho-ferrugem.

24 novembro 2011

Ali está ele imóvel e silente... com a graça discreta do seu natural nu, no rio, ou dormindo de voar na rede, passeando pela selva, sugando a seiva das frutas. pescando o brilho d´água do peixe. arranhando filetes mordiscando carne, bebendo sangue fresco -em sua língua áspera. espera. espreita os olhinhos... o pardal bicando milho, descuidado. o gato felino, com pena, cabeça e o bico mastiga seu corpo todo, magrinho. gato só aprende a voar, se comer passarinho.

12 novembro 2011

e agora...que engoliu tua maçã
sem ler sem
sequer ler o que lhe garanto...
nem se morresse
nem se vivesse phoderia
adivinhar
que o gozo é o avesso do silêncio (todavia assaz fugaz),
ignoto e jamais

jamais triste.

sei segredos ninfomaquinoselvagens
por exemplo
o ka(r)ma sutra
foi escrito com letras d´água
por feiticeiras ígneas

como um dia
de
Björk Guðmundsdóttir
dançando no Escuro, eu poderia
eu phoderia...
até agora...que engoliu tua maçã e não leu
sequer a ex-tória que lhe garanto...
minha vida
tem seus
enigmas

14 agosto 2011

Inacab

oh! distraído e manso
podias ser descanso, mas foste sábados
e como bem sabes
tudo o que é meu:

as mãos...
e a voz
tremeluzida


Eu sei, eu sei... estamos
vivos pra morrer
nossa pele esticada no tempo em que a beleza
era uma rainha
de roupas finas e hoje usurpa
nas ruas
o arquinimigo
mas
contigo
não correria perigo
sairíamos sãos
e salvos e vivos
desta doida
microgaláxia de
pensamentos

tua sábia boca
não ignoraria
nada
deste longo intervalo
entre pernilongos e as tuas pernas
que lambo
no imaginário
ladrilho branco
de uma cozinha
com cactus
na bancada

e como sabes
tudo que é meu
gestou-se no útero da noite
no ventre da Mãe madrugada
tua filha
de pálpebras finas
tão adocicadas
dança
e ri qualquer riso
brilha feito outro
nas tuas mãos

poderia
ser domingo ensolarado


mas fostes sábado
e
querias doida
me encontrar
nos desencontros
de um bar,
na esquina
na boca
num canudinho
refrigerantes
idéias a girar
entre o copo de cerveja
e um curso de fotografia
inacab...


teu corpo
insaciável e insone
devorando lento
mais uma noite
sem dormir e
sem sonhar

e
se por acaso
quiseres ser meu
ocaso
eterno
a ocasião
é esta