26 junho 2013

Tira esta blusa xadrez e esta bermuda esquisita
Esta barba que não conquista
Tira esse brilho molhado dos olhos
E este tom azedo de azul
Tira o suor viscoso da tua mão e os lábios que tanto quis mastigar...
Tira, e coloca em outro lugar!

Do teu corpo só me interessa o que é nu
Da carne o cru
Da alma o vazio deste teu espírito carniceiro 
sempre à espreita. espera estreita.
Retira de ti tudo que me não mais me agrada e não sobrará ninguém.

Abril chuvoso

Janeiro já passou
o nome do meu travesseiro
é pesadelo
nele agora me deito
com um lápis
a rabiscar verdades meias e mentiras inteiras

Jason
Freddy Krueger
Chuck
It
Hellraiser
Blair Witch
aracnofobia
exorcista e
enchente, quem salvará nossos filhos?

quem salvará os filhos que nunca tive?
quem salivará diante dos meus sanduíches?

meu travesseiro disse
que meus sonhos medonhos
são quadros tristonhos
da vida real

Janeiro passou e deixou seu cheiro
de desespero
e meu pesadelo diz
que não se pode ser feliz na sombra
da tristeza alheia

disse que o mal incomoda mas
que o bem machuca
a verdade nua e crua
é que você pensa que soma, mas tira
você pensa que falta,
mas sobra
você pensa que volta,
mas ia...



&&&

Tira esta blusa xadrez e esta bermuda esquisita
Esta barba que não conquista
Tira esse brilho molhado dos olhos
E este tom azedo de azul
Tira o suor viscoso da tua mão e os lábios que tanto quis mastigar...
Tira, e coloca em outro lugar!

Do teu corpo só me interessa o que é nu
Da carne o cru
Da alma o vazio deste teu espírito carniceiro 
sempre à espreita. espera estreita.
Retira de ti tudo que me não mais me agrada e não sobrará ninguém.
se fosses só anjo
angelical insosso
não seria tão osso
te esquecer

se não fosses fossa
se não fosse a nossa
eterna solidão 
platônica

teria indiferença
crônica
e desdém
encarnado

ou se fosses só demônio
satã de olhos longos
andróginos e reptilíneos
repudiar-te-ia

mas como és anjo
nos olhos
e satânico
na malícia
da boca
que loucura
que delícia é
amar contigo...

Pavana para uma infanta defunta



esquálida orquídea 
nasceu do estrume
das tuas feridas

frágil pétala
murcha e esquecida
nas página de um livro
velho, sem capa,
sem redondilhas

mãos serenas,
vestido vermelho sangue,
rodopia a pequena
no baile macabro e exangue
de máscaras melancólicas e
incensos

o abutre
alvitra
te cuida...
te cuida...
da tua carne tenra comerei
a mim e aos vermes
terás ainda de agradecer
pois este pequeno invólucro que cai
é a nutrição que nos levanta
e nós te faremos santa
na finitude do teu
ser

levanta-te
pois
e dança!
dança, pequena,
de mãozinhas dadas
com o anjo negro ca túnica
o teu vestido vermelho
brilha

que toda noite é a última

que todo dia é dia de morrer...

25 junho 2013

Poema pra quem ama e não devia


você corre
escorre
pensa, pesa e passa

enquanto procura
olhos alheios
os meus marejam
naufragam
e finalmente são engolidos

como Mestre Jonas
pelo mostro verde-marinho 
de dentro do seu olhar
e seus cílios compridos

quando me busca nunca estou
quando me encontra já não sou

e finalmente quando suas correntes, 
grilhão dos meus passos indolentes,
arrebentam num grito surdo

nossos dedos quase se tocam,
como Deus e o homem na Capela Sistina,
e posso respirar
o ar que sai
da boca
do cais...

20 junho 2013

minuto

os minutos
são diminutos
sessenta vezes sessenta segundos
obsessivo-transtornados

basta
este minuto
acordado
e me sinto
mais atordoado
que em sete semanas
sem dormir

sete virgens do rosário
rogando
praga
os minutos são pequenos vermes
roendo a irrealidade,
o sonho de Brahma e não,
não é a número
Um

Os minutos me fazem falta
os sete minutos que sufocaram um gato
um minuto para cada vida
minutos passam
atrevidos
nas pernas finas
do
ponteiro

meios minutos
que valem
por um
inteiro
a
toda hora
fragmentado
esquálido
no risco
do
relógio
vejo
o minuto move
montanhas

tempo, mano véi

o tempo está passando e os detalhes talhados em sua face
revelavam aflição
mesmo que todo filho seja único como um sábado na cidade
você sabe
que não é bem assim

o temo está passando e você a esperar por um tempo que não passe
quem sabe
dentro do caixão

quem sabe dormir não seja a metáfora de sonhar
e morrer e adoecer e padecer de amores sórdidos
não seja o que se espera passar
o tempo
das feridas secarem
para que novos vômitos de pus cutâneos ou cerebrais
nos acometam
no turbilhão

perfeito de defeitos 
meu peito
de repente poderia estourar
de tanta indiferença
as vozes
protestam só
dentro da minha cabeça

em meu quarto, sozinho,
rumino a última bagana
o último gole de uísque
a última chance e
o último minuto triste
como Romeu diante do cadáver de Julieta

04 junho 2013

antes tarde do que nuca. 
a parte que nunca usa
que sua 
que se esquece que se sabe
que se dane

que atrase, mil vezes vaze e espalhe 

em boca fechada não entra moça...

minha água mole em pedra dura
tanto arde até que com ferro será ferida, ou será margarida?
amarga vida ou simplesmente
amor?


&&&



Diário de Bordo

a virada cultural
veio e pegou no meu 
mal
não foi ruim
só não foi legal

bebi cerveja Lokal
ouvi violão genuíno
vindo dos cafundós
de corações
vadios

li Bhagavad Gita
quem não pensa
não grita

e cheio de tédio e cultura
mostrei aos outros
a armadura
de açúcar
a me proteger de agulhas
sarcásticas,
do tricô, do fuxico
e das verdades
ácidas
acerca dessa nossa vida
de pasto
medíocre
em que
comida é rápida
bebida é álcool
e a noite
é sempre trevas em demasia
para se fazer algo
realmente
digno

digo e esqueço
sinto e é
frio
se subo, se desço
o nível
mental
é mesmo assim
um crime e o castigo:
um cansaço
de mim
sem começo
nem fim
Foda-se o seu sobrenome
meu olho brilha bem mais
que seus diamantes

Foda-se seu carro 
Seu dinheiro
As cabeças que você pisou
ou seu pai, ou seu avô
por inteiro

Foda-se a sua cultura racista
Seu corpo escultural
e suas viagens paradisíacas

O meu universo é infinito
meus livros, meus amigos
e meu mundo
expande mais de
olhos fechados

Fodam-se os drinks que só você já provou
seus passeios em Amsterdã
suas fotos
editadas
no instangram
foda-se
sua merda fede
e vem da boca
ela soca
minha barriga oca

ainda não almocei
e vem você
com seu caviar e salmão
estragar meu prato
de arroz de feijão?

ainda não acordei e vem você
com seus sonhos prontos
embalados a vacuo
pagos no débito
descontados dos honorários
dos assalariados escravos
do seu Pai?

Ah vá tomar no meio do seu copo
que tem haste de ouro.
enquanto meu olhos
brilharem mais que
seus diamantes
serei sempre o mesmo rico
ou o mesmo
pobre de antes 
A curva mais bonita
da sua boca
A linha de raciocínio
sem saída

A vida dividida
metade ardil
meta de dívida

A parte do seu corpo
que me parte
me aparta de uma má sorte
e me opõe

em locais insalubres
eu vejo sua silhueta
dançando nua como uma gota
a se perder
na chuva
como um prece profana
ao silêncio brando
do esquecimento

Brandy ou licor
suas mãos me prendem
na própria curva
da minha cintura
e um leve tremor
em meus lábios
denuncia-me

Sinto os olhos secos
na boca um beijo pútrido,
espumante,
de cão hidrofóbico
morrendo de amor
e de ciúmes
de uma indiferente
donna mia
cada um faz muito seu pouco
e todos têm razão

afasto de mim o teu cálice
empalideço e padeço pedaço por pedaço
derreto
em outras bocas

enquanto "you want somebody to love"
eu já voltei com o bolo, as velinhas 
me divorciei três vezes e agora estou viúva

com um véu negro, nebuloso e esplêndido em meus cabelos
a cobrir o dia de chuva
raios que saem dos dedos
e trovões que povoam os gestos imanifestos
de uns lábios que tremem

olhos que molham fácil
em uma merda de tarde que não passa nem passarinho e nem que seja de graça
na praça
na desgraça
na cachaça
no fim da rua sem saída a Dor uiva de alegria
ela se faz de louca, de eufórica
ela se pensa metáfora de algo maior
ela se diz mártir dos reflexivos, mas,
(acordada)
e em verdade vos digo:

perder ou ganhar é só questão de tempo
e o perigo
é o mesmo

Querido Apego

Querido apego, só de tu tenho medo
o que se faz, se paga e se apaga se me pego
abstraída no devaneio do abraço
o apreço me talha 
em frestas mínimas sem portas de saída
e sem portas de entrada

Não te faças de sonsa nem te assustes 
caso meus gestos brutos
te calem o canto
e teus embustes
não te façam mais santa

saibas que ainda és
linda
lenda viva de minhas veias que saltam
ao mais sutil toque de tua
psiquê
à volúpia dos teus dedos que se encaixam
em minhas coxas
e engolir-te ainda seria pouco
para minha boca

Do bamba

Da Cartola do samba
saíram dois bambas e um dia e meio
de sol 

O teu tom de boas moraes, meu jovem jobim,
não se aplica a mim
sou mais velho, mais santo e mais pato
que qualquer um aqui
olha o bico
da marica
olha o olho gordo que te enguiça
e verás
o fundo de tua própria retina

Estou indo buscar-te, oh francisco
e, a parte teus olhos verdesazulados,
amo tuas mulheres, como se fossem minhas
e me és como um fardo quando falas manso
de inteligências

Sigo cantando, gal e gaetaniando. um gil, um giz e por um triz,
sim, todo tom tem o seu bom Zé
evoé,
jovens!

mas me parece apenas que
choverá cactus coloridos
na terra

De repente 30

de repente 30 e virei fiiósofa
minhas garras cresceram e agora arranham muito mais
precisamente
de repente 30 e virei poesia
minha pele meu riso iluminam o dia e além disso meu sabonete
é de bombom...

de repente 30 e meus olhos querem disfarçar o quê quando riem
à toa e para quem interessar possa?

Por que a sutura do teu braço não me corta
e as planícies mortas me levam por tortuosas trilhas?

Para vida 30 não é nada. Mas para nós, pequenas formigas, é mais que muita criança morta por desnutrição.
É mais que suficiente para se sofrer um acidente, para ver padecer a ética, até
para se ser pai de gêmeos

para se casar e descasar e vagar perdido por bares a procura desses risos que querem disfarçar o quê?

30 e agora, adulta. Mas a criança de dentro grita
e sua voz
arguta diz que é hora
de brincar

15 maio 2013

Do cansaço

incrível como caço e acho
o que não preciso
quando o ninho
está desfeito
quando o que faço
se perde entre o
meio
e o 
início
incrível como os lábios rachados
suportaram saliva em excesso
e a língua inquieta

e o sono que vem sempre
cedo ou tarde demais
incrível como todos
exceto
ele
ficaram sem graça,
sem uma cor definida
e
a festa
inclusive
prestes a acabar
a
sua cerveja
jaz quente
e
sente
uma pressão lateral
daquela ideia
idiota
de que a noite valeria de fato
alguma coisa
e de que a vida passaria deliciosa e
lentamente
como uma língua sagaz
entre os
dentes

de que afinal seu copo
plástico
esperaria por você
a noite toda
seus amigos
lhe dariam
carona e você
dormiria no banco de trás
e desceria
no ponto
em frente à sua casa

e
que seu teco
duraria a noite
inteira
de que havia,
inclusive,
mais grana na sua carteira
e até um inteira
pro gás
do
corre

08 maio 2013

Contos de fardas

Estupro de baioneta, é invasão de privacidade?



Poema Verdadeiro



Sinto muito se lhe abandonei
sem terminar o que começamos.
Acreditei em suas ilusões
e fui viver a vida sem ti.
Então, depois de tempos,
percebi que havia lhe deixado pela metade,
e eu mesmo, precisava de você comigo naquele instante,
ponta.


de Lucas Nunes

Poesia crônica V

Arrisco um risco
nas costas
desse gato arisco

nós que ousamos
sentir saudade
mandar mensagem
e fazer planos

sujeitos estamos
às negras nuvens da indiferença
que molhem que olhem
por seus filhos estúpidos...

arriscar uma carícia neste gato arisco
que te acompanha
pelo petisco
mas que não te deixa
brecha para afagos
humanos
tão desnecessários e estranhos
afagos de carência e fé
o gato desvia-se felpudo e esguio
do dedo invasivo
dos carinhos que só a um cão
interessariam...

A vida por um instante

a vida não vai 
a lugar 
algum sem você
a vida é uma via de mão única
que
leva 
à morte. 

o caminho
por vezes tem mel
por vezes
mesquinho
por vezes cruel
por vezes
fascínio
e vai
invariavelmente
à pulverização de nossas carcaças
exageradamente apegadas a bens sentimentais de toda sorte

a vida é clara como a luz dos olhos meus
na luz dos olhos
teus

lembro-me de vidas que não vivi.
todas cabem em uma única ferida cinza
no centro do âmago

lembro-me do ladrilho, do cheiro de calma
no macio das toalhas 

do varal
do arroz cozido
do frango, do gato, do periquito

o cheiro das rúculas quando nascem
o cheiro amarelo das margaridas
quando estão
apaixonadas...

E tanto lembrar
não vale nada
quando a cabeça bate na calçada
e apaga
onde, onde estava
a lembrança
daquele cadáver?


&&&


por um instante se perde a chance,
o lápis, o táxi, o trem.

sempre em um instante antes
você tinha,
agora não tem

sem aviso, ordinário e
banal
o instante fatal
pode ser qualquer a
qualquer
momento...
1

Outono

o monge
mora lá longe
não vão rolar
pedras
em sua ribanceira
não vai rolar nem
colar lá

já o índio
mora pertinho
a gente chega
de
canoa
e fica de
boa
na lagoa

o outro
(amigo)
mora aqui dentro
ele dá socos
e perdidos
na consciência

chuta empurra, arrebenta
os fios invisíveis
de um neurônio
ao outro



&&&


copos dispostos em oposto
boca.olho.olho.boca
pernas aflitas
dedos seguram
o imaginário

dentes arreganhados
suor ácido na
virilha

assim
nós humanos
nos preparamos
para treparmos


&&&

dois pacotes sórdidos
sortidos, de edição limitada

dois alvéolos feridos
de tanto pó e cigarro

dois bicos calados
não se beijam

uma promoção de feriado:
"venha visitar
meu estado
alterado
de humor"

venha corroer as tardes
corrosivas
unhas que se aparam em alicates
de cutículas

moscas que anunciam
que o lixo deveria ser trocado
mas prefere chutar suas garrafas, suas embalagens vazias e colar os sapatos na cerveja 

derramada há dias

o que resta de toda noitada
a sujeira toda
a prova cabal de que
é boa a vida
e deixa rastros

rastros que serão moídos e devorados
na deterioração magnífica
do tempo


&&&

nosso. sexo. que não se sa tis faz
depois que acaba, 
quer mais.

&&&

acabou o conhaque
o amor e a amizade

acabou o maço de cigarros
a água da pia, a comida 
e o sabão de barra

acabaram os créditos
os cremes e
os doze trabalhos

acabou o respeito
o tráfego 

o beijo

acabaram os horários
os pacotes de bolacha
e os papéis não rabiscados

acabou a sensação cinza,
o ciúme e a raiva

acabou...

só restaram os bonus da tim e da claro
para os números que
não vou mais ligar...


&&&

A esquisita dos esquisitos
a dama dos 
perseguidos

a esquina dos bandidos
não era Geni nem gemido
era só como alguém que passou
por aqui
que esqueceu as chaves
no banheiro

alguém que espera
com mãos sujas
de terra
a chuva
aguar as hortelãs

ou ela em uma tentativa vã
de acender meus fósforos
úmidos


&&&

Caiu do prédio
e dizem 
que escorregou
no tédio
da tarde
às 16h20...


&&&

tão belo rosto
agora sem fôlego e sem cigarros,
prestes a sucumbir às trevas daquelas ruas sem iluminação pública adequada,
uma rajada de vento sopra a oeste trazendo pressentimentos tão obscuros quanto a vastidão de buracos da avenida da saudade

entre silenciosos cães esquálidos 

na madrugada,
tua imagem de
olhos esbugalhados

brilhando pro nada,
com o nariz coberto de sangue como hibiscos selvagesn

a sorrirem para o sol,
a tossir e torcer o lencinho
delicado com
mãos suando frio,
fez-me tremer os lábios
eu, que sequer sei
teu nome,
vejo-te passar tão magnífica vida
dentro de negros
olhos
enormes

poderia ter gritado por ajuda
poderia te acudir
mas a profunda beleza
desses girassóis amarelos dentro de você
me cala


&&&

Outono


devias conhecer os perigos
dos poros dilatados e
de mamilos que se arrepiam
aos mais inusitados
toques das plantas dos pés
ao pisar galhos e folhas
secas 
que fazem 
creck


&&&

Agora no deserto
de certo
um calango
um rato ou
uma cascavel
passeiam
com fome e sede
a céu
aberto.