09 maio 2016

a vida
é um cisco
um ciso
é macia
às quatro horas da tarde
e fria
às quatro da madrugada
são minhas
essas sandálias aí no quarto
guardo recordações
como quem pede desculpas
são íntimidas
as tentativas de sorrir por dentro
por enquanto, aguento
mas haverá momento
em que a lua, uivar só
ou murmurar pragas
não farão diferença
neste sacro instante
quero ser só
quero ser

de diamante



04 dezembro 2015

noite insone


já que o sono some
na velocidade do seu nome

estou aqui lendo as entrelinhas dos seus supostos olhos
famintos,
infinitos...

olhos verdes, olhos negros
que nada poderia ser mais amor que este resto amargo
de licor
que sai da sua carne

não durmo
não duro muito tempo em pé
pensando em um hipotético você

recostado atrás do meu
cigarro
as dúvidas são as únicas que resistem
com as pálpebras arregaladas
observando o Nada
absurdo da madrugada

mais um cigarro na sacada
e volto enfim a cair
em minha própria emboscada

06 novembro 2015

ainda sou o que perdi

meu tempo, 
meus óculos,
meus horários
amizades,
os cartões do banco
o lugar da fila
o telefone
daquele moço...
tal qual carrara que se esculpe
retirando-se o excesso
cai de mim todo um bloco de desculpas esfarrapadas
desabam
sacolas de pão e frutas
rolam pela rua
enquanto fico me perguntando
se realmente
o moço da padaria
me deu
o troco
errado...

Tânia e o espelho

Tânia mira o espelho
espreita os olhos
passa lápis de cor preta
em volta dos cílios
uma massa de rímel
deixa seus lábios mais vermelhos
e as bochechas coradas, batom, blush
é uma sombra com brilho...
Tânia disfarça as espinhas
com pós e máscaras
e quando está quase perfeita:
Tânia deita de porre (na cama)
e dorme.
E o espelho fica sem entender nada.

conto erótico #1


Sandra andava muito ocupada com as crianças e há alguns dias não penteava mesmo os cabelos e os seus pelos cresciam em seu corpo lenta e livremente, de fato. Passou a mão em seu queixo e o sentiu sujo de papinha de neném seca, desceu seus dedos pelo pescoço, de olhos fechados, o calor da sala misturado à bagunça da casa fez suas pernas ferverem, apertou com força os próprios seios túrgidos de leite, ainda, enfiou dois dedos desvencilhando-se do vestido do pano úmido da calcinha. O bebê chorava baixinho de fome no berço, enquanto ela termina, arrumou os cabelos, lavou o rosto. Olhou-se no espelho e sorriu, calma, com uma tranquilidade mansa e um amor por sua vida inconfundíveis.

Planos para o fim do mundo


amor io-iô
dedo dentro do maiô amarelo
que a onda do mar
salgue leve
o sal da pele
salte e espere cheiro de água de peixe
cheio de água de coco na boca
balanço de rede
debaixo da sombra e acima da sombra,
o Sol

A foice da fome

Em São Félix do Xingu (PA) trombei com um urubu
o abutre me disse
que urubu não come alpiste 
isso muito me intrigou
o que come pássaro tão nobre, então?
como o teu nome
teu endereço
teu telefone...


12 agosto 2015


a mulher amanheceu
de sua noite
intranquila
rompeu fibras
cardíacas
sentiu que
a manhã seria mais limpa
não haveria a dor nem o sangue não
haveria mais
as nuvens
seriam de algodão


eles não ficarão ofendidos
caso o prazer se espalhe
no piso
ou no chão
de todas as casas
nas quais
iremos coroar
uma nova rainha
do lar
uma rainha
que seduza
liberte instintos,
decapite
cada uma das serpentes
de sua cabeça
de Medusa


nascerá forte
de suas raízes mais íntimas
e femininas
o fundamental
respeito à liberdade e
e à vida


02 agosto 2015

A pulga e a sombra






Agonia crônica pousa na orelha e
pica atrás
deixando o dia inteiro vermelho
e cabisbaixo
um procuro e não me acho,
uma dor de cotovelo
outra dor quando me agacho.

porém ao observar a plenitude do Deus interior
que farfalha através do mais sutil odor
de flor aberta
às incríveis experiências sexuais da primavera
(delicadas cócegas em suas áreas
erógenas) que
deixarão a planta prenha,
carregada de si mesma
nutrida de sol de verão
em seus fluxos de seiva
viva
amadurecendo o sabor
sensual
da fruta,
entendo que a dor existe
o prazer existe
e passo através deles de século em século
no infinito autodescobrir-se
do próprio universo.

29 julho 2015

mensageiro do vento

fazer silêncio faz barulho
quando o pensamento muro
passa pela sua cabeça

Trivial

Oh, agora
lembrei que sou torta
de framboesa, amora
e cereja
observador vejo que seus vasos
sanguíneos não dão mais flor
vibro o lábio inferior
quando sinto
raiva misturada com
dor
agora me lembrei de que minhas mãos
são quentes e minha pele uma espécie
de pétala
que desgarrou
olhos escuros de não se ver dentro
olhos de outono
juntos
beijávamos o mesmo sunday sabor morango
ai, o amor
começou

08 outubro 2013

Por que Hot Dog leva Salsicha e esguicha maionese?



faz seu estilo
sexo verbal, 
oral, 
virtual, 
escrito?

stricto ou lato sexus 
latejando
suas partes íntimas

o sexo que vem
do cheiro
das virilhas

que virgem que vinha!
beber do meu vinho
chamar meu
corpo
de hóstia

Com licença, vou morrer no banheiro


impermanente,
impaciente
ou persiste ou já deixou de existir
e se tornou um rio diferente do rio que corre aqui

rio de lágrimas
e diante das nossas
piadas
eu rio antes
pedra depois

providencia, pois,
as evidências de
que na calada da noite
é que se nota
a finitude de um cigarro partilhado

que só não é maior que o nosso papo furado

o que eu quero mesmo
e sair com você daqui
subir, subir
até exausta
me deixar
quieta
no suor do seu braço

quero que teus olhos vejam 
a doçura mais sutil 
a tua própria e sejas

da pólvora o pavio dos teus sonhos quando
explodirem vivos fogos de artifício 
dentro do céu escuro, sem lua, sem rumo
sem rua

que é teu próprio ser

se ainda não entendes
direito
dá-me tua mão, tua fé
cerra os olhos e vê

que mentira é o dinheiro
que mentira é o dever

vê que sou aquela que te ama e te odeia
porque se prender
à alma de alguém
requer um círculo
fechado,
repleto das memórias
sem as quais
não poderíamos
viver

que mentira é o falso sorrir das noturnas armadilhas
dos bares, do dia-a-dia
que mentira é o dever

E mesmo que a felicidade, o revés, a vida e a morte sejam apenas impermanências
quiçá não existam
ainda podes ser o pavio da pólvora dos teus sonhos
que hão de explodir em cheio
no que há de real e imutável:
o sentir
verdadeiro
o amor de sangue e lágrimas
que há
entre irmãos

26 junho 2013

A cretina

árida
ariana
não
me arranha
neste arame
farpado

áspera
espartana
não me 
espalhe
em ossos e carne

justa
jactância
sua fuga
é sua ânsia

que não me falhe
meus filhos
não são
santos

que não me talhe
meus gritos
em
sânscrito

enquanto houver
sobras sobre
o prato de
comida

haverá fome
do outro lado
da avenina

mesmo se houver sorte
na partida
haverá dor
e ranger de dentes
em outra esquina

mesmo se sobrar
brilho e brilhantina
haverá sempre uma
cretina
a te
criticar

Vintém

Se quiseres
mandar
em alguém
começa por
quem 
não tem
vintém
mas
se queres obedecer
habilmente
basta teres em
mente
tentar
ser
feliz

é sempre alhures
o teu ilustre
prazer

e por ele pagas bem
com o que tens
e o que
não
tens

e o prazer
pulveriza
tua virilidade
tuas varizes
vazam

tua vaidade
é o vácuo
da opacidade
e
se queres libertar-te
do que prende
do que solta
o que pretende
enrosca-se
em nós
mesmos
comentário curtido
em puro tédio cáustico

sonâmbulo
no espaço
confere
a impotência do 
ato

tateio até
o que é vago
e contorno
sua vida
em
fotos, fatos,
status e
obstáculos

insone
sei que o sono some
na velocidade
do seu nome

orgulhoso, não me movo
em direção
ao teu abismo magnético,
minha cara
a chupar
amenos delírios

de ao menos
te fazer rir
na torrente
caótica
que é tua
mente
confusa
e mimada

de ao menos
ter uma noite
a toa

com a
minha
garota

na garoa fina
da madrugada
Bolero Bandido da madrugada 

ah se tu pudesses
fazer recair
outra vez
sobre mim
todo sono 
perdido

ah se tu pudesses
aplacar
até as placas
bacterianas

se outra vez fechasses as persianas
pro meu sono
ser melhor

se fizéssemos mais planos
para o próximo
verão

se tivéssemos tido um
filho, um jardim e um cachorro
ah se o condicional não
fosse assim tão tolo
e vão
um incidente a mais ou a menos
e morreremos
distraídos e mansos
voando em transe
no tapete mágico
do Aladim
em direção
ao Rio de Janeiro

sobrevoando as praias, os Leblons, os coqueiros
até que o bronze do sol
nos ombros deles
deixe o nosso humor
azul


quis o brilho tranquilo
do vaga-lume
que sabe
se iluminar

o viço sombrio
do
escorpião

a distração
da pomba

a fricção
do gato
quando assanha
suas garras
magras
felpudas
afiadas
pra rasgar
meu chão

Atendendes de call center

textura de velório,
tesão
a tv é uma
tesoura incisiva
sangue, pele
morta e
dois atropelamentos seguidos 
no mesmo 
cão
desligo

de nada, por nada, obrigada por tudo
a mãe natureza num roxo veludo...

pra dentro de mim não
vai
sua cabeça é uma sentença
imperativa
que bem poderia
ser
melhor

ser-ia cega,
não chegaria

atrasada

suas contas estariam arquivadas em pastas
divididas em
pagas e não pagas

e seus espirros devido ao ar condicionado sempre abaixo de zero seriam ocultados pelo sussurrar sinistro
das atendentes de call center
lobos esfaimados
quando o cadeado
do Ego
quebra

corujas argutas
quando a 
gruta
do ID é 
funda
nossos encontros
serão sempre 
como se fosse
ontem
somos o mesmo
em outrem
e não te vejo há séculos!

nossas fotografias
não existem mais
não sei nem
seu número

nossos encontros
sempre tão sérios,
tão pautados e tão lacônicos

a primeira vez que te perdi
foi por não lembrar seu
telefone
depois de tê-lo
apagado
há muito

a segunda vez foi durante nossos longos
silêncios
entrecortados
apenas
por brigas

a terceira vez,
foi num domingo
na sorveteria
da Avenida Mirassolândia

poema pavão

um poema cheio de pena
de pele
de tesão

um poema pavão
um poema
leve 
como uma alma penada
é mais válida
que uma alma
desalmada
escrava
da escravidão

uma pena que voa
que soa
como
algo
que não
se
esqueceu
ainda
uma pena não pode
ser uma sentença
definitiva

pode ser
arrependimento
apenas

porque amar
ao léu
é ir do
inferno
a um céu
duvidoso

porque a pena
não penetra
solidão
alguma
principalmente
em agosto
que não chegou ainda
mas promete
não ser
bom
se o dia não basta
inventarei a noite
o raciocínio lógico
e os jogos
de carta

se a vida não basta
inventar a arte

tampouco
tampará
a porta da nave
no vácuo espaço

a palavra não diz
o som não se
propaga

o que você não imagina
não existe
e não há porta
nem chave
que abra
o inimaginável
o impronunciável

e não há religião que aguente
minha mente
quando
quer e quando
sente

não basta ser sólido
há de ser
águia

e não há notícia que me comova
que se exploda que
nossas cabeças
pensem

ao invés de elegermos
decapitados
corpos
novamente
como
imperadores dos desejos
que deveriam ser
seus

Ray Manzarek



ah, sim,
o mundo é de fato um moinho...
mesmo que não sejam mesquinhos
vai destruir seus sonhos
e reduzir sua esperança
a pó

rapidamente, sem que os demais notem,
vai devorar seus ídolos
empoeirar seus livros
afastar sua voz

o mundo triturará com dentes ensanguentados
crianças, mulheres bonitas, velhos aleijados,
mães de família
cães miseráveis que pedem esmola nas esquinas e não são notados
e acabam sendo confundidos com
gente

mas no fim
(oh bela, oh rico, oh gordo empresário!)
que bem pode ser o seu princípio
seu meio
seu escorregadio
esconderijo,
alimentarás o verme
que habita vossas entranhas

Pois só o som das palavras não morrem...
quando percebeu
que o labirinto
de Creta
ao qual
se referiam os gregos
era sua natal Veneza

ou que bem 
poderia ser o mundo
ficou surdo-mudo,
ficou
absurdo até

mas a realidade é que o emaranhado de neurônios
que compunha seu raciocínio-realidade
era na verdade
simbolicamente
um sonho
no sono 
escondo
cansaço
e vontade
de dormir

no sono
sonso
da vida
eu duvido
de
mim

insosso
sou se sinto
sono
se sinto
dor
se ouso
sentir saudade
bem sei
que a veracidade
de meus argumentos
são chinfrins.
você não pode acelerar o tempo
mas pode acelerar seu carro
e você pensa que domou o espaço
até um buraco
te provar o contrário

&&&

eu só pedi
para ser normal

foi deus quem disse
amigo, nem a pau!

a minha fábrica
um dia dá defeito
e com efeito
serás tu eleito
a chacota
da noite
a piada
do pássaro
a viagem da doida
da estação
Paraíso

por isso
te curti no metrô
e conheci minha mina

num camelô

sou todo mundo
que não é você

não vejo futebol nem gosto
de tevê

sou estranho
e tenho até crachá
arrumei um nome
e um Orixá

e enquanto
você se assusta
vou assoviando
pela rua Augusta
bagunça tateante
cabeça de Medéia
com ideias
de Medusa

não me seduza
pois induzir
essa sua seda
sobre mim
tão cedo
se dissesse
sim
seria você
quem não
suportaria

e para provar
meteria o dedo
até o fundo
no pote de doce

meteria o colírio, o sinto
e você
em uma bolsa
valise
com uma etiqueta dizendo "fui à Tókio"
ou "valorize-se"
oh tu que me ins-pira
que bem podia ser droga
fissura
mas é só
a companhia
asmática
da noite dura
durante a madrugada.
nós, que gostamos do Seu Madruga, 
jamais recusamos um gole
um pito
um palpite
uma pitada de nada de vida
na estrada estreita
que a cartilha assina

sua rubrica dizendo ao diabo
aos diabos o que amo e penso e inclusive sou
se soo meio estranho
tacanho
e até covarde
desculpe-me majestade
senhor de minha
razão

mas não
hoje não tem show
nem explicação
nem palmas
nem alarde
hoje sou


eu mesmo
O cio do meu ciúme
o gemido pútrido e
impune

O cílio nos nossos dedos
para decidir
de quem será o desejo

quem saberá primeiro
praticar a indiferença?