19 janeiro 2017

Sobre fugir


Parte II


A primeira vez que o vi, era um dia de chuva, tenho certeza. Uma garoa caiu boa parte do tempo. Sabia, por exemplo, que mesmo após muitos anos ainda seríamos capazes de vibrar com as mesmas músicas, as que ouvíamos, na sala, sentados no tapete, trocando ideias malucas. 

Conheci-o no ônibus, ele sentou ao meu lado, mergulhou os olhos no celular. E num ímpeto de ousadia meio desesperada perguntei se ele poderia me ajudar a encontrar o endereço. Não conhecia nada da cidade ainda. Vim de mochila de um interior áspero e selvagem em que as pessoas perdem rápido a virgindade de todas as coisas que podem dar merda na vida. E lá estava eu: tentando sobreviver  à metrópole.

Ficamos uma fração de segundo conectados nos olhando. Quis chegar perto de sua boca e desejei que sua língua fosse lentamente me fazendo rir dos lugares incríveis que ele conhecia e dos que nem podia mencionar ainda, afinal, não nos conhecíamos. Mas t
ive coragem de falar com ele, perguntar-lhe como chegar ao endereço.

Fui àquela cidade fazer a prova. Estava bem em cima da hora e perder a prova seria perder muito. "Veja, daqui de onde você vai descer, dá para ir a pé". Quis implorar que ele fosse comigo. Talvez tenha implorado com os olhos. Mas se limitou a me instruir e seguir seu caminho, colocou os fones de ouvido, acendeu um cigarro. 

Eu estava focada em meu desespero. Se falhasse, a família falaria por meses a fio, em todas as festinhas e frestinhas possíveis. Uma imagem de horror era a decepção estampada nos rostos estupefatos dos meus progenitores: "não passou, de novo". Então, aquela prova era como um buraco negro em meu estômago.

Assim que me indicou o caminho, agradeci com pressa. A pressa típica da humanidade. Notei que ele se voltou para me ver uma última vez. Parou. Parei também. Por um mínimo momento, continuamos nos olhando. E isso foi tudo.


No caminho até o local da prova, era como se eu ouvisse sua voz e as coisas que diria, mas minha atenção estava mais focada em como seria o toque da sua pele. Nossos braços, lado a lado, a se roçarem: braço com braço, já era quase um abraço, em pedaços mínimos de carne, cheio de tremores internos. 

Não cheguei a me inteirar dos sabores que a boca dele poderia conter, pois estava angustiada com a prova. Nunca cheguei a bebê-lo líquido, pois havia sempre uns pedaços indissolúveis em seu ser. Só sei que o quis logo de cara, sem pudor e sem vergonha, como um jeans rasgado e do avesso.

E não mais o vi. Após alguns anos, sua lembrança tornou-se uma espécie de fantasma. Amor imaginário de rodoviária. 


Até que, certa vez, fui ao apartamento de um casal de amigos dos meus amigos e aquilo seria mais um rolê semidivertido, semialcólico e sutilmente desanimado, se, por alguma dessas coincidências malucas e demoníacas, ele não estivesse lá.

Quando cheguei o reconheci imediatamente. Ocupava seu lugar preferido em qualquer casa: o chão e o tapete. Era, de fato, o moço da estação Barra Funda, que me salvou no dia do vestibular. Que coincidência! Qual seu nome mesmo? Não ficou claro, para mim, se ele realmente me reconhecia. Quem diria...André.

Aquela noite. Até hoje palatável em minha memória. Gosto de lembrar, saboreando aos poucos, que adormecemos com as caras coladas. Dormimos praticamente em cima um do outro, amontoados e bêbados. 

Lembro-me de forma fragmentada. Ele fazendo cafuné em mim. A sensação dos seus dedos arrepiando todo meu corpo num rastro eletromagnético, quando passeavam distraídos em meu couro cabeludo. Nada me faria desistir daquela sensação e dormir, mas o tesão virou delírio e o delírio, um sono agitado de sonhos obscuros. Caí em teias astrais e adormeci com seu carinho.

Acordei com o sol já alto, da sacada direto no olho, em um apartamento estranho. Todos haviam saído. Havia um bilhete, pão e café sobre a mesa. No bolso, meus últimos trocados, que usei para voltar para casa. Pensei se não o veria novamente...vou parecer maluca se pedir o telefone dele? Oi, tudo bem? Então, nos conhecemos ontem e eu queria saber se você topa um cinema, depois um relacionamento, um noivado... Ri alto dentro da minha cabeça.

Mas naturalmente, tornamos-nos colegas, depois amigos. Por isso, fui convidada para acampar com ele. Estrelas. Lá no alto, muitas. André estava lá. Acendeu nossa fogueira, preparou o jantar, tocou tambor e seu violão.
Dedilhava seu violão com dedos tão ágeis, sensíveis, sua voz rouca entoando melodias lindas que ele mesmo inventava. E cantei e dancei. 
Então, reparei em um rapaz de cabelos muito pretos, tocando flauta. E foi assim que conheci Pedro. Ele sorria, bebericando licor de jabuticaba.

Dormimos em volta de uma fogueira morna, tocos enormes em brasa aquecendo deliciosamente nossas barracas. Inalamos o cheiro do mato úmido de quando fica de noite. E um bom punhado da fumaça da fogueira. Nosso pequeno rebanho de aventureiros. Pedro, André, o nosso casal de amigos em comum, e eu. 

Ah, 
Pedro era o melhor amigo de André, evidentemente. Estava na Bíblia. 

E quando o vi, senti-o em mim, como uma queda. Cilada. Labirinto, vertigem e asas. Senti que plumas saíam de seus lábios. E desejei Pedro em dobro, dobrando a língua. Porque sempre me apaixono errado.

No roteiro original da minha vida, eu teria filhos com André e seríamos um respeitável casal pequeno-burguês com pitadas de pilates, sexo grupal e empregos tediosos e respeitáveis. Mas acho que borrei a história. Fiquei confusa. Bilapidada.

Seria apenas uma pulsão no púbis ou um sentir verdadeiro?

Na noite seguinte, ficamos nus. Pedro e eu. Nus embaixo da cachoeira. Ele, cláusula pétrea. Eu, cápsula crua. E nadamos como bons amigos, sem sequer nos tocarmos. Sem ejaculações, elucubrações ou beijo. Nada além de uma boa dose de nadar nua em água escura e fria. O negrume gélido nas têmporas, para amenizar qualquer bebedeira.


Pedro me seguiu. Observou-me sem ser visto enquanto mergulhava com pólvora e pavores, naquela imensidão negra e gelada, pensava em como passei meses, talvez anos, desejando André. E nada. Até ontem seria com ele que me imaginaria nua e trêmula em uma cachoeira, durante a madrugada. E fui roçando-me a essa ideia como um gato roça as pernas de seu dono, derretida em todas as partes entre minhas coxas. 

Então, Pedro pulou logo atrás de mim, bagunçando tudo, agitando a água e segurou meu braço. Puxou-me para dizer alguma coisa. E me vi inalando vorazmente o cheiro que vinha de dentro de sua boca, o calor do seu hálito, enquanto falava bem próximo e baixinho. 

Foi, então, que ele notou. Percebeu que quando se inclinava para falar comigo, algo acontecia, eu arrepiava. Talvez tenha sido um pequeno deslize, um movimento em falso dos meus lábios, um bater de pernas desesperado. O fato é que nossos olhos vibravam diferente. 


Saímos da água e não havia nada para nos aquecer além da canga que eu usara como vestido e, ao lado, a bermuda dele. Molhados e nus nos grudamos, lado a lado, e nos enrolamos em minha canga. Ele não colocou a bermuda. 

Esticou-se passando o braço por cima de mim. Ao meu lado, na pedra, pegou seu cigarro. Acendeu, fumou bem devagar. Ofereceu, quase enfiando-o em minha boca. Fumei, tossi e tremi. Falava e ria engasgado. Queria muito disfarçar meus tremores, mas ao tentar fazê-lo, tremia ainda mais. Pedro, por sua vez, abraçou-me e estava muito quente, tranquilo e infalível, como Bruce Lee. Só os olhos, vibravam estranho, denunciando-o. 

O cigarro acabou. Ele vestiu a bermuda de costas para mim. Olhei sem desviar os olhos porque quis ver o contorno do seu corpo na penumbra do luar. Enrolou-me protetor em minha canga e voltamos assim. Em silêncio, pela trilha. Não nos despedimos. E em silêncio ainda, cada um entrou em sua barraca. 

Na manhã seguinte, acordei muito sóbria e lá estava eu sobre uma pedra enorme, gelada e escorregadia. 
Tirei minha roupa, pulei na imensidão gélida e azul da água. Com medo, confiança e taquicardia. Pedro pulou em seguida. Nadar nus tornou-se nossa rotina, em plena luz do dia, cada centímetro cúbico daquele paraíso aquático era nosso.

Foi assim, aos poucos, que Pedro me invadiu. Durante a noite e durante o dia. Penetrou profundamente meus pensamentos. Pedro e seus seis mil e seiscentos braços hindus abertos para as maiores loucuras de minha vida. Ele era simples e selvagem. André, por sua vez, civilizado em demasia. 

Depois daquela viagem, éramos um casal, um oceano de possibilidades, incluindo overdoses de sexo, porres de porra e absinto. Éramos um misto de sinto muito e sinta-se à vontade. Bebemos juntos tantos litros que poderíamos encher nossa própria piscina olímpica. Éramos o exagero em pessoas. Eu pisava leve, ele tocava flauta, eu flutuava. E fazia panquecas de frutas, durante o dia. O que me enlouquecia, definitivamente, era seu cheiro. E também o fato de que Pedro fazia o café mais forte e firmeza, com chocolate amargo derretendo dentro, do universo.

E a gente trepava muito, de tantas formas e cores escorregadias. Com todos os caprichos mínimos atendidos. 

Pedro era my fucking best friend, ria das minhas bochechas vermelhas e do meu cabelo desgrenhado depois de maratonas de séries e sexo, no quarto. Devorávamos pizza direto da caixa. Tomávamos banho juntos. Passávamos os dias isolados em uma caixa particular mais longe que minha própria imaginação. Nós não fazíamos sentido.


André nos visitava, às vezes. Ficávamos horas conversando e ouvindo música sentados no tapete, enquanto Pedro cozinhava. Fazia a própria massa do espaguete, receita da avó, e saía para comprar vinho. 
Geralmente, depois do jantar, Pedro bocejava esticando efusivamente os braços, então, André ia embora rindo meio bobo e meio ébrio. E tínhamos vontade de conversar mais, a noite toda, a vida inteira. Mas era tarde, era sempre tarde.

A vida fluía. Derreti meu pudor com açúcar e fiz meus órgãos caramelizados para serem degustados com cerveja escura e encorpada, em copo plástico. Eu inflava lentamente, a felicidade enchendo meu corpo de luz.


Então, ela. Apareceu. A amiga.


Quando tudo ficou realmente um pouco chato e repetitivo. Principalmente, quando esgotamos todas nossas doses de dopamina, senti como se minhas panquecas de frutas, a barba de Pedro, e até as músicas de André no tapete, não fizessem mais o menor sentido. E tudo ficou simplesmente chato e estranho, como as muitas noites sem dormir que passamos. 

Não havia mais jantares. André não ria mais meio bobo meio ébrio, ele mal aparecia. E quando vinha, parecia sempre atento e vigilante, passava a noite toda acordado conversando com Pedro, bolando planos para dominarem o mundo e fumando-os todos. Os cinzeiros transbordavam.

E havia, sobretudo, a amiga de André que chegou da Nova Zelândia. Tão linda, bronzeada e bem sucedida até os ossos. Estava sempre no nosso apartamento, vinha de brinde, com André. Vestidos esvoaçantes e um ar sempre malicioso, coroado num sorriso lindo com covinhas. Eu a odiei imediatamente. E não tinha como não amá-la na mesma intensidade.

Ia embora sempre bem depois de mim. Quando eu adormecia cedo, na cama vazia e ela, André e Pedro, riam até às quatro horas da madrugada. Um dia os três adormeceram no sofá. Ela e André com os rostos colados. Fiquei imaginando se ela teria recebido cafuné.

Notei que ela ficava ainda mais bonita dormindo. Acordados, Pedro, André e ela, faziam projetos artísticos para ganharem muito dinheiro juntos. Eu não me sentia convidada, nem incluída.

Estava totalmente deprimida e não podia provar o porquê. Ninguém leva intuição a sério. Exceto eu. Levo intuição tão a sério que devo criar cenários e dar brechas para que as merdas em minha vida aconteçam.


Fiz o que qualquer cão covarde faria. Fugi de minha própria fuga e continuei ali, dependente daquele vício. Pedro tornou-se uma muralha intransponível e as tretas eram tantas que preferia passar minhas horas sozinha, na pracinha do bairro, no carro, no quarto, na cama vazia.

E vi muitos pássaros ali sozinha, mais do que seria capaz de dizer e suportar.

Sentia-me isolada do resto do mundo de tantos voos suaves vistos, de tanto céu. Vi mais belezas que pude dizer. E não teria mesmo a quem contar. Eu era um arquivo indisponível para compartilhamento.

E como um looping de desgraças, foi de repente, quando eu não queria mais nada nem ninguém, que ele me veio tempestade, no diazinho frio e nublado de minha vida, o ciúme.

Perdi o trem e minha voz ficou fraca, minha cabeça pendida. Tive ódio e raiva de Pedro, principalmente porque os ouvi em nosso quarto. Nossos farelos de pizza ainda em baixo da cama, testemunhas oculares do inevitável. 

Não ousei abrir a porta. Quando Pedro saiu, descabelado e feliz, mudou a expressão para um total espanto quando viu meu corpo sacudido em soluços pateticamente mudos, na sala. Eu era um vazio embalado a vácuo. Ele me abraçou, pediu desculpas, ajoelhou. Ela saiu de fininho, imagino que sorria irônica para aquela situação ridícula, tão vulgar para sua elegância nata. Fiz que não a vi. Mas por dentro eu fuzilei todo mundo.

Nossa cama não estava mais tão vazia, afinal.  Em alguns dias, lá estava eu, ainda namorando um Pedro arrependido. No apartamento do nosso casal de amigos. Já era tarde e só não mencionei ir embora porque havia ainda muita bebida. E, sinceramente, já estava muito chapada para dizer ou fazer qualquer coisa. Eu era um foda-se ambulante e arfava. Falava alto, ria, praticamente relinchando, quando André apareceu com sorrisos, mais cervejas, uma euforia atípica. E, desta vez, ele veio sem a amiga. 

Estava sozinho, transtornado e radiante. Algo parecido com aquele André ouvindo música no último volume no carro.
A sala começou a dar leves voltas em si mesma, senti que poderia vomitar se continuasse ali. Então, levantei-me levemente zonza e cambaleante, porém, alegre - e fui ao banheiro. Ocupado.

Esperei décadas, bati. Então, ele saiu. O corredor ficou estreito e o role ficou pequeno. André me olhou. Não disse nada. Segurou minha cabeça com determinação, como deveria ter feito desde sempre, há muitos anos. Enrroscou meus cabelos entre seus dedos com calma e precisão psicopatas e sua boca foi engolindo gentilmente a minha língua. Correspondi com mais força e desejo do que esperava. Fomos à lua. 

Ergueu meu vestido, baixou minha calcinha e me tomou ali. E
 foi assim. Depois de tanto tempo, tantas idas e vidas, que provei pela primeira vez André. Escorremos do corredor ao quarto mais próximo. O sabor de André era como um copo de gelo, rodelas de limão e água fresca explodindo dentro da boca. Seu jeito de me empurrar com a pélvis contra a parede era delicioso. Seu suor tinha cheiro de mar misturado com a brisa cítrica do seu perfume. O fundo da boca, cavernas escuras, sensuais e terríveis. E ele me quis mais que eu a mim mesma. Ele me quis como se fosse ontem, e transbordamos.

Ali, no quarto do fim do corredor, em segundos, tornamo-nos doces animais. Ainda em chamas, gozados, nos olhamos e engolimos seco sem saber o que fazer com aquilo que fizemos. Pedro ria de qualquer coisa no sofá, distraído.

Ele era o melhor amigo do André. E eu só queria mais. Mais. Para o resto da vida. 


Sobre fugir

parte I

Dois dias. Dois dias e tudo seria tão diferente. Difuso, confuso e mais gostoso.

A primeira coisa de que me lembrei quando entrei no carro foi minha mãe, não sei porquê, mas vi seu sorriso através das gotas d´água em meu cabelo suado. A vida suada que ela leva, sempre de tarefa em tarefa. E fui feliz por ela. Agora seria feliz por mim.

O carro acelerou e olhei para ele. O sol fez douradas algumas mexas em seus cabelos, embora eu soubesse quão negros eles podiam ser, no chão de grama. Aquele estranho. Sentia-me como se estivesse saindo de férias e indo ali, passear - o que me deixou realmente feliz, evaporava como a fumaça do nosso papo, dentro do carro, íamos buscar alguns víveres para o acampamento, na cidadezinha mais próxima. Os outros nos esperavam.

Enquanto o carro ia a não sei quantos por hora, o som estridente dos Stones, Sympathy for the Devil, enchia meu cérebro e ele falava atrás daquela cortina de fumaça e eu ouvia, ria, fumafalava também.

Entendi, mais tarde, que não haveria outro lugar no mundo em que eu quisesse estar.

Podia sentir a vibração empolgante de André através do jeito sagaz e espirituoso de sorrir de quem está realmente feliz. Um pinto no lixo, como dizia minha mãe. Um pinto no lixo também estava eu, entre os estranhos, esquisitos, os que têm sede de birita e liberdade, posto que herdarão os reinos do Crepúsculo.

Estava atrás dessa profecia. De sentir com as mãos suadas, de doer o pâncreas, de me riscar e arriscar, de botar meu corpo como última aposta na roleta-russa da vida.

Chegamos já era quase noite. Ele me ajudou com a barraca e procuramos juntos galhos e toras de madeira para nossa fogueira.

Mais tarde, anos e anos depois, eu perceberia que desde o início ele já me ensinava, em cada gesto, em cada olhar, uma lição e eu também o ensinava com meu ímpeto de mergulhar de olhos tão fechados na correnteza incerta da chuva.

Ele nunca se chegou a mim. Era sempre eu, com uma sede raivosa, doce no final, que o procurava para conversar. Algo que de fato eu não compreendia. Nem fazia questão. Eram apenas os dias, a janela do carro, a música radioativa e estridente. Eu era a Deusa e Súdita da Deusa, eu era uma pequena capela onde se podia ficar em silêncio e dobrar os joelhos e ele era o meu milagre. O sacro-profano socando o mundo na cara, cuspíamos as sementes de tangerina na terra. Algo sempre brotava.

Dava para ouvir a cachoeira da trilha. Dava para ouvir meus batimentos cardíacos escorrendo com a água.

Finalmente, acendemos a fogueira. Na verdade, eu e André caminhamos silenciosos procurando por lenha. Depois, André a acendeu. Eu apenas me aqueci ao redor daquele fogo morno e confortável. Cantamos, tamboreamos e louvamos aos céus àquela noite doce, sem pernilongos, cheirando à canela queimada e com o sabor de licor de jabuticaba, que bebíamos.

A lua já ia alta e redonda no céu e eu estava eufórica. Levantei descalço. Ri e disse que precisava dar uma volta. No acampamento, alguns amigos já haviam ido dormir em suas barracas, porém, eu, André e Pedro ainda estávamos lá, quando me afastei, vi o contorno flamejante deles diminuindo. Procurei por um longo momento os olhos de André, mas ele não os tirou do violão. Pedro, porém, olhava fixamente para mim. Mergulhei na trilha procurando um bom lugar para fazer xixi, ouvia  a melodia do violão abafada.

Então, Pedro surgiu.

Apertou meus braços com uma força improvável e desnecessária. Também estava fugindo -não sei bem do quê, mas estava - não me importavam os motivos dos outros. Pedro era o melhor amigo de André. E eu nem sabia ao certo quem era aquele guri. Nem ele, nem eu. Então, ele afrouxou os dedos em meu braço mas seu toque permaneceu, gentil. Queria saber se eu estava bem. 

Senti-me triste, de repente, e curiosa e faminta e não entendia bem o porquê.

André era bom em acender fogueiras e construir um abrigo e preparar nossa janta. Mas Pedro era bom em seguir garotas bêbadas.

Voltamos à fogueira, tomamos o penúltimo gole da última garrafa de licor, mas isso me pareceu irrelevante, não suportaria outro gole sequer, sorria, sorria para tudo que diziam como uma perfeita idiota, mas eles riam também, ríamos todos tolos e era tão bom, como se fôssemos um hábito saudável ao sábado, praticado durante muitos anos.

Pedro puxou minha mão. Nadamos nus na cachoeira sem nos tocarmos. E, após o choque térmico, fumamos e conversamos baixinho. Tremia muito, dentro da minha toalha. Depois, voltamos molhados, com frio e em silêncio para nossas barracas. A bebedeira havia desaparecido completamente. Eu mal fechei os olhos e o céu deu à luz um novo dia.

Na noite seguinte,  André procurou por galhos e madeira sozinho, recusou minha companhia, e acendeu a fogueira com um olhar triste de compreensão. André, tão familiar e tão estranho, tão próximo e tão distante, absorto em elucubrações e uma atitude taciturna. Eu ansiava por André em meu íntimo, em meu coração, mas ele era um muro sem brechas. Por não poder beijá-lo compensei minha frustração bebendo exageradamente o licor de jenipapo que compramos no dia anterior, naquele passeio de carro em que me senti tão confortável e feliz ao lado dele. 

Quando notei, estava cambaleando rumo à cachoeira e me vi nadando com Pedro, novamente. Deixei minha toalha cair mecanicamente, desnudando-me. Era realmente uma ideia tresloucada e sedutora, e me atirei da pedra para o rio escuro.  Deixei que o frio me invadisse, os cachos macios dos  meus cabelos, enroscando-se em mim. E meus lábios tremiam, o frio cobriu meu corpo quente como cristais de gelo a cobrir uma viga de ferro em brasa.

De qualquer forma, já havíamos feito isso antes. Na água, ainda de olhos fechados, mergulhamos. Mas dessa vez, ele se aproximou mais, com um olhar voraz de fome, sentia sua respiração quente e ofegante em meu rosto, sem qualquer cerimônia, deslizou seus dedos para dentro de mim, girou-os suavemente, sentindo cada cavidade íntima. Ao mesmo tempo, massageava-me com muito cuidado. Meu corpo arqueado na pedra. Resistindo e cedendo, tremendo, sobretudo.

Entre meu ofegante querer e sua resoluta vontade, cada pedaço de pele, meus olhos, tremeram até as lágrimas. Ele queria sentir até o sabor de minhas pupilas.
Eu o comprimi com minhas mãos, querendo-o ainda mais intensamente, sua língua deslizava lenta e rapidamente, dançava roque, balada, sonata em fuga. Enlacei minha perna a sua cintura e sugava seu gosto e seu cheiro com todas minhas forças, como se a sua saliva e aquele resfolegar fossem um banquete delicioso oferecido a um animal faminto.

Gozar não diz nada sobre o que senti. Sobre como me senti. A lua cheia simplesmente aumentou de tamanho, eu podia jurar. Mas é por não haver um dizer, que fiquei em silêncio, abraçada ao meu próprio corpo, depois, flutuei nas águas gélidas da madrugada e foi assim que conheci a Paixão de Pedro. 


Voltamos de mãos dadas. O mundo estava em silêncio. Exceto por aqueles sons longínquos de sapos, cigarra, cigarros, e o dedilhar delicado de André ao violão, nos abraçamos até o amanhecer. Após um intervalo de dois dias, André, finalmente, olhou para mim.


07 outubro 2016

Eloísa

Eloísa era ruiva, às vezes,
um pouco tímida.
Com 15 anos fez uma cirurgia rinoplástica para se sentir mais bonita.

Vamos assim chamá-la: púrpura chama,
 nem ela própria se compreendia.

Minha vida e a de Eloísa,
no entanto,
estavam entrelaçadas
em uma linha intrépida
e sinistra.

Pergunta-me seminua agora Eloísa: 
Quem ousa estar acordado tão tarde, sentindo-se algo entre importante
e invisível 
majestade?

Eu não tenho sono.
Eloísa sonha acordada.

Sua boca é de capim limão
e sua pele tem
cheiro de terra vermelha molhada
o cabelo comprido cor de tijolos
açoita-me com um silvo de passarinho
quando a gente 
pega a estrada


 Ela passa
por mim
vai até a cozinha volta sorrindo
segurando com os dedos comprimidos a colher de brigadeiro e os lambendo.
com naturalidade

Eloísa é silêncio entre seus livros
música muito alta
gritos enraivecidos
chora comigo 
e fazemos enormes poças onde nos admiramos
narcisos





O tempo

ontem eu era o tempo que já foi teu

hoje sou o raio de sol nos cabelos dela da outra que fui e permanece como a sombra de uma cerejeira

não há sentido que não se sinta
não há noite que chegue para sua cítara mágica transtocar
quem é Elisangela Neiva?

uma pessoante que soa
inverossimelmente
pessoa.

quem é Marco Aurélio?

o menino de orelhas de abano
sentado sozinho no fundo dos olhos
de uma sala de aula
cheia de macacos de carne

virá o tempo dos furacões
virá o tempo índigo
digno de notas douradas no imenso livro da vida
deste pequeno universo

Noite Insone


já que o sono some
na velocidade do seu nome
estou aqui lendo as entrelinhas dos seus supostos olhos
famintos,
infinitos...
olhos verdes, olhos negros
que nada poderia ser mais amor que este resto amargo
de licor
que sai da sua carne
não durmo
não duro muito tempo em pé
pensando em um hipotético você
recostado atrás do meu
cigarro
as dúvidas são as únicas que resistem
com as pálpebras arregaladas
observando o Nada
absurdo da madrugada
mais um cigarro na sacada
e volto enfim a cair
em minha própria emboscada...

Do luto


Tudo que a mão toca
e permanece ali
encontrado aos olhos
parece tão estranho
enquanto a gente morre
e a mão que tocou
aquilo tudo
naquela casa vazia:
a xícara, o copo, os livros não lidos,
os vasos, o sofá, a estante...
parece tão estranho e distante
que petrifica,
está pálida e fria
e morta.

Hoje não, queridão

O céu clareando aos poucos devolvia cores às fachadas pálidas da avenida
a rua tinha cheiro de desinfetante velho e subia
da boca de lobo um vapor fétido que aquecia.
Dividia com ele o último cigarro cantarolando
The Cramberries, Beatles e a chuva fraca.
Não me lembrava mais das letras e o frio infiltrado na garganta arranhava quando a cerveja descia gelada e, mesmo assim bebia e bebia e a boca seguia seca...
Eu sou uma flor plástica colhida no interior de uma lojinha de relíquias libanesas, no âmago de tudo que se abandonada ao pó e às teias.
Sou meus vultos que vão e voltam, sempre iguais, rodopiam e dançam como se fossem livres de qualquer prisão.
Quero seguir em frente, sair ilesa.
Ele não me quer mais...
Mentiras sinceras sejam bem-vindas, afinal.
O telefone dele toca mas ele não toca no telefone.
Em frente a minha casa ele fazia cara de que podia ficar tanto ao ponto de forçar um sorriso.
Ah, se eu fosse dessas de chorar... Eu diria até que imploro. Mas isso, ah! Isso eu jamais vou falar. Não serei nunca a primeira e única a dizer "eu te amo" e receber um silêncio constrangido no lugar.
Prefiro a imagem da língua dele lambendo minhas costas.

Entramos e, em menos de meia hora, meio sem graça, ele procura o casaco, para ir embora. 
Havia esquecido que não trouxera nenhum.

Tateia os bolsos em busca do dinheiro, que já havia gasto.
Lá está ele, derrotado, sem dinheiro, sem sono, sem cigarros - o peito arfando largo. Confesso, que por dentro eu ria, observando seus olhos meio caídos e a boca um pouco amuada.

Restou-lhe permanecer comigo. Depois de transarmos, dormia cílios tão grandes e
tinha sonhos intranquilos como as batidas do techno numa boate.
Queria dizer que eu sobrevivia de migalhas, mas não é sobre isso. 
Eu só queria mergulhar em seus olhos em plena luz do dia e, é claro, quando finalmente saísse o sol no céu outra vez, entender o que é que eu sentia. 
Mas era qualquer coisa de infeliz.
Eu o acordo, toco seu ombro e o retiro do fundo da cova, na verdade, minha poltrona de veludo vermelha.
Você precisa ir embora. Mas já? Sonolento recolhe o pouco que podia levar de si mesmo.

Ah essa noite, meu querido, não vou correr perigo! Posso até transar contigo, mas dormir ao teu lado, nem pensar. É sobre isso. Sobre como agora eu que vou te usar.

A lufada de ar gelado na porta indica que ele já deu o fora. E que o dia está prestes a.
Amanhã, o mesmo dia.

Beijo Gourmet


feche esses olhos tridimensionais
nenhum lábio que pretenda se abrir em carne 
deve estar acompanhado de olhos estranhos, castanhos, que só enxergam
planos cartesianos
abertos
dentes arreganhados de medo
jamais degustam um beijo
boca seca, que seja,
se a sua saliva salva
a nossa briga de línguas
calma

achismo

a gente acha que não vai morrer
porque tem um bebê
que precisa de mim e de você
a gente filtra sonhos com cipó
e galhos
e adia o dia de romper hábitos
a gente acha que vai durar até os filhos crescerem
mas não acha que vai envelhecer
eu acho que vou ficar
com medo
assustadiça
metade tédio
metade preguiça
e justamente por preguiça
irei trabalhar muito
para viver
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

Acreditadores


a verdade estava lá
escolhendo um vinil pela capa
porque 
tudo era muito antigo
no estilo de vida
dos acreditadores
alguns vieram de repúblicas
estudantis não democráticas
com gravíssimos casos de desvio de verbas
para a nova mesa de bilhar e
e todo aquele macarrão instantâneo
produziam gases e opiniões
particularmente
desagradáveis
digo, os acreditadores nasceram para
serem inteligentes e altruístas
visionários de um mundo sem volta
mas ninguém quer conhecer a verdade que está até agora solitária segurando um copo de cerveja a procurar um som na vitrola que possa agradar]

Filme na sala

Era um domingo de paz
de papel
Era um felino voraz
lá no seu
celular.
E de noite era
comer cachorro-quente e
aí a gente pode ver um
filme diferente e sentir
como se devêssemos morar lá
Tenho mais amigos em
Oz que aqui entre
nós.
Tenho amores aliens nas comédias de Woody Allen.
A gente pode entrar em choque, ver um Hitchcock.
Ou entrar 
em transe e
transar .

Domingo é dia de ver filme que não faz chorar.





a vida
tem cisco
é macia
às quatro horas da tarde
e fria
às quatro da madrugada
são minhas
essas sandálias aí no quarto
guardo recordações
como quem pede desculpas
são tímidas
as tentativas de sorrir por dentro
por enquanto, aguento
mas haverá momento
em que a lua, uivar só
ou murmurar preces
não farão diferença
neste sacro instante
quero virar estrela,

de
diamante
o que eu posso fazer é tão pequeno e delicado
quanto seu pé
meio branco,
morno ou gelado
quando ela acorda tem café
e não poder ir além de fritar alguns ovos com muito carinho
nem precisar ir
além dos ovos fritos com muito carinho
é tão calmo quanto quando se escuta um passarinho
não é para qualquer um escutar passarinho
respiro o fundo do cheiro da boca
daquela moça
que mesmo feliz
é melancólicas
mensalmente menstruais
mas tanto faz
somos doces animais
aproximar-se de alguém, gostar, é um exercício de acupuntura
o eu oferece-lhe sua agulha, perfura
um pedacinho da sua pele-ego
e rompre a pequena bolha de isolamento
em vão, espetando-se suavemente
numa dança de micropontos
pequenos
tocados
na delicadeza
das pontas
penetrados sempre
superficialmente
e agora adoramos com os olhos moucos
a beleza de quem se vê inesperada e reflexilogicamente tocado em diversos pedaços do corpo
por outro
por aquela
moléstia
etérea:
o amor

sobre sábados


sábados são vagos
como são os afagos
os sábados
estão afogados
em perspectivas e perseguições
são lírios em seus devidos lugares
são vagões sublunares
sou eu pedindo desculpas após pisar
nos pés de alguém
por tentar
fazer você tropeçar
seus olhos
no meu olhar
sábados são fantasias de
carnaval, carne vai, carne vem
têm mais gel do que deveria
têm pouca purpurina
sábados são ocos,
ou loucos
ou outros nos quais eu trabalho até tarde e vou dormir de porre de
porra nenhuma
os sábados são os únicos que arrepiam a nuca
são insanos e são
tão poucos
ao longo da semana

Tinder


Não sou a mulher da sua vida
sou o veneno da víbora pulsando 
no seu leito agonizante
de sorte
Sou um cardume de peixes voadores em volta da sua cabeça mordendo a sua clavícula penetrando por sua bochecha
Beliscando a sua orelha com boca apetitosa
Eu quero quando você é rosa
E quando chora
leite e eu sou mel
Escorro
Morna
Deslizo com o corpo

escorregadiço
no seu pescoço
meus pelos pubianos
eriçam
com a mesma calma com que suas mãos
arranham


Você é meu crush mais crocante
mais doce que refrigerante
a acidez lúgubre, porém, dos autores que
lê em seu secreto porão
é o que realmente
me dá tesão


08 agosto 2016

faço de conta que 
sou de aço 
inoxidável pareço
um modo 
de segurança 
falho, uma emergência catastrófica 
do tipo 
vermelha

do tipo sangue na sua calça 
branca
ninguém pode saber
(ninguém sabe)
que, na verdade, 
todas as mulheres sangram
em silêncio e em segredo
porque temos medo
de ser alienígenas

ninguém sabe que não sou
o suficiente
que nunca me sinto
nós
nos prendem
em tédio perpétuo como
um castigo, um sonho, duas toneladas de chocolate
e eu ainda não dormi
não vi
aquela série
não vi
um rosto 
como o que eu imaginei
a vida nunca 
se parece com o filme da tv
mas eu tento
cinquenta e cinco
por cento
de certeza de que
você sente 

o que eu sinto
não é aquela coisa cor de rosa chiclete
com pantufas e lingeries
e pares de brinco que você imagina
é mais como um chilique
um desmaio de sol demais
uma bebedeira de uísque com cocaína

um retração no estômago
involuntária

ao mesmo tempo que em preciso de mais uma cerveja almejo da sua boca
a precisa letra da música
do palco
no fundo
você não quer que nada aconteça porque as partes são comprometidas em contratos
vitalícios que vão
muito além do tesão


mas você não entende
eu sou, só se for completamente
não consigo ficar pela metade e se fico
me multiplico
entre faturas vencidas da Renner
e essa falta de vícios
que a gente sente 
quando compartilha uma ideia


você não entende que
nada disso tem a ver
consigo
explicar
um pouco, não adianta
você só vai entender minha língua
quando estiver explicitamente
a experimentando


17 julho 2016

Há cinco gerações seguidas,
Passava desapercebido
Como pequenos erros de cálculo ou moedas esquecidas no bolso,
O balanço de ferro no fundo de casa.
O cachorro lá se deitava,
Lá se balançava...
Todos já se haviam ido,
Mas enquanto o balanço rangia, lá pros fins dos dias nos cafundós do mundo,
O cão não se apercebia
Que não tinha mais nome, nem dono,
Nem comida,
Nem água
vem pagar caro para ouvir barulho
beber fermentado de milho transgênico
vem fumar veneno
soprar na calçada o vômito da madrugada
ainda amarga na garganta
e não adianta
só o tesão vale a pele...
O saco vermelho do Papai Noel
Não atravessei o
paraíso para aquilo
que pensei 
sou tolo
como qualquer outro
que torce apenas para que a sorte
venha antes da morte
e no meu leito de desespero
comi mingau de arroz e peido:
tudo morre,
tudo morre,
tudo um porre sem fim
tudo sobre você sem mim
Cheguei quase no meio da festa
era a fantasia final
no baile de prematuros,
natimortos
ou natiruts
a dor era fecal
agonizando peixe e azia
a tia da cozinha sabe mais da fina filosofia que meus velhos óculos
adivinham
estou cansado
e é natal
estou cansado
e é natal
estou um saco...
Este seu jogo
eu manjo de longe
não tente esconder
a espuma com o horizonte
não se faça de besta
que eu escuto
até o pensamento
mais escuro
você se acha esperto
um garoto moderno
atrás do rapaz
da capa do caderno
corre atrás dele
para tentar comer
os seus restos de ração
que o cão maior e de latido melhor
mais altivo que o seu
já comeu
até se infartar...
seu papel de palhaço
não tem psicodelia
o seu traço de sorriso
é melancolia...
violento
impulsivo
mimado
detesta perder
detesta esperar
preferencial
não humano
mentiroso
imortal
deus
sorridente
meigo
generoso
altruísta
amigo
humilde
melancólico
sincero
mortal
humano

Barzin

eu quero comer
você de pijama
não quer
cozinhar
eu quero fazer
um bolo e um drama e enrolar
minha paciência na folha de uva.
eu to vendo
uma jovem vulva
vulgar
eu to passando batom
no espelho
do bar.
ainda estou aqui
insistindo na tv
eu não tô nem ai - já são duas da manhã
assim não dá
me passa o sal ou me pega na mesa
mais uma cerveja,

cansei
de passar
batom nessa cara de sonsa
que Deus me deu
prefiro ir pro breu
da minha cabeça
cansei de fazer
alianças só pra perder no ralo da pia uma voz macia
ja me dizia:
o início se funde ao fim
tudo começa com sangue
e termina
unanimamente
em mim.
o maior desespero
daquele pássaro
era voar
o pesadelo do olhar
era ver
seus doces, seus salgados
indo lancheira abaixo
todos comiam:
menos ele
ele era solitáro
e tacanho
dizia coisa sem cabimento
e seu limítrofe e pequeno tamanho
não continha
sequer seus gestos
dizer que usava óculos
era dizer pouco
sua boca
pedia soco
seu jeito de andar
pedia briga
sua família 
- não falemos dela
a família faliu há muitos anos
que sua mãe bebe demais
e seu pai não ganha mais dinheiro
ao chão seu mundo intreiro
há de rastejar por muito tempo
e por algum emprego
não há erro
nem cálculo
por seu próprio proveito
por que não morre agora
simplesmente de câncer?
porque câncer não é tão simples assim,
nem rotineiro
e se tem o modo inteiro para morrer...
por que não continuar
vivo?
o buraco
só aumenta
quando o sacro
se ausenta
sinto o sal da sua presença
a sombra que aqui habita
não hesita nem reflete
há parasitas entre serpentes
enquanto
eu saio de fininho
no bolso
um isqueiro,
três trocados
amassados,
para comer de noite.
a vida leva o sopro da morte
eterna quando seus olhos encerram
uma passagem entediante da bíblia
se eu pudesse
deixaria ainda mais longe
sem água, nem carona
na tempestade de areia
do seu próprio deserto
mas espero
esperto e desperto
seu próximo ato de desespero
com esmero
selo
minha boca
às coisas poucas
que com suas mãos mocas
você me oferece.
de tez em tez o dia
amanhece  
azul pálido perto de um negrume líquido
ninguém é imune ao silêncio cósmico do grito de
antes do sol
nascer
E se você soubesse
Que cada passo apressado
É um passo mais rápido para morte...
Se você tivesse a sorte
De ficar parado, no pasto,
Pensando
O sol a lhe brindar na pele
Raios de puro amor
Apartidário
Mirar-se-ia na mata
Em que se abrem e morrem
Sempre e nunca as mesmas
Flores..
O céu lhe diria em silencioso azul
Sem pudores
O que ninguém com tanta potência impaciente compreenderia

Enquanto houver Londres

Enquanto houver Londres
haverá esperança de que um dia eu possa ir até lá
contemplar nuvens cinzentas acima do Big Ben.

Ora, enquanto houver jardineiras de grávida e martinis o suficiente para esta noite, haverá esperança de que eu fique realmente bem, como se estivesse de férias de um longo e árduo trabalho -
de parto.
Partirei ao meio meus receios
partirei de malas prontas
para Londres, para longe desse burburinho em excesso
tudo que dissermos: será em excesso

as mortes, os acidentes nucleares, as bombas, as crianças 
afogadas
em palavras de pseudofelicidade 

Enquanto houver esse murmúrio dantesco incessante e midiático, todas as palavras se perderão no tempo-espaço
e escrever será tão útil quanto fazer silêncio,
posto que o silêncio
será mais agradável.

paz de cinzeiro

A paz até padece pálida
Se parece com água
Gelada
Suponho que está morta
Paz apagada
Carrego uma bagagem 
triste e pesada,
caindo aos pedaços...
Um sorriso que chora,
uma emboscada. 
Sufoco aos poucos na
felicidade perfeita
a pronta entrega,
embalada a vacuo
para viagem
que levo até o carro e devoro sem notar
enquanto dirijo e nenhum
cigarro basta,
e nem sei quantas latas
seriam suficientes
para substituir um
coração incrédulo,
latente e exaurido
por expectativas
gastas...
Mas em Oz só posso ser a triste mulher de lata
a procura de um coração
que bata
um pouco mais depressa,
enquanto

você
passa
O dia em que te perdoei em segredo
a gota que cai do orvalho da flor
é a mesma gota de dor
desprendendo-se da chuva
a tempestade inteira
existe para sorrir irônica
em sete fragmentos de luz
em um arco-riso
no céu
seus ânimos acalmados
calam-se na brisa inexprimível da noite
tudo é silêncio e simples
a folha velha se vai
para o broto continuar
este amor doido
chamado gosto de fruta
tangerinas transgêneras
goiabas brancas ou vermelhas
acerolas maduras
ou abacates marcianos verdes
como um caroço no
seio
tudo me veio
num relâmpago,
num lampejo
de lampião
Hoje é o dia do perdão
Os amanhãs:
perder-se-ão.
De tanto tentar
tatear no escuro
descobri que o incerto é
seguro
E a vida não tem solução.
Talvez o amor seja um muro
em demolição.
Talvez a beleza não seja
mais esta flor no asfalto
eu preciso ir mais alto
onde o ar é rarefeito
e as nuvens,
meu chão.