17 julho 2016

água morna
escorrendo
molha o fundo
da calcinha
boca
dedo
língua
escorrego
no ego me
tempero com mel
e farinha
Eu que não te amo
houve um engano quando o guarda-roupa misturou nossas camisetas
eu fui ficando bêbada
eu fui ficando
eu fui...

poema do interior que foi para cidade grande

Quando a lua bater
simplesmente abra
seu guarda-luz-de-lua
o espaço necessário
entre a minha saliva fiada e a
sua estrela cadente
murmurada
dentro de tal esnobe peito
o meu defeito
já iluminou muita sarjeta
em que eu dormi,
sonhos sem teto
viciados em crack
e travestis siliconados
na madrugada Augusta
de Sampa.

um coração purulento
pulsando sangue
e não há unguento
que aguente tanta
fome
se não engolir a vida inteira
ela pode engasgar na garganta
e depois não adianta
chorar o cadáver derramado
tive tantos amigos sábios
no momento
estão todos
se fodendo
chupando os ossos
da asinha de frango
fumando as bitucas
da sarjeta
lambendo botas
comendo um cu
ou uma boceta
a tênue dança entre
suas pernas
e a linha reta
o ondular nas costas
do seu cabelo preso
por uma fita vermelha
quem tem mais sede
a vida ou a gente?
quem tem medo
não tem nada,
só razão.
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

acre ditadores

a verdade estava lá
escolhendo um vinil pela capa
porque 
tudo era muito antigo
no estilo de vida
dos acreditadores
alguns vieram de repúblicas
estudantis não democráticas
com gravíssimos casos de desvio de verbas
para a nova mesa de bilhar e
e todo aquele macarrão instantâneo
produziam gases e opiniões
particularmente
desagradáveis
digo, os acreditadores nascerem para
serem inteligentes e altruístas
visionários de um mundo sem volta
mas ninguém quer conhecer a verdade que está até agora solitária segurando um copo de cerveja a procurar um som na vitrola que possa agradar]
coloque no papel
azul ou verde,
amarelo ou violento.
não se esqueça do nanquim
suave venha a mim
um momento
em que seremos lindos,
lidos e ouvidos.
haverá também o silêncio que precede o grito
o surto susto astuto
a crise please repeat
your password again
e uma passagem
minha e sua
para além de Belém
muito aquém dos nossos
planos
para dominar o mundo
neste final de semana.
subversão da língua
a poesia
seria linda
se fosse tácita mas ela grita, espinha
espicha e
infla,
bolha plasmática,
transforma-se em sonhos,
em meras palavras
a poesia tem olhos de águia
encara o amor de frente
mente só pelas beiradas
mas o miolo é mole
e suculento

16 julho 2016

o amor não devolveu meu chip
queria rasgar minha carne e amar
tão bonito quanto as meninas
dos olhos à sombra
tão assombradas quanto
a brisa
queria penetrar minha alma medonha
puxar pelos cabelos
que sua boca viesse de vez em quando
conversar longamente
com a
minha
eu só pedi
para ser normal
foi deus quem disse
amigo, nem a pau!
a minha fábrica
um dia dá defeito
e com efeito
serás tu eleito
a chacota
da noite
a piada
do pássaro
a viagem da doida
da estação
Paraíso
por isso
te curti no metrô
e conheci minha mina
num camelô
sou todo mundo
que não é você
não vejo futebol nem gosto
de tevê
sou estranho
e tenho até crachá
arrumei um nome
e um Orixá
e enquanto
você se assusta
vou assoviando
pela rua Augusta
os minutos
são diminutos
sessenta vezes sessenta cliques
obsessivo-transtornados
basta
um minuto
acordado
e me sinto
mais atordoado
que em sete semanas
sem dormir
sete virgens do rosário
rogando
praga
os minutos são pequenos vermes
roendo a irrealidade,
o sonho de Brahma e não,
não é a número
Um
Os minutos me fazem falta
os sete minutos que sufocaram um gato
um minuto para cada vida
minutos passam
atrevidos
nas pernas finas
do
ponteiro
meios minutos
que valem
por um
inteiro
a
toda hora
fragmentado
esquálido
no risco
do
relógio
vejo
o minuto move
montanhas

sobre sábados

sábados são vagos
como são os afagos
do meninos drogados
afoitos e afogados
em perspectivas e perseguições
são lindos lírios em seus devidos lugares
delirantes vagões sublunares
sou eu pedindo desculpas após pisar
nos pés de alguém
tentando pegar bebidas
no balcão
sendo totalmente
ignorada
sábados são como subitamente
tropeçar seus olhos
no boy magia
e imaginar carentes carícias: carne vai, carne vem
e no fim
têm mais gel do que deveria
têm pouca purpurina
sábados são ocos,
tolos e
os outros,
nos quais eu trabalho até tarde e vou dormir de porre de
porra nenhuma,
são mais interessantes
são os que levam a diante a semana
sórdida seguinte
porém
os sábados são os únicos capazes de me arrepiar a nuca
são insanos e são
tão poucos
ao longo da semana


um coração purulento
pulsando sangue
e não há unguento
que aguente tanta
fome
se não engolir a vida inteira
ela pode engasgar na garganta
e depois não adianta
chorar o cadáver derramado
tive tantos amigos sábios
no momento
estão todos
se fodendo
chupando os ossos
da asinha de frango
fumando as bitucas
da sarjeta
lambendo botas
comendo um cu
ou uma boceta
a tênue dança entre
suas pernas
e a linha reta
o ondular nas costas
do seu cabelo preso
por uma fita vermelha
quem tem mais sede
a vida ou a gente?
quem tem medo
não tem nada,
só razão.

Animalia

ainda hoje eu era um dia qualquer com ruas dentro
com avenidas, engarrafamento e gás tóxico saindo das narinas

ontem eu fui aquele corpo que comi queimado, o sangue que desnaturou e ficou cinza, cor de carne cozida, moída e o molho de tomate
em cima
quiçá eu seja um livro que viajou dias
ou a figueira muito velha da praça que ainda está lá
enquanto as pessoas que amei
já se foram...
Eu fico segurando as pontas
enquanto ela festiva sai no esquema esquiva
A furtividade de suas cores
refletida em velhos caleidoscópios
Eu fico segurando as pontas enquanto é sempre ela que arruma a seda
que acorda cedo
que lava mais os cabelos
e sai para trabalhar
Já não adianta
não vai ter golpe,
nem vai ter janta
E ele estava prestes a chover quando ela, aquarela, tornou-se um arco-íris bem no canto do olho da menina dos olhos, dele. E assim, na corda bamba do acorde bambo, o ritmo dos pingos a cair no chão, a fizeram relembrar que ele se precipitava em chuva e ela em torrencial mansidão. aceitando.

Vanessa Yves

lenta, gótica e lânguida
saltei na selva satânica
cai na solidão
de para-quedas nesse paredão
o muro me esmurrava e só dizia
não
as cores eram cinza-espuma em comunhão com minha sintonia e meus sintomas de confusão
desabava água dos meus olhos e lá do céu - que agonia não se via pássaros apenas meus passos molhados caídos em água fria do chão]
lerda, lógica e titânica
levantei os cílios borrados de rímel e ri, meu deus, o mel
é mais doce entre o tétrico e o tântrico 
Vá com Baco, meu amor
nem que seja pro Buraco e essa dor, esse uivo,
vai passar do ponto
vai virar churrasco
vai virar fiasco e o primeiro convidado
comerá farias cruas do meu coração

Do Luto

Tudo que a mão toca
e permanece ali
encontrado aos olhos
parece tão estranho
enquanto morre
a mão que tocou
aquilo tudo
que fica pela casa:
a xícara, o copo, os livros não lidos,
os vasos, o sofá, a estante...
parece tão estranho e distante
que petrifica
Tenho medo de ser enganada
por mim mesma, ao longo de uma longa conversa
dessas que nunca são a sós, por mais que se esteja
Tenho medo de derramar molho no olho dos outros
de tropeçar em minhas próprias mãos
de cair de boca em uma outra
calda de cereja
De me tornar a minha própria obsessão
De sentir tesão em horários impróprios
de bater à porta de banheiros públicos
de rastejar
de certos sons
Tenho medo do medo e da vergonha
Tenho medo da morte
E de assombração, já que as sombras são assim
assustadoras em si.
Tenho medo de tocar
uma pele tão diferente da minha
e medo que essa pele me
toque de volta.

Da imagética no capitalismo

olhos sintéticos
cheios de luz
quem tem tempo
de pintar as próprias unhas?
os colegas
comem pizza sem oferecer
vão a bonitos lugares
salutar os pulmões
realmente vão usar
os sais de banho
comprados no ano
passado
vão competir a respeito
da inteligência dos filhos
bebericando
vinho
poderiam até andar de bicicleta aos domingos
se tudo não fosse tão violento
se o raciocínio das massas não fosse lento
e como seria bom se houvesse
ao menos um jornal decente
para ler enquanto se toma o café
daquela padaria,
a melhor
da cidade,
você sabe.

15 julho 2016

coloque no papel
azul ou verde,
amarelo ou violento.
não se esqueça do nanquim
suave venha a mim
um momento
em que seremos lindos,
lidos e ouvidos.
haverá também o silêncio que precede o grito
o surto susto astuto
a crise please repeat
your password again
e uma passagem
minha e sua
para além de Belém
muito aquém dos nossos
planos
para dominar o mundo
neste final de semana.
eu só pedi
para ser normal
foi deus quem disse
amigo, nem a pau!
a minha fábrica
um dia dá defeito
e com efeito
serás tu eleito
a chacota
da noite
a piada
do pássaro
a viagem da doida
da estação
Paraíso
por isso
te curti no metrô
e conheci minha mina
num camelô
sou todo mundo
que não é você
não vejo futebol nem gosto
de tevê
sou estranho
e tenho até crachá
arrumei um nome
e um Orixá
e enquanto
você se assusta
vou assoviando
pela rua Augusta
Eu tô botando o dedo na tua cara
Na tua ferida
No teu discurso
sem lógica, sem curso
com pós-graduação em Bolsomito
Eu não te engulo
Eu te vomito

politicagem

Era um vez um pobre orgulhoso
Que sonhava ganhar na loteria
queria ser gerente
queria comprar, por exemplo, roupas da haute couture e brilhar
O pobre orgulhoso não gostava de pobre
e se odiava, por isso, jurando
a si mesmo "É temporário"
chorando em seu pobre travesseiro
sem pena,
nem ganso
E comprava seu mundo perfeito aos poucos
em dez parcelas no cartão
E gostava só de linguiça
se fosse da Perdigão
porque um tal de Luciano anunciou
na televisão
mas ele mesmo, o Luciano, só comia Angélica
e nunca nem tinha provado linguiça
alguma
O pobre orgulhoso tinha uma longa lista de ódios
o topo da lista era gente
vagabunda
e depois
vinha criança, porque dá trabalho e grita e suja
ódio de bicho, porque faz sujeira
de planta, porque é besteira
de feriado, porque não tem nada pra fazer
e de trabalho porque o deixava exausto
O pobre pobre apodrece
em seu orgulhoso verde e amarelo anti-comunismo
pobre anti-pobre
pobre anti-bolsa
anti-Freire
pobre pró bala,
pró boi
pró Frota
pró bíblia
o pobre pobre só não sabia que o próximo
a ser pisado
seria ele
e sua família
Poesia de classe média só aborda tema elevado
Fala muito de física quântica, amor e tempo nublado

O primeiro emprego


fantasia -Eno e Fanta para sua asia
aos poucos e a esmo os elefantes ficam pasmos,
perdem seu marfim e suas trombas tombam deselegantes no palato que não distingue mais o sabor do amendoim...
os leões idosos e castos recolhem seus bagos e seus caninos, amansam o rugido e lambem a própria pata supondo, talvez, que esta nova ninhada não sobreviva aos dentes e garras de seu sucessor felino.
e obviamente, os únicos animais aptos a fazer cobrança, são as cobras.
manjadas, essas moças escondem-se atrás de óculos e livros.
piores são as que escondem o escuro dos olhos (no fundo, castanhos) no sorriso e se fazem de rosa ou de orquídea.
e nos primeiros dias de Estágio é facilmente detectável que alguns sapos, de fato, têm pelos. Eles crescem no queixo da inspetora de alunos e espetam os olhos malvados das criancinhas.
dois dias de atestado médico equivalem a uma epidemia. se houvesse duas férias ao ano, o que, diabos, eu faria?
e o que mais me agonia é saber que quem anda nos trilhos acaba atropelado pelo trempo

09 maio 2016

a vida
é um cisco
um ciso
é macia
às quatro horas da tarde
e fria
às quatro da madrugada
são minhas
essas sandálias aí no quarto
guardo recordações
como quem pede desculpas
são íntimidas
as tentativas de sorrir por dentro
por enquanto, aguento
mas haverá momento
em que a lua, uivar só
ou murmurar pragas
não farão diferença
neste sacro instante
quero ser só
quero ser

de diamante



04 dezembro 2015

noite insone


já que o sono some
na velocidade do seu nome

estou aqui lendo as entrelinhas dos seus supostos olhos
famintos,
infinitos...

olhos verdes, olhos negros
que nada poderia ser mais amor que este resto amargo
de licor
que sai da sua carne

não durmo
não duro muito tempo em pé
pensando em um hipotético você

recostado atrás do meu
cigarro
as dúvidas são as únicas que resistem
com as pálpebras arregaladas
observando o Nada
absurdo da madrugada

mais um cigarro na sacada
e volto enfim a cair
em minha própria emboscada

06 novembro 2015

ainda sou o que perdi

meu tempo, 
meus óculos,
meus horários
amizades,
os cartões do banco
o lugar da fila
o telefone
daquele moço...
tal qual carrara que se esculpe
retirando-se o excesso
cai de mim todo um bloco de desculpas esfarrapadas
desabam
sacolas de pão e frutas
rolam pela rua
enquanto fico me perguntando
se realmente
o moço da padaria
me deu
o troco
errado...

Tânia e o espelho

Tânia mira o espelho
espreita os olhos
passa lápis de cor preta
em volta dos cílios
uma massa de rímel
deixa seus lábios mais vermelhos
e as bochechas coradas, batom, blush
é uma sombra com brilho...
Tânia disfarça as espinhas
com pós e máscaras
e quando está quase perfeita:
Tânia deita de porre (na cama)
e dorme.
E o espelho fica sem entender nada.

conto erótico #1


Sandra andava muito ocupada com as crianças e há alguns dias não penteava mesmo os cabelos e os seus pelos cresciam em seu corpo lenta e livremente, de fato. Passou a mão em seu queixo e o sentiu sujo de papinha de neném seca, desceu seus dedos pelo pescoço, de olhos fechados, o calor da sala misturado à bagunça da casa fez suas pernas ferverem, apertou com força os próprios seios túrgidos de leite, ainda, enfiou dois dedos desvencilhando-se do vestido do pano úmido da calcinha. O bebê chorava baixinho de fome no berço, enquanto ela termina, arrumou os cabelos, lavou o rosto. Olhou-se no espelho e sorriu, calma, com uma tranquilidade mansa e um amor por sua vida inconfundíveis.

Planos para o fim do mundo


amor io-iô
dedo dentro do maiô amarelo
que a onda do mar
salgue leve
o sal da pele
salte e espere cheiro de água de peixe
cheio de água de coco na boca
balanço de rede
debaixo da sombra e acima da sombra,
o Sol

A foice da fome

Em São Félix do Xingu (PA) trombei com um urubu
o abutre me disse
que urubu não come alpiste 
isso muito me intrigou
o que come pássaro tão nobre, então?
como o teu nome
teu endereço
teu telefone...